Sony Berdiano, a coragem de cantar a partir do lugar onde se baixa a guarda

31 de Julho de 2026
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Sony Berdiano escolhe como ponto de partida a disponibilidade para se expor. Em "Vulnerável", single que chega a 31 de Julho e antecipa o álbum "Sony Boy", o cantor, compositor, produtor e criativo cabo-verdiano radicado em Portugal testa uma ideia simples, mas difícil de sustentar sem cair no óbvio: a de que a intimidade só se torna real quando alguém aceita correr o risco de ser visto.


“Vulnerável, vulnerável, vulnerável”, insiste o refrão, quase como se a música precisasse de fixar a ideia antes de explicá-la. Sony conta que já queria escrever sobre esse tema há algum tempo, mas a forma chegou num momento de produção, quando o refrão lhe apareceu na cabeça como uma célula melódica: “Vuni, vuni, vulnerável”. A partir daí, diz, tudo começou a fluir. O que podia ficar apenas no território de uma frase bonita tornou-se a chave de uma nova fase. Para o artista, “Vulnerável” é uma faixa dentro de um projeto maior; e o estado emocional que permitiu que esse projeto existisse.


"Sony Boy", nas palavras do próprio, nasceu quando ele se permitiu sentir, viver e transformar essas experiências em arte. A vulnerabilidade que dá título ao single pode funcionar como tema - uma palavra colocada no centro de uma canção para lhe dar profundidade - ou como método, quando implica processo, conflito e exposição reais. Sony aproxima-se da segunda hipótese: para criar o álbum, teve de aceitar experiências, emoções, conquistas e fragilidades. Teve de se abrir. É nesse gesto que "Vulnerável" ganha relevância para lá do romantismo imediato.

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Musicalmente, a faixa move-se entre afrobeat e R&B: o primeiro dá-lhe movimento, energia e sensualidade; o segundo abre espaço para a parte mais emocional, mais próxima do corpo sem deixar a alma fora da conversa. A letra confirma essa dupla natureza. "Porto li é seguro bae / cunfia bem cu tudo", canta ele, apresentando-se como lugar de confiança. Mais adiante, "deixa corpo encosta, deixa alma encontra" junta desejo físico e ligação emocional na mesma imagem.


A faixa não se afasta da linguagem sensual que atravessa muito afro-R&B contemporâneo, mas tenta deslocar a sedução para uma ideia de cuidado. Quando Sony diz que aquele porto é seguro, está a sugerir que a entrega precisa de uma arquitetura emocional: alguém só se permite baixar a guarda quando sente que do outro lado não há violência, julgamento ou descuido, num registo em que a vulnerabilidade surge como condição para que uma relação deixe de ser performance.


É uma ideia que o artista liga à resistência masculina em assumir fragilidade, medo ou dependência emocional. Para Sony, muitos homens continuam a crescer com a ideia de que precisam de ser fortes o tempo todo, como se mostrar insegurança ou admitir necessidade fosse uma diminuição e inclui-se nesse processo, sem se colocar acima dele: reconhece que também está a aprender a baixar a guarda e a falar mais sobre aquilo que sente. "A verdadeira força está precisamente em ter coragem para sermos vulneráveis", diz.


Num contexto musical em que a masculinidade ainda é muitas vezes encenada através de domínio, distância emocional ou invulnerabilidade, esta escolha tem interesse. Não por ser completamente nova, mas por aparecer num artista que vem de um universo afro-lusófono onde a canção de amor, o corpo, a dança, a nostalgia e o orgulho identitário convivem de formas complexas. “Vulnerável” não é um manifesto teórico sobre masculinidade. É uma música de desejo. Mas, ao fazer do desejo um espaço de confiança e não apenas de conquista, abre uma pequena fenda numa narrativa mais endurecida sobre o que um homem pode cantar e admitir.


A colaboração com Bbeba reforça essa abertura. Sony já tinha gravado o refrão e o seu verso quando percebeu que a música precisava de uma voz feminina. Descobriu Bbeba através de um cover de uma música de June Freedom, artista cabo-verdiano que partilhou o vídeo dela nas redes sociais. Ao ouvi-la, pensou que precisava de fazer uma música com aquela voz. Contactou-a, apresentou-lhe a ideia e a atmosfera de “Vulnerável”, e ela identificou-se com a visão. Uma semana depois, enviou-lhe o verso. O processo decorreu à distância: ela gravou nos Estados Unidos, ele em Portugal, e até o videoclipe foi construído nessa lógica transatlântica.


“Vulnerável” é uma faixa que vive entre geografias, línguas e sensibilidades. Sony canta em Kriolu; Bbeba entra em inglês com uma perspetiva que pergunta: “If I give you all of me, all the parts no one else has seen / Can I trust you with my heart, my mind, my body?” A pergunta prolonga aquilo que Sony já vinha a construir: a intimidade como risco, a entrega como confiança, o corpo como território que só se abre quando há cuidado.


Sony sublinha que a colaboração aconteceu de forma natural, mas o resultado parece pensado como diálogo. Ele cria o espaço seguro; ela interroga se esse espaço é real. A mistura entre criolu e inglês funciona como dramaturgia: duas pessoas, dois lugares, duas formas de formular a mesma pergunta. Como confiar no outro sem desaparecer dentro dessa entrega?


A língua é um elemento central do modo como Berdiano se pensa. Para o artista, o criolu vai além de um ornamento identitário e de uma marca de autenticidade: é a língua das raízes, da cultura, da família, dos amigos, da comida, da memória afectiva. Diz que há emoções e expressões que, quando traduzidas literalmente, podem manter a mensagem, mas perdem uma certa intensidade. Em criolu, sente-se mais natural, mais próximo de si. E isso torna-se decisivo num projeto que quer falar ao mundo sem abandonar a origem.


Ciente da pressão que muitos artistas sentem para cantar em inglês se quiserem internacionalizar-se, ou em português se quiserem aproximar-se do público português, ouviu essa pergunta várias vezes desde que começou a cantar. Mas a sua convicção é outra: hoje é possível chegar a palcos internacionais cantando em criolu. Aponta exemplos de artistas cabo-verdianos que ajudaram a levar a língua e a cultura mais longe, como June Freedom, Djodje, Nelson Freitas, Mayra Andrade e Dino d'Santiago. E olha também para a circulação global do afrobeat e do amapiano como prova de que as pessoas não precisam de compreender todas as palavras para se ligarem a uma música.


O álbum previsto para setembro deverá juntar criolu badiu e sampadjudo, português, inglês, espanhol, francês, holandês e suaíli, fruto de colaborações e encontros acumulados ao longo dos últimos anos. Em “God Damn”, por exemplo, Sony fala da presença de criolu, inglês e holandês; em “Free My Soul”, a participação de Bama, da Colômbia, traz o espanhol. O objetivo não é apagar Cabo Verde para caber numa ideia abstracta de mundo; é o contrário: levar Cabo Verde para a conversa global, permitindo que a língua viaje ao lado de outras línguas e culturas.


Esta ambição diz muito sobre uma geração de criadores afrodescendentes e africanos em Portugal que já não pensa a identidade como fronteira fixa. Sony parece pertencer a esse campo: artistas que cresceram ou circulam entre referências, plataformas, cidades, famílias, línguas e cenas, e que recusam escolher entre raiz e movimento. A sua música atravessa afrobeats, afropop, amapiano, dancehall, R&B e rap, mas ele não parece interessado em transformar essa variedade numa crise de definição. Pelo contrário, vê nela liberdade. A linha que une tudo, diz, é a vertente afro e a sua identidade enquanto artista cabo-verdiano.


A liberdade também se nota na forma como descreve o seu lugar criativo. Sony não se define primeiro como cantor, compositor ou produtor. Define-se como criativo. A música é uma das formas principais dessa expressão, mas não a única. Fala de produção, captação, mistura, masterização, vídeo, pós-produção, viola, estética, roupa, cabelo, linguagem e forma de olhar o mundo. Assume que ser artista vai para lá da música: está na maneira como se veste, fala, pensa e transforma aquilo que sente numa realidade. “Eu sou arte”, diz, numa frase que podia soar inflacionada se não viesse acompanhada de uma prática concreta de fazer, testar, falhar e voltar a construir.


Fundador da 97 Entertainment, envolve-se em produção musical, eventos, gravação, filmagem e criação de conteúdos. A música deixou de ser a única paixão quando percebeu que tudo na sua vida parecia regressar à arte e à criatividade. Começou como forma de expressão, mas aos poucos abriu portas, trouxe resultados e ocupou o centro da sua rotina.


A diferença entre “The Last Gentleman Alive”, projeto de 2023, e “Sony Boy” ajuda a perceber essa evolução. Sony vê o álbum anterior como uma etapa necessária para que esta nova fase possa nascer. De lá para cá, diz ter crescido pessoal e artisticamente: viajou, conheceu culturas e pessoas, viveu experiências que alteraram a forma como olha para si e para a sua arte. A propósito, recorda os primeiros lançamentos e reconhece o crescimento. Ainda que estranhe algumas das escolhas antigas, não deixa de valorizar esse registo emocional. São composições que, de alguma forma, o fazem viajar no tempo, regressar ao que sentia, ao que vivia e a quem era.


Durante a criação do projeto, Sony tentou trabalhar com o mínimo de recursos possível: menos plugins, menos softwares, menos drum kits, mais atenção ao essencial. Ao reduzir as opções, obrigou-se a ouvir melhor o que cada elemento fazia dentro da música. A bateria precisava de dar movimento sem engolir a intimidade. As melodias tinham de criar atmosfera sem excesso. As vozes precisavam de espaço para respirar. A limitação tornou-se liberdade criativa.


Ainda assim, não romantiza a ideia de fazer tudo sozinho e fala da colaboração como uma das chaves do projeto. Em “Vulnerável”, 2weeks acrescentou detalhes ao instrumental e participou no processo de mistura; Rossini Andrade, que Sony descreve como um dos grandes engenheiros de áudio de Cabo Verde, trouxe experiência técnica e sensibilidade de som. A relação com Rossini já vinha de “The Last Gentleman Alive” e de outros trabalhos através da 97 Entertainment.


Sony sabe produzir, escrever, gravar, pensar imagem e orientar processos, mas compreende que a autoria não precisa de ser feita de isolamento. A música evolui quando outras pessoas entram com experiência, escuta e perspetiva. No caso de “Vulnerável”, esse encontro é também simbólico: Bbeba traz uma outra voz e uma outra geografia; 2weeks e Rossini ajudam a afinar a matéria sonora; Sony mantém a visão, mas permite que ela seja expandida.


O álbum de setembro vem para prolongar esta lógica. “Sony Boy” não será, segundo o artista, uma narrativa única do início ao fim, mas antes uma fotografia de diferentes momentos da sua vida. Amor, desejo, perda, crescimento, identidade, liberdade e conexão humana atravessam o projecto. Canções como “Come Over”, “Linguagem de Amor”, “Dodu na Bo” ou “Body Language” parecem continuar a explorar as várias formas de intimidade física e emocional.


“Free My Soul” aponta para a necessidade de libertar mente e alma. “God Damn” ocupa uma energia mais descontraída. No conjunto, Sony quer que se perceba o músico, mas também o lifestyle, a forma de viver e a importância que dá a aproveitar cada momento.


Sony Berdiano ainda não é uma figura consolidada no grande mapa da música lusófona, mas transporta perguntas que esse mapa precisa de continuar a fazer. Que lugar tem o Kriolu numa pop cada vez mais global? Como se cria a partir da diáspora sem transformar a identidade em embalagem? Como se fala de desejo sem repetir apenas velhos códigos de posse? Como se constrói uma carreira quando o artista também é produtor, realizador, estratega e aprendiz permanente?


“Vulnerável” não responde a tudo isso de forma definitiva, nem precisa. A sua força está em abrir a porta certa. É uma canção feita entre Portugal e os Estados Unidos, atravessada por Cabo Verde e apontada a um mundo onde as línguas já não precisam de pedir licença para coexistir. Por agora, “Vulnerável” fica como cartão de visita e declaração de método. Para criar, Sony diz que precisou de abrir-se. Para amar, canta que é preciso confiar. Para levar a sua música mais longe, escolhe não abandonar aquilo que o formou. É essa a forma como escolhe apresentar-se: um artista cabo-verdiano em processo de expansão, com os pés no criolu, os ouvidos no mundo e a convicção de que a fragilidade, quando assumida, também pode ser uma forma de força.

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