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Entre os dias 5 e 15 de março, o Teatro do Bairro, em Lisboa, recebe Combate de Negro e de Cães, texto do dramaturgo francês Bernard-Marie Koltès, com encenação de Zia Soares e produção do Teatro GRIOT. A peça coloca em cena um enclave europeu instalado em território africano depois do fim formal do colonialismo e expõe as tensões de poder, linguagem e território que continuam a atravessar as relações entre Europa e África.
No centro da história está Alboury, interpretado por Matamba Joaquim, um homem que atravessa o cerco de um estaleiro controlado por brancos para reclamar o corpo do irmão, morto em circunstâncias suspeitas. A recusa em abandonar o espaço sem o corpo desencadeia um confronto silencioso em que as estratégias se acumulam e o poder revela as suas fissuras.
Para Zia Soares, o texto de Koltès continua inquietantemente atual porque descreve um sistema que nunca desapareceu. “A peça é quase uma anatomia de um sistema que não desapareceu, apenas se reorganizou. Continua a operar através da economia, da linguagem, da burocracia e da gestão.” A encenadora sublinha que, apesar de a ação decorrer num enclave europeu em África, a estrutura de poder descrita no texto encontra eco no presente. “Também aqui essas formas de organizar o mundo continuam activas, naturalizando quem decide, quem representa, quem é protegido e quem é descartável.”
Na encenação, o espaço do estaleiro surge inicialmente como um território controlado e protegido. Mas essa aparente estabilidade começa a desfazer-se à medida que a noite e o som dos guardas negros se aproximam. Segundo a encenadora, o cerco, além de físico, também é simbólico. “O enclave parece organizado e seguro, mas o cerco constrói-se a partir da noite. O que para os brancos é um ruído indecifrável é, na verdade, linguagem, estratégia e comunicação.”

©Marlene Nobre
A chegada de Alboury rompe esse equilíbrio e o pedido de um corpo transforma-se gradualmente numa disputa mais ampla sobre memória, território e poder. “Reclamar o corpo é reclamar o território.” Para o ator Matamba Joaquim, que interpreta Alboury, o trabalho sobre a personagem partiu do princípio claro de evitar reproduzir imagens simplificadas associadas aos corpos negros. Durante o processo, a equipa procurou construir uma presença contida, mas determinada. “Tivemos sempre o cuidado de trabalhar na contenção sem perder intensidade. Os corpos negros foram muitas vezes associados à força e à violência. Aqui quisemos construir um corpo metódico, que se impõe mesmo quando fala pouco.”
À medida que o conflito se intensifica, a insistência de Alboury ganha uma dimensão política. “Reclamar um corpo negro é um gesto político que contraria a narrativa histórica que desvalorizou a vida e a morte das pessoas negras.” Ao longo da peça, a pressão exercida pelos homens do estaleiro não faz recuar a personagem, pelo contrário, reforça a determinação. “Recuperar o corpo é retomar o território, retomar a soberania e o protagonismo da própria história.”
Escrita no final dos anos 70, Combate de Negro e de Cães continua a ser uma das obras mais discutidas de Bernard-Marie Koltès. Ao situar o conflito num enclave europeu em África, o autor expõe as continuidades entre colonialismo e as novas formas de exploração económica e simbólica.
Na leitura proposta pelo Teatro GRIOT, essa tensão atravessa o palco através de um ambiente noturno onde o som, o silêncio e a presença dos corpos constroem um confronto constante. O espetáculo conta ainda com interpretações de António Simão, São José Correia e Thomas Coumans, cenografia e figurinos de Neusa Trovoada, música e design de som de Xullaji e desenho de luz de Ricardo Campos.
Combate de Negro e de Cães está em cena no Teatro do Bairro, em Lisboa, de 5 a 15 de março, com sessões de quinta a sábado às 21h00 e aos domingos às 16h00. No dia 8 de março, o espetáculo será seguido de uma conversa com o público. Depois da temporada em Lisboa, a peça segue para Leiria, onde será apresentada a 27 de março, no Teatro José Lúcio da Silva, assinalando o Dia Mundial do Teatro.
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