Em apenas oito anos, Cabo Verde chegou à elite do futebol feminino africano

30 de Julho de 2026
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Seleção cabo-verdiana | ©Federação Cabo-verdiana de Futebol

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A seleção feminina de futebol de Cabo Verde estreou-se esta quarta-feira, dia 29, na fase final do Campeonato Africano das Nações (CAN) Feminino, com uma derrota por 2-0 frente ao Gana, no Estádio Moulay Rachid, em Casablanca, Marrocos. O resultado não altera, contudo, o significado do momento: é a primeira vez que Cabo Verde participa na principal competição de seleções femininas do continente africano.


As "Tubarões Azuis" estão inseridas no Grupo D, ao lado de Gana, Camarões e Mali, e voltam a competir a 2 de agosto, frente aos malianos, precisamente a seleção que Cabo Verde afastou na fase de qualificação. O CAN Feminino 2026 decorre em Marrocos entre 26 de julho e 16 de agosto, na 14.ª edição da prova e, pela primeira vez, com 16 seleções em competição.


Para perceber o alcance desta estreia, é preciso recuar até à origem da seleção. Faz oito anos que Cabo Verde criou a sua seleção nacional feminina de futebol. Em menos de uma década, uma equipa que dava os primeiros passos conquistou um lugar na Taça das Nações Africanas Feminina (CAN), a principal competição de seleções do continente africano. A qualificação para a edição de 2026 não representa apenas o maior feito do futebol feminino cabo-verdiano até à data, mas também simboliza a evolução de um projeto que cresceu de forma consistente desde o primeiro jogo disputado, em 2018 - uma história que passa por uma seleção liderada, desde o início, pela mesma treinadora, e que teve no apuramento frente ao Mali o seu momento mais decisivo.


A 16 de novembro de 2018, a seleção feminina de Cabo Verde disputou o primeiro jogo a da sua história frente à Guiné-Bissau, no Estádio Nacional, na cidade da Praia. O jogo amigável teve como resultado  uma derrota por 1-0 acabou por ser secundário. Pela primeira vez, uma equipa feminina representava oficialmente o país num encontro internacional, abrindo um novo capítulo para o futebol cabo-verdiano. O futebol ocupa há décadas um lugar central na identidade desportiva de Cabo Verde. A seleção masculina foi, durante muitos anos, o principal rosto do país nas competições internacionais. A criação da seleção feminina representou, por isso, um novo passo na evolução do futebol nacional, permitindo que as mulheres passassem também a vestir a camisola de Cabo Verde nas competições organizadas pelas instâncias africanas. A primeira convocatória reuniu 23 jogadoras representando as ilhas de Santiago, São Vicente, Sal e Fogo. Entre elas estava Lúcia Moniz, capitã da equipa e uma das figuras que ajudaram a escrever a primeira página desta história.Poucos meses depois, em maio de 2019, Cabo Verde voltou a defrontar a Guiné-Bissau, desta vez no primeiro jogo oficial da sua história, integrado na Zona A da União das Federações Oeste-Africanas (WAFU). Nesse mesmo ano, a Federação Cabo-verdiana de Futebol (FCF) criou também a seleção feminina de futebol de praia, reforçando a aposta no crescimento da modalidade.


Se existe um nome que atravessa praticamente toda a história recente da seleção feminina, esse nome é Silvéria "Nita" Nédio. Muito antes de assumir funções na equipa nacional, Nita já era uma referência do desporto cabo-verdiano. Foi atleta de andebol, modalidade em que conquistou títulos nacionais, praticou ginástica rítmica e também futebol, antes de encontrar na formação de jovens atletas a sua principal missão. Durante vários anos dirigiu a academia Bola P'ra Frente, na cidade da Praia, dedicando-se ao desenvolvimento de jovens jogadores e jogadoras. Em 2014 entrou para a história ao tornar-se a primeira mulher a conquistar o Campeonato Nacional masculino de sub-17 como treinadora, um feito inédito que reforçou o reconhecimento do seu trabalho no futebol cabo-verdiano. Quando a FCF decidiu criar a seleção feminina, em 2018, Nita foi escolhida para integrar a primeira equipa técnica. Esteve presente no primeiro jogo da história da seleção e acompanhou o crescimento da equipa praticamente desde o seu nascimento.Ao longo dos anos, tornou-se também uma das vozes mais ativas na defesa do futebol feminino em Cabo Verde. Em diversas intervenções públicas, tem sublinhado que o futuro da modalidade passa pelo investimento na formação de base, pela criação de mais oportunidades para as raparigas e pelo envolvimento dos clubes, das escolas e das comunidades.Sob a sua liderança, a seleção ganhou estabilidade, confiança e maturidade competitiva, preparando-se para alcançar o momento mais marcante da sua história.


A caminhada rumo ao CAN Feminino de 2026 encontrou o seu momento decisivo na eliminatória frente ao Mali. Depois da derrota por 1-0 na primeira mão, Cabo Verde precisava de uma resposta forte para manter vivo o sonho da qualificação. A equipa respondeu com uma vitória por 4-2 na segunda mão, garantindo um apuramento inédito para a fase final da Taça das Nações Africanas Feminina. Entre as protagonistas desse encontro estiveram Larissa Melo, que abriu o marcador e lançou a recuperação cabo-verdiana, Ivânia Moreira e Eleia Vieira, cujos golos ajudaram a confirmar uma das vitórias mais importantes da história do futebol feminino no país. A Confederação Africana de Futebol (CAF) descreveu a qualificação como um novo capítulo para o futebol feminino cabo-verdiano. Para uma seleção criada apenas oito anos antes, o apuramento representou a confirmação de que o trabalho desenvolvido desde 2018 começava a produzir resultados.


Este marco na competição africana trouxe maior visibilidade às atletas e reforçou o lugar do futebol feminino no panorama desportivo cabo-verdiano: a confirmação de que o trabalho desenvolvido desde 2018 começava a produzir resultados. A estreia de ontem frente ao Gana, ainda que saldada em derrota, é já parte dessa história: a de uma seleção que, há oito anos, dava os primeiros passos e que hoje compete, de facto, entre as melhores de África.

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