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Cinema e televisão sempre partilharam uma base comum na construção de narrativas visuais, ainda que com tempos, formatos e públicos distintos. Em Portugal, essa relação atravessou mais de um século de produção audiovisual e hoje vive uma nova fase marcada pelo streaming e pela reorganização do mercado.
A parceria entre a Amazon e a TVI para o relançamento de “Morangos com Açúcar” funciona como exemplo concreto dessa alteração. A série, criada no início dos anos 2000 e terminada em 2012, regressou onze anos depois numa lógica combinada entre emissão televisiva e circulação digital.
Com o novo formato, vieram também novas caras e novas narrativas, adaptadas ao contexto e às dinâmicas sociais atuais. Paralelamente, os percursos profissionais deixaram de obedecer a uma sequência previsível, com as entradas a serem feitas por múltiplas vias. Formação artística, redes digitais e circuitos internacionais passam a ser parte de uma mesma equação, agora marcada por métricas como alcance e retenção que influenciam decisões de produção e visibilidade. É nesse cenário de transição que se afirma Ulé Baldé, atriz que em 2024 integrou o elenco de “Morangos com Açúcar” e cuja trajetória espelha as possibilidades desta nova fase do audiovisual português.
“A minha maior referência são as pessoas reais que conheci. Foram elas que me ensinaram humanidade”
Ulé Baldé

DR

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Nascida na Guiné-Bissau e radicada no Porto, Ulé iniciou o percurso nas artes visuais antes de chegar ao cinema e à televisão. A formação em Artes e Design e a especialização em Ilustração ofereceram-lhe as noções básicas de construção de imagem, composição e narrativa pictórica, mas foi no teatro que encontrou a possibilidade concreta de expressão profissional.
“Fui-me descobrindo e percebi que o palco era o lugar onde eu conseguia ser quem eu quisesse”, conta a propósito dos primeiros passos. Apesar da descoberta progressiva, a atriz vê o teatro como um espaço onde o corpo e a palavra ampliam aquilo que antes se resolvia na superfície do papel. Influenciada por figuras como Paula Rego e Viola Davis, tem nas referências o equilíbrio entre os dois mundos: de um lado a matriz estética que recusa a complacência e insiste na criação de personagens densas, do outro um percurso de afirmação sustentado na vulnerabilidade e na possibilidade de incorporar o pessoal como carga dramática. Ainda assim, quando fala de método, desloca o foco para o terreno concreto: “A minha maior referência são as pessoas reais que conheci a trabalhar nos sítios onde estive. Foram elas que me ensinaram humanidade”, assume numa lógica em que o quotidiano surge como laboratório de observação.
Na construção das personagens, o processo começa por pesquisa – vídeos, contextos, referências –, mas não se esgota aí. “Eu posso vir com uma referência, mas depois tudo muda estando num sítio específico onde vou gravar.” O espaço, a relação com os colegas e as indicações do realizador introduzem variações que obrigam a reajustar intenções e a personagem constrói-se como um puzzle cujas peças se vão encaixando ao longo da rodagem.
Foi essa visão que transportou para a estreia no cinema, em 2022, quando integrou o elenco de Nação Valente (Tommy Guns), do realizador Carlos Conceição. Ainda a concluir a licenciatura, não esconde ter-se sentido “atirada aos leões”: além de ser a primeira produção, o projeto estava inscrito no circuito internacional – foi selecionado para a competição internacional do Festival de Cinema de Locarno na qual viria a vencer o Prémio do Júri Jovem. Na obra, Ulé deu corpo à personagem Tchissola, “uma menina tribal que descobre o amor e a morte quando o seu caminho se cruza com o de um jovem soldado português”. O trabalho valeu-lhe, em 2024, o Prémio Nico da Academia Portuguesa de Cinema, distinção atribuída a novos talentos com potencial de continuidade, numa edição que distinguiu também Salvador Gil e Rúben Simões.
“[A televeisão] abre-nos a públicos que se calhar não iriam a um festival de cinema independente”
Ulé Baldé

©Elio Nogueira
Seguiu-se Primeira Obra (2023), de Rui Simões, onde interpretou uma ativista num registo marcado pela improvisação. Para sustentar a personagem, estudou intervenções públicas de Greta Thunberg, com o objetivo de compreender a cadência e a convicção sem recorrer à imitação. “Uma coisa é termos um guião e seguirmos o que lá está. Outra é improvisar”, resume, sem descurar o papel do realizador a quem agradece a possibilidade de experimentação naquele que considera ter sido “um desafio enorme.” Nos últimos anos, integrou elencos de projetos de relevância no cinema nacional e internacional. Após Primeira Obra, entrou na curta-metragem Bad for a Moment, de Daniel Soares, distinguida com Menção Especial no Festival de Cannes 2024. Mais recentemente, participou em Magalhães, do realizador Lav Diaz, que estreou em Cannes 2025 e foi o filme escolhido pelas Filipinas para a corrida aos Óscares.
Em paralelo, a participação em Morangos com Açúcar colocou-a num território distinto, não apenas pelo alcance mediático, mas pelo tipo de público que convoca. Se o cinema de autor circula sobretudo em festivais e salas específicas, a televisão – agora também consumida em ambiente digital – entra em casa, atravessa gerações e cria um contacto mais imediato com quem vê, diferença que reconhece sem hierarquizar os meios. “Abre-nos a públicos que se calhar não iriam a um festival de cinema independente”, observa, sublinhando que a visibilidade televisiva tem uma dimensão transversal que o circuito cinematográfico nem sempre atinge em Portugal.
As diferenças, porém, não se resumem só à audiência e para a atriz, a questão central está no tempo. “No cinema há mais contemplação”, afirma, ao referir-se à possibilidade de trabalhar silêncio, pausa e subtileza. “Há um tempo de realização maior.” A câmara, diz, permite que a emoção seja lida num olhar, sem necessidade de amplificação. Já na televisão o ritmo é outro e as gravações fazem-se fora de sequência narrativa, o que implica ter interiorizado todo o arco emocional da personagem antes de entrar em cena. “É uma grande ginástica”, resume, numa referência à rapidez exigida e à precisão emocional que tem de surgir quase sem margem para erro.
A alternância entre o tempo dilatado do cinema e a cadência acelerada da televisão obrigou-a a ajustar método e concentração. Se em Nação Valente trabalhou a contenção perante uma câmara que capta mínimos gestos, em Morangos com Açúcar teve de responder a um sistema de produção onde se pode gravar, no mesmo dia, uma cena de rutura e outra situada num momento anterior da narrativa. “Temos de ser orgânicos e presentes”, explica, referindo-se à necessidade de manter coerência interna mesmo quando a cronologia da história não acompanha a cronologia da rodagem. A experiência televisiva trouxe-lhe também consciência da relação direta entre exposição e reconhecimento público. A presença numa série de grande circulação altera a forma como é vista na rua, nas redes sociais e dentro do próprio setor. Ainda assim, evita reduzir o trabalho à dimensão da visibilidade e reconhece que o contacto com novos públicos é uma consequência natural do trabalho, não necessariamente um objetivo isolado.
"Percebi que o palco era o lugar onde eu conseguia ser quem eu quisesse”
Ulé Baldé

© Nuno Vieira

© Nuno Vieira
Apesar da visibilidade, Ulé faz parte do conjunto de artistas que, não raras vezes, se veem confrontados com uma das questões mais persistentes do setor: a instabilidade. A presença em produções com ampla circulação pública não equivale, proporcionalmente, à continuidade profissional. Entre um projeto e o seguinte, por vezes instalam-se intervalos que podem ser longos o suficiente para comprometer a estabilidade financeira. “Achei que, depois do primeiro filme, ia conseguir muitos trabalhos”, recorda. A expectativa esbateu-se perante a realidade de um mercado onde os castings nem sempre circulam de forma plenamente aberta e onde o acesso às oportunidades depende, em muitos casos, de outras redes.
Representada pela agência Eleven Dot Eight, reconhece a estrutura profissional como decisiva para navegar no meio e assume que “é mais fácil se tivermos alguém que nos guie”, sublinhando que a delegação da gestão estratégica lhe permite concentrar-se na preparação artística. A entrada no setor, que inicialmente se fez através de contactos informais e redes sociais, tornou evidente a importância de mediação profissional para garantir continuidade.
A necessidade de mediação profissional não elimina, contudo, a vulnerabilidade estrutural do setor. Pode organizar o percurso, ampliar o acesso a audições e negociar condições, mas não altera o facto de a produção nacional continuar dependente de ciclos de financiamento irregulares e de um mercado reduzido. “É preciso haver uma mudança urgente”, afirma, numa alusão às condições salariais e à dificuldade de um jovem ator viver exclusivamente da sua arte. Mesmo após a distinção da Academia Portuguesa de Cinema, reconhece que o prémio representou validação institucional, mas não significou estabilidade financeira. A intermitência entre projetos mantém-se e, com ela, a necessidade de conciliar a vocação artística com outras formas de rendimento.
Com os influencers a ocupar grande parte do digital, e em alguns casos a chegar a meios como a televisão, a discussão sobre uma eventual substituição surge como exemplo mais amplo das transformações do mercado. Ulé não dramatiza o fenómeno, mas reconhece que as decisões de produção estão cada vez mais atravessadas por métricas de alcance e notoriedade prévia. Ainda assim, insiste que a permanência deve depender do trabalho sustentado. “Se parar aí, ainda é pior”, diz, como quem recusa a lógica de que a competição mediática invalida o investimento na formação e na prática continuada, postura que articula na forma como encara o futuro.
A preparar a estreia na série “Desnorte”, realizada por Jorge Paixão da Costa que comporá a grelha da OPTO/SIC ainda este ano, repete a palavra “expansão” como objetivo de futuro. Aprofundar técnica, experimentar linguagens que exijam maior domínio corporal e vocal e integrar projetos internacionais que a confrontem com outros métodos de trabalho são algumas das metas que tem em mente, numa trajetória que aponta para o teatro musical como extensão natural de um percurso que começou na imagem e encontrou no palco um espaço de liberdade física.
A forma como projeta o futuro não se separa, contudo, da ideia que tem sobre o papel da arte. Em tempos marcados pela polarização, defende que o trabalho artístico não deve impor leitura fechada e que deve ser medido pela capacidade de provocar reflexão. Se o público sai da sala ou desliga o ecrã a pensar no que viu, o objetivo foi alcançado e a arte cumpriu a sua função. “A arte deve ser neutra para dar espaço ao espectador”, conclui.
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