Quem é Usumane Djumo, o barreirista luso-guineense que quer chegar aos Jogos Olímpicos

6 de Abril de 2026
Usumane Djumo entrevista
Usumane Djumo | DR

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Recentemente, a Junta de Freguesia de Armação de Pêra homenageou Usumane Djumo. A cerimónia foi simples, local, com a presença da comunidade que o viu crescer, mas o presidente Bruno Alves encontrou palavras que iam além do protocolo. “Mais do que os títulos e recordes”, disse, “o seu percurso representa um exemplo de superação e dedicação. A partir de uma realidade local, conseguiu atingir níveis de excelência que hoje o colocam a competir entre os melhores em Portugal.” Para o atleta, receber esse reconhecimento em Armação de Pêra teve um peso que nenhuma medalha substitui. “É a prova de que, mesmo correndo lá fora ou no Norte do país, nunca esqueço de onde venho. O Algarve está sempre comigo na pista.”


Usumane Djumo tem 24 anos, nasceu em Bissau em novembro de 2001 e é recordista nacional da Guiné-Bissau nos 60 e nos 110 metros barreiras. Esta época sagrou-se campeão nacional em Portugal na pista coberta e prepara-se agora para representar o país de origem no Campeonato Africano de Atletismo, em Accra, Ghana, entre 12 e 17 de maio. Entre a aldeia do litoral algarvio onde cresceu e as pistas dos Mundiais, há uma história que começa muito antes de qualquer troféu.


Armação de Pêra recebeu-o, e foi ali, naquela pequena localidade do litoral algarvio, que foi percebendo o que era pertencer a um lugar. “Essa mudança ensinou-me resiliência desde cedo”, recorda. “Aprendi a adaptar-me, a lutar pelo meu espaço e a dar valor a cada oportunidade.” A dualidade entre o país onde nasceu e o país que o formou existe, mas Djumo recusa-se a encará-la como tensão, pelo contrário, acredita ser essa a sua força. “Sou luso-guineense com muito orgulho, e essa dualidade deu-me uma força mental enorme que levo para o desporto.”

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“Aprendi a adaptar-me, a lutar pelo meu espaço e a dar valor a cada oportunidade”

Usumane Djumo

Usumane Djumo entrevista

DR

Foi nos treinos da Associação de Atletismo da Bela Vista, em Lagoa, que o atletismo entrou na sua vida. No início, como acontece com a maioria dos jovens atletas, era apenas um miúdo a divertir-se na pista. Mas os tempos foram descendo. As vitórias regionais foram chegando. E com elas, um momento de viragem interior, um “clique” em que entendeu que, para chegar ao topo, o atletismo teria de deixar de ser passatempo e tornar-se projeto de vida.

A decisão de rumar ao Norte foi o passo que transformou esse projeto numa realidade competitiva. Na Maia, Djumo passou a ser treinado por José Barros, antigo Diretor Técnico Nacional da Federação Portuguesa de Atletismo. O nível de exigência, diz, disparou. “A minha disciplina passou a ser milimétrica, a técnica de passagem das barreiras foi refinada ao detalhe.” O horizonte também se alargou: a ambição deixou de se medir em títulos nacionais e passou a medir-se em finais mundiais. “Passei de querer ser "bom em Portugal" para querer ser "competitivo a nível mundial".

Os números acompanharam essa ambição. Esta época, na pista coberta, Djumo baixou a marca para os 7,96 segundos nos 60 metros barreiras, conquistou títulos na Zona Norte e a nível nacional, e ajudou o Clube de Atletismo Olímpico Vianense a subir à primeira divisão. Nos 110 metros barreiras em pista ao ar livre, chegou aos 13,88 segundos, abaixo dos 14 segundos, uma barreira simbólica no atletismo. É uma progressão que o coloca, segundo os dados da World Athletics, entre os quatro melhores atletas africanos nos 60 metros barreiras e entre os oito melhores nos 110. Em março, esteve em Torun, na Polónia, nos Mundiais de Pista Coberta — o mesmo recinto onde o seu companheiro de treinos Gerson Baldé, também orientado por José Barros, se sagrou campeão do mundo do salto em comprimento, numa das maiores marcas do atletismo português recente.

O atletismo é, por natureza, uma modalidade de solidão. Uma prova de 110 metros barreiras dura cerca de 13 ou 14 segundos - menos que um jingle na rádio, que dura entre 15 a 60 segundos. O que não se vê é o que acontece antes: os treinos diários frequentemente duas vezes por dia, a fisioterapia, a atenção ao descanso e à nutrição, a renúncia a grande parte do que é típico na vida de um jovem de 24 anos. “As barreiras não perdoam”, resume Djumo. “Se falhas um detalhe, ela está lá, impassível.”

“Ser o responsável por colocar o país de volta num Mundial de Pista Coberta enche-me de orgulho”

Usumane Djumo

A competir pela Guiné-Bissau, admite que a escolha de representar o país foi “uma decisão de coração.” Optou pela bandeira do país onde nasceu, e tem honrado essa escolha com marcas que colocaram a Guiné-Bissau de volta no mapa do atletismo mundial. Em 2025, esteve nos Mundiais de Tóquio. Em 2026, esteve em Torun. “Ser o responsável por colocar o país de volta num Mundial de Pista Coberta enche-me de orgulho”, afirma.

Foi com esse espírito que, quando recebeu o Troféu de Mérito Internacional em Silves, não ficou com ele. Empacotou-o e enviou-o para a Federação de Atletismo da Guiné-Bissau. “O que conquisto em Portugal é também vosso”, frase que elucida toda a complexidade de uma vida construída entre dois países.

Para Accra, Djumo vai com o objetivo de chegar à final, competir com os melhores especialistas de barreiras do continente africano e, se as condições o permitirem, trazer uma medalha para a Guiné-Bissau. É um campeonato que funciona também como palco para uma declaração de intenções: a de que um atleta formado no interior de Portugal pode competir com os melhores de África e do mundo.


E depois de Accra, o horizonte é mais longo. Djumo fala de presenças regulares em finais de Mundiais e, como destino maior, dos Jogos Olímpicos. Mas fala também de outra coisa: de usar a sua plataforma para melhorar as condições do atletismo na Guiné-Bissau, de inspirar os jovens do Algarve e do Minho, de ser lembrado, no final da carreira, não apenas como o homem dos recordes, mas como alguém que abriu portas. «Quero que, no fim, olhem para mim não só como o homem dos recordes, mas como alguém que abriu portas para a próxima geração.»

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