10 anos de “Sem Truques” e a forma como Vanessa Borggea criou o espaço que a televisão nunca lhe deu

3 de Agosto de 2026
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Vanessa Borggea | DR

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Vanessa Borggea tinha cerca de 12 anos quando aprendeu, sozinha, a editar vídeos. Ainda com disquetes, a frequentar cibercafés para descarregar videoclipes de Destiny's Child, Jennifer Lopez ou Shakira através de programas de partilha de ficheiros, passava as férias de verão fechada em casa a montar e a remontar essas imagens, enquanto os amigos ficavam na rua.


Anos mais tarde, ainda em Portugal, participou no concurso Miss PALOP e, no ano seguinte, foi eleita Miss Cabo Verde Portugal. Fez também alguns videoclipes e anúncios publicitários. Foi por essa via, e não pela moda em si, que se aproximou de pessoas ligadas à produção televisiva, um meio que, no início dos anos 2000, oferecia pouco espaço à representação africana, e foi também através dessas pessoas que começou a perceber, por dentro, as razões concretas dessa dificuldade de entrada.


Viveu em Portugal até aos 22, 23 anos, sempre a editar vídeos em contexto privado, sem que esse trabalho ganhasse carácter profissional. A mudança para o Luxemburgo chegou depois, com resistência: o marido, Pedro Ferro, partiu primeiro e passou dois anos sozinho no país antes de Vanessa se decidir a segui-lo, receosa de um destino sobre o qual sabia pouco. Os pais de ambos tinham, entretanto, saído do país; o casal ficara sozinho, e a gravidez do primeiro filho, aos vinte anos, tornava a estabilidade financeira uma urgência concreta.

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Vanessa Borggea | DR

"Em dois anos fizemos coisas que em dez anos não conseguiríamos fazer em Portugal", resume Vanessa. Foi essa estabilidade que lhe deu espaço para recuperar a ideia antiga de criar conteúdo próprio, inspirada na criadora brasileira Antônia Fontenelle e na liberdade de dizer o que quisesse sem depender de um convite da televisão tradicional. Partilhou a ideia com Pedro, e nasceu assim, em 2015, o "Sem Truques": ele a assumir a filmagem, ela a tratar da edição e da apresentação. O ponto de partida veio do emprego que Vanessa tinha então numa discoteca no Luxemburgo - através de Marcel Rama, promotor luxemburguês responsável por trazer artistas ao país, conseguiram os primeiros contatos. O convidado do episódio inaugural foi o Deejay Telio, então associado ao tema “Que Safoda”, cujo título e conteúdo dificilmente teriam espaço num canal de televisão generalista.


O nome do programa, sugerido por Pedro, respondia a uma observação antiga de Vanessa: a de que os artistas dos PALOP, entrevistados pela televisão portuguesa, adotavam frequentemente um comportamento distante do seu quotidiano, apagando traços de identidade que fazem parte do próprio trabalho artístico. "Nós somos sem truques, não é só pelo nome do programa", conta a locutora, que se descreve como alguém que não julga quem se expõe diante dela - "porque eu sou uma pessoa que falha" -, preferindo trocar experiências a corrigir comportamentos. Daí vêm as entrevistas sem local fixo, em casa do artista, na rua, no local de trabalho, sem grande aparato técnico, com espaço para recomeçar uma resposta ou cortar um momento sem que isso pesasse como falha.


Nos primeiros anos, fazia-se por prazer, à margem das métricas de audiência - "nunca foi o nosso foco a visualização, porque senão já tínhamos parado há muito tempo" -, num terreno com pouca concorrência: quase não havia canais de entrevistas exclusivas para o YouTube em português, e o público que existia ainda não tinha o hábito de procurá-las. Com o tempo vieram alguns contratempos, e com eles o peso de gravação, edição e promoção a recair inteiramente sobre o casal. "Foi muito trabalho mesmo para quase zero retorno", diz Vanessa, referindo-se a reconhecimento e não necessariamente a remuneração. Terá sido Pedro, nos momentos de maior cansaço, a conter o ímpeto de continuar - "se fosse por ele, em alguns momentos tínhamos parado" -, ainda que a ele atribua também a abertura do projeto a outros territórios musicais, como o rap crioulo, que só passou a acompanhar depois de o marido insistir para que ouvisse artistas como Vado ou Baby Dog. Até porque, aqueles com quem temos mais contato, são, por norma, aqueles cujo talento mais facilmente ignoramos.


Vanessa explica: "Achamos que o meu irmão, ou a minha irmã, ou o meu tio, ou a minha vizinha, fazem sim alguma coisa mas não é especial", diz, sobre uma tendência que reconhece na própria comunidade, pouco disposta a validar o mérito de quem lhe é próximo antes de esse mérito ser reconhecido lá fora.


Em 2018, o "Sem Truques" passou a ter presença regular no programa "Bem-Vindos", da RTP África, com Vanessa e Pedro a assumirem a cobertura de eventos culturais ligados à língua portuguesa no Luxemburgo e na região. Das entrevistas passaram à reportagem, o que trouxe uma aprendizagem editorial nova: regras de corte de câmara, tratamento de som, um limite de tempo que obriga a reduzir dias de filmagem a poucos minutos de emissão. Trouxe também limites éticos que só foi percebendo na prática, ao ver conteúdo cortado sem perceber logo porquê. "TV é TV", resume, sobre essa distância face ao registo mais livre do "Sem Truques" - ali, diz, "não tem problema nenhum” ao conteúdo aparecer tal como foi registado, tal como o próprio título deixa adivinhar. A parceria manteve-se em 2026 e em julho, a dupla cobriu pela primeira vez o festival Afronation para o programa. 


Há cerca de cinco anos, Vanessa juntou-se também ao programa "Morabeza", da Rádio Latina, ao lado do jornalista Henrique de Burgo. Criado décadas antes por João da Luz, figura de referência da comunidade cabo-verdiana no Luxemburgo entretanto falecida, o programa tinha um peso simbólico que Vanessa sentiu de forma direta ao integrar a equipa: falar português, e não crioulo, gerou resistência entre parte do público, habituado à história do programa. Henrique de Burgo integrou-a desde cedo na parte técnica, mistura de som, controlo de volume - "sinto-me em casa", diz sobre esse acolhimento.


A resistência a uma cabo-verdiana que não fala crioulo já lhe voltou a bater à porta mais do que uma vez, inclusive em espaços públicos ligados à comunidade, e Vanessa vê nisso um problema que também atinge outras figuras públicas cabo-verdianas na mesma situação. "Eu não sou menos cabo-verdiana que um cabo-verdiano que fala crioulo de Santiago ou de São Vicente", diz, descrevendo a atitude de quem confronta como "ignorância", vinda tanto de quem pouco produz pela cultura cabo-verdiana como, por vezes, de quem ocupa posições de destaque na comunidade.


O trabalho na rádio, limitado por definição a um público local, deu a Vanessa vontade de fazer o mesmo no “Sem Truques” em formato mais alargado e, recentemente começou a publicar conteúdo escrito de atualidade nas redes sociais, uma primeira fatia - entre 5% e 10%, calcula - de um projeto de comunicação mais amplo, ainda por lançar, que descreve como continuação do "Sem Truques" e não como algo à parte. Falta financiamento e tempo que a rotina atual não permite. "Tenho esse mau vício de achar que consigo fazer tudo sozinha", diz, atribuindo a demora mais a essa dificuldade em pedir ajuda do que a circunstâncias externas. Sem data definida, aponta o próximo ano como horizonte possível.


Questionada sobre o que falta alcançar, Vanessa distingue entre sonhos já cumpridos - independência financeira, casa própria, família - e uma fase de evolução: viver exclusivamente da comunicação, sem outro trabalho paralelo, continuando o "Sem Truques" com vídeo, opinião e autenticidade. "No futuro vejo-me como uma africana forte que consegue chegar aos seus objetivos", resume.

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