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Em setembro, um grupo de barbeiros e cabeleireiros nas províncias de Luanda e Huíla vai aprender a fazer algo que raramente consta de qualquer formação profissional: cortar o cabelo de uma criança em tratamento oncológico, ou de uma criança cujo sistema neurológico reage de forma diferente ao toque, ao som da máquina, à luz do espelho. A iniciativa chama-se Toque de Inclusão e é o primeiro projeto a ganhar forma dentro do Reino Inclusivo, a plataforma que a empresária angolana Vina Criolo anunciou para apoiar crianças neurodivergentes, com deficiência, mobilidade reduzida, síndrome de Down, sequelas de queimaduras ou em tratamento oncológico, e as respetivas famílias.
A formação, gratuita, ensina a criar um ambiente mais tranquilo, a reconhecer diferentes reações sensoriais e a prestar um atendimento mais atento a pais, cuidadores e profissionais que lidam com estas crianças no dia a dia. As inscrições abrem no final de julho, a primeira sessão está marcada para setembro, e o arranque acontece em dois dias de formação em cada uma das duas províncias. Vina Criolo adianta à BANTUMEN que há também negociações com câmaras municipais portuguesas para replicar o projeto em Portugal, ainda sem localidades nem datas definidas.
A escolha de começar por um gesto tão específico, cortar cabelo, não é acidental. Foi precisamente aí que Vina identificou uma das lacunas mais concretas que viveu enquanto acompanhava o tratamento oncológico da filha, há cinco anos, quando a criança tinha três anos. "O Reino Inclusivo surge daquilo que realmente vivi, vi e senti ao longo dos últimos cinco anos", conta. Foi nesse período, entre hospitais e tratamentos, que percebeu como os cuidados com o cabelo e o couro cabeludo de uma criança em quimioterapia ou radioterapia continuam por resolver em quase todos os espaços que a deviam acolher.
A experiência hospitalar aproximou-a também de outras famílias com diagnósticos diferentes, crianças autistas, com síndrome de Down, mobilidade reduzida ou sequelas de queimaduras, e da perceção de que cada uma destas realidades exige respostas próprias que, hoje, praticamente não existem de forma organizada em Angola nem em Portugal. "O projeto nasceu da minha dor", resume, ao explicar que foi com o marido, um primo e outros familiares que começou a desenhar o que viria a ser o Reino Inclusivo.
A ideia é que a plataforma cresça como uma marca agregadora, capaz de reunir, com o tempo, uma componente digital, lojas físicas, atividades recreativas e parcerias com clínicas. Entre as vertentes previstas está a Luzilândia, um parque móvel para grupos de 15 a 20 crianças com necessidades específicas, pensado para levar lazer adaptado a zonas do interior de Angola onde esta resposta praticamente não existe, com conversas já em curso para o replicar também em Portugal. A plataforma digital seguiria a mesma lógica de reunir num só lugar informação sobre clínicas, hospitais públicos e outros serviços, para que pais e cuidadores não tenham de procurar isoladamente uma consulta para avaliar uma possível leucemia, um diagnóstico de autismo ou de perturbação de défice de atenção e hiperatividade, ou produtos adequados para a pele de uma criança que sofreu queimaduras. As lojas físicas, previstas para Angola e Portugal, seguiriam o mesmo princípio, com artigos como vestuário sensorial sem etiquetas ou costuras, abafadores de ruído, produtos de compressão e mordedores terapêuticos.
Para Vina, porém, nenhuma destas vertentes substitui o essencial. "Uma criança com cancro, síndrome de Down, autismo, TDAH ou que tenha sofrido queimaduras será sempre uma criança, seja ou não aceite pela sociedade", defende, ao explicar que a missão do Reino Inclusivo é, antes de mais, mudar a forma como a sociedade olha para estas crianças. É essa convicção, e não o calendário de lojas ou parcerias, que resume como querer "transmitir amor em forma de filantropia".
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