Violação, silêncio e a bola que continua a rolar. Mundial 2026 5 jogadores envolvidos em casos de agressão sexual

28 de Junho de 2026
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Ryan Mendes | Fotografia de L. Pennington/ZUMA/SIPA

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O Mundial 2026 está a ser disputado com, pelo menos, cinco jogadores no ativo envolvidos em casos de agressão sexual, alguns com processos judiciais em curso, outros com acordos extrajudiciais que fecharam casos sem nunca os resolver publicamente. A FIFA não se pronunciou sobre nenhum deles. As federações nacionais também não, com uma única exceção: a japonesa, que classificou a detenção de um dos seus internacionais como um "erro pessoal" e reintegrou o jogador na seleção.


O caso mais recente tornou-se público a 27 de junho, a 48 horas do jogo de Cabo Verde frente à Argentina nos 16 avos de final.


Ryan Mendes (Cabo Verde) - investigação em curso, sem acusação formal


Ryan Mendes, capitão dos Tubarões Azuis e figura central na histórica campanha de Cabo Verde, está a ser investigado pelas autoridades da Nova Zelândia na sequência de uma denúncia por violação apresentada por uma cidadã brasileira. O caso foi avançado pelo GloboEsporte. Não existe, até ao momento, qualquer acusação formal.


Os factos terão ocorrido a 27 de março de 2026, em Auckland, durante o estágio da seleção. A alegada vítima, cuja identidade ainda não foi revelada, tinha sido contratada pela federação neozelandesa como intérprete e estava hospedada no mesmo hotel da comitiva.


Segundo o relato feito à polícia e citado por A Bola, a mulher terá regressado ao quarto após aperceber-se de que uma reunião a que foi convidada era afinal uma festa. Pouco depois, ouviu bater à porta e abriu, por estar de plantão. Segundo a denúncia, Mendes terá entrado à força e agredido sexualmente a vítima. O relatório médico terá identificado múltiplas equimoses nos seios, pescoço e lábios, além de lesões nas partes íntimas.


De acordo com a imprensa internacional, a denunciante e o marido contactaram a Federação Cabo-Verdiana de Futebol a 10 de maio. Segundo a mesma fonte, um responsável da federação terá tratado o assunto como "um problema pessoal de Ryan Mendes". Nem a federação, nem a FIFA, nem a defesa do jogador comentaram o caso.


Thomas Partey (Gana) - julgamento marcado para novembro de 2026


O caso de Thomas Partey é o mais documentado e o que teve consequências mais visíveis durante o próprio torneio. O médio do Villarreal, que representou o Arsenal durante cinco épocas, enfrenta sete acusações de violação e uma de agressão sexual relacionadas com alegações de quatro mulheres entre 2020 e 2022. O julgamento está marcado para novembro deste ano no Southwark Crown Court, em Londres. Partey declara-se inocente.


Neste mundial, o jogador viu-lhe ser negado visto para o Canadá, onde iria atuar no jogo de estreia do Gana frente ao Panamá, por ter omitido o seu registo criminal. O recurso apresentado pela federação ganesa foi chumbado por um tribunal federal em Ottawa. Já nos Estados Unidos, Partey voltou a ser convocado e regressou ao onze e tornou-se protagonista do jogo frente à Inglaterra, porque o lateral inglês Djed Spence recusou cumprimentá-lo na fila de saudações, mantendo as mãos nos bolsos.


Achraf Hakimi (Marrocos) - julgamento confirmado, data por marcar


A 19 de junho, com o Mundial já em curso, o Tribunal de Recurso de Versalhes confirmou que Achraf Hakimi, capitão de Marrocos e lateral do Paris Saint-Germain, será julgado por violação pela justiça francesa. A data do julgamento ainda não está marcada.


O caso remonta a fevereiro de 2023, quando uma mulher de 24 anos se dirigiu a uma esquadra em Paris alegando ter sido violada pelo jogador na sua residência em Boulogne-Billancourt. Hakimi, 27 anos, nega qualquer violação e tentou, sem sucesso, obter o arquivamento do processo: "se não fosses famoso, este caso nunca teria existido".


Kaishu Sano (Japão) - caso arquivado após acordo extrajudicial


Em julho de 2024, Kaishu Sano foi detido pela polícia de Tóquio sob acusação de agressão sexual em grupo num hotel da capital japonesa. Sano foi libertado após o Ministério Público de Tóquio arquivar o caso na sequência de um acordo extrajudicial com a vítima que incluiu o pagamento de um valor não divulgado. Contudo, o jogador pediu desculpas publicamente, através de um comunicado da agência que o representa, mas a Federação Japonesa de Futebol (JFA) não emitiu qualquer posição oficial, limitando-se a tratar o assunto internamente, classificando o assunto como um "erro pessoal".


Um ano depois, Sano foi reintegrado na seleção nacional e é titular habitual no Mainz, clube alemão pelo qual assinou precisamente no mês em que foi detido. No Mundial 2026 foi titular nos dois primeiros jogos do Japão. O South China Morning Post foi um dos primeiros meios internacionais a notar o contraste entre o tratamento dado ao caso de Sano - reintegrado sem explicação pública - e o de Partey, impedido de entrar no Canadá.


Junya Ito (Japão) — caso encerrado, processo arquivado


O caso de Junya Ito tem um estado judicial distinto dos anteriores. Em fevereiro de 2024, a polícia de Osaka abriu investigação após duas mulheres alegarem agressão sexual num hotel da cidade em junho de 2023, na sequência de um jogo da seleção japonesa, segundo o Record e o Notícias ao Minuto. A Procuradoria Distrital de Osaka decidiu não apresentar queixa, por falta de provas, e o caso foi encerrado. Ito processou as duas denunciantes por difamação — esse processo também foi arquivado, sem que fosse provada má-fé da parte das mulheres, segundo o Record. O jogador, que atua no Genk belga, foi convocado para o Mundial 2026 e integra o plantel japonês.


O padrão: acordos de silêncio, federações mudas e a FIFA ausente


Estes casos seguem um padrão documentado ao longo de décadas no futebol profissional, em que o estatuto, as instituições e os recursos financeiros funcionam como escudo jurídico e mediático. O mecanismo mais recorrente é o acordo extrajudicial acompanhado de cláusula de confidencialidade, que encerra o processo sem nunca o apreciar em tribunal e silencia a alegada vítima mediante compensação financeira.


O caso de Cristiano Ronaldo, que integra a seleção portuguesa ainda em prova neste Mundial, é o exemplo mais conhecido deste padrão no futebol lusófono. Kathryn Mayorga alega ter sido violada pelo jogador num hotel de Las Vegas em 2009. Em 2010, assinou um acordo confidencial com Ronaldo, pelo qual recebeu 375 mil dólares em troca do silêncio - acordo cujos termos foram revelados pela revista alemã Der Spiegel em 2017 com base em documentos do Football Leaks, como noticiaram o Observador e o Diário de Notícias. O processo civil que Mayorga reabriu em 2018 foi definitivamente arquivado em 2024 pelo Tribunal de Recurso do 9.º Distrito dos EUA, por considerar que o advogado da queixosa havia agido de má-fé ao usar documentos confidenciais roubados. Ronaldo sempre negou a acusação.


O acordo extrajudicial que encerrou o caso de Sano em 2024 funciona pelo mesmo princípio: o processo não chega a tribunal, a vítima recebe uma compensação, e o jogador regressa ao relvado. A diferença, em relação ao caso de Mayorga, é que Sano pediu desculpas, ainda que de forma genérica, sem nunca confirmar ou desmentir o que aconteceu naquela noite em Tóquio.


O que une quase todos estes casos é o silêncio das instituições. A FIFA, questionada sobre a participação de Partey no torneio, respondeu que "não está envolvida nos processos de imigração dos países anfitriões", uma formulação que esquiva qualquer responsabilidade sobre o que acontece dentro do torneio. Nenhuma das federações envolvidas emitiu posição pública sobre os casos dos seus jogadores. À BANTUMEN, a Federação Cabo-verdiana de Futebol indicou não tecer, para já, comentários, sobre o caso que envolve Ryan Mendes.

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