Welket Bungué é rei em nova novela da Globo

2 de Fevereiro de 2026
Welket Bungué novela Globo
©Globo/Estevam Avellar

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Num horário de prestígio da televisão brasileira, “A Nobreza do Amor” chega para virar o jogo. Pela primeira vez, uma novela da TV Globo constrói um universo onde personagens afrodescendentes ocupam o centro do poder, do prestígio e do romance, não como exceção ou conquista, mas como herança, influência e pertença. Entre palácios simbólicos e afetos em disputa, a trama, que estreia no dia 16 de março, ganha ainda mais força com a presença de Welket Bungué. Numa produção de grande escala que cruza África e Brasil numa fábula afro-brasileira ambientada nos anos 1920, o ator guineense assume um dos papéis centrais ao dar vida ao rei Cayman II, monarca do reino fictício de Batanga. 


“Este é o segundo personagem ligado à realeza que interpreto, mas é o primeiro rei, efetivamente”, explica o ator em entrevista à BANTUMEN. Depois de ter dado corpo a figuras como Gertrudes, em Hamlet, e Otelo, sublinha o peso simbólico da nova personagem. “Interpretar um rei não é apenas ocupar uma posição social elevada. É compreender o verdadeiro significado da liderança, da responsabilidade para com os seus pares e para com o seu povo.”


Cayman II é um rei que chega ao poder “por força das circunstâncias” e que se vê confrontado com a traição de alguém que considera seu irmão. Uma dimensão dramática que, segundo o ator, torna a personagem especialmente relevante. “É uma figura que não nasce do desejo de protagonismo, mas da necessidade de assumir um papel. E isso diz muito sobre o que significa liderar hoje, num tempo em que o protagonismo é muitas vezes procurado pelas razões erradas.”


Essa leitura encontrou eco na sua própria experiência pessoal. “Sou de etnia balanta, onde a lógica comunitária assenta numa certa horizontalidade, mesmo havendo funções distintas”, partilha. “Essa memória cultural ajudou-me a conetar profundamente com o universo deste reino fictício e com a forma como o poder é exercido dentro dele.”

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Welket Bungué novela Globo

©Globo/Estevam Avellar

Para dar vida a Cayman II, Welket Bungué passou por um processo de preparação exigente e multifacetado. Trabalhou a prosódia para o português do Brasil, ainda que com um “estilismo linguístico” pensado para evitar uma associação direta ao sotaque do Rio de Janeiro, frequentou aulas de combate cénico e mergulhou num intenso trabalho de pesquisa histórica e cultural. “O Cayman é um guerreiro. É ele quem lidera a rebelião para destituir os soldados portugueses do território de Batanga”, explica. “Além disso, tivemos acompanhamento de consultores em História, códigos culturais africanos e protocolos diplomáticos entre reinos, o que foi fundamental para dar verosimilhança às relações de poder e aos encontros oficiais.”


Outro elemento decisivo foi a escrita da novela. “O argumento está muito bem construído e foi essencial que houvesse autores que se assumem como negros brasileiros”, sublinha. “Isso faz toda a diferença na profundidade das personagens e na forma como estas narrativas são pensadas.”


Sobre o posicionamento da novela enquanto narrativa afro-brasileira, Welket Bungué considera que o projeto parte de um olhar situado no Brasil, mas construído de forma transversal. Segundo o ator, a história procura representar a multiplicidade das Áfricas através dos símbolos, dos trajes, da escultura, da geografia e da diversidade dos povos, afastando-se da ideia de um continente homogéneo. “A novela trabalha a multiplicidade das Áfricas. Não existe uma África única.”


O ator destaca ainda a presença de consultores africanos no projeto, algo que considera um sinal importante de abertura. “Num projecto desta dimensão, sermos apenas dois guineenses nascidos na Guiné-Bissau é simbólico, mas muito positivo. Mostra uma vontade real de ouvir vozes do continente.”


A viver no Brasil há mais de treze anos, Welket reconhece que o seu olhar é atravessado por várias culturas, mas rejeita qualquer separação entre identidade e prática artística. “Não há como destrinçar a minha africanidade de mim. A contribuição que trago é genuína, porque ela faz parte de quem eu sou.”, disse.

Welket Bungué novela Globo

©Globo/Estevam Avellar

Welket Bungué novela Globo

©Globo/Estevam Avellar

Mais do que discutir se a novela olha África a partir do Brasil ou o inverso, o ator acredita que o essencial está no impacto junto do público. “O grande ganho será se o público brasileiro sair desta história mais curioso, mais informado e mais conectado com África enquanto continente diverso, com 54 países, múltiplas línguas e etnias.”


Para Welket Bungué, "A Nobreza do Amor" procura condensar essa diversidade no território fictício de Batanga, sem apagar a complexidade histórica e cultural africana. “É uma fábula, dirigida a grandes audiências, e isso implica simplificação. Mas uma simplificação séria, justa e informada.”


“A nossa história recente, o colonialismo e o próprio bombardeamento mediático contribuíram para uma visão redutora de África”, conclui. “Esta novela tenta contrariar isso, evocando uma riqueza cultural e uma diversidade que nunca foram apagadas.”


Para além de Welket Bungué, "A Nobreza do Amor" reúne um elenco amplo e diverso, que reforça a ambição narrativa e simbólica da novela. A história é protagonizada por Duda Santos, no papel de Alika, a princesa africana guerreira, estratega e diplomata, filha do rei Cayman II, cuja trajetória atravessa o Atlântico até ao Nordeste brasileiro. Ao seu lado, Erika Januza interpreta Niara, rainha de Batanga e mãe de Alika, enquanto Lázaro Ramos dá vida a Jendal, o primeiro-ministro que trai o rei e usurpa o trono, num dos papéis mais sombrios da sua carreira na televisão. No núcleo brasileiro da trama, destaca-se Ronald Sotto, que interpreta Tonho, um trabalhador de engenho nordestino cujo destino se cruza com o da princesa africana. O elenco conta ainda com nomes como Bukassa KabengeleLicínio JanuárioNicolas PrattesZezé Motta e Rodrigo Simas.


Welket Bungué nasceu a 7 de fevereiro de 1988, em Xitole, na Guiné-Bissau. Ator, realizador e argumentista luso-guineense, é licenciado em Teatro pela Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa. Vive entre Berlim e Lisboa e é membro da Academia Portuguesa de Cinema e da Deutsche Filmakademie.


Ganhou reconhecimento internacional com o filme Berlin Alexanderplatz (2020), de Burhan Qurbani, e desde então tem integrado produções europeias, africanas e brasileiras. Em Portugal e no Brasil, destacou-se recentemente nas séries “Pssica” e “Reencarne” (Globoplay). Enquanto realizador, venceu o Grande Prémio do Afrobrix Film Festival 2025 com a curta Prima ku Lebsi.

Welket Bungué novela Globo

©Globo/Estevam Avellar

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