Um emprego, pouco tempo e dois títulos europeus: como Wilson “Jaguar” Sungano chegou ao topo do jiu-jítsu

9 de Agosto de 2026
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No tatame, chamam-lhe "Jaguar". O nome persegue-o desde os primeiros anos de competição e, hoje, confunde-se com o resultado que o trouxe para uma conversa com a BANTUMEN: campeão europeu de jiu-jítsu na sua categoria e no Absoluto, na mesma edição do Campeonato Europeu organizado no início de agosto pela Professional Brazilian Jiu-Jitsu Federation (PBJJF), e, no mesmo ano, campeão nacional português nos dois escalões equivalentes. Dois títulos que, juntos, resumem um percurso que Wilson Sungano recusa reduzir à medalha.

A PBJJF chegou a Portugal para construir uma identidade própria dentro do jiu-jítsu internacional: depois de consolidar operações nas Américas, organizou no país o seu primeiro Campeonato Europeu, um torneio que obrigou a federação a coordenar academias de diferentes nacionalidades, línguas e calendários competitivos. Foi nesse território ainda em afirmação que Sungano entrou, disputou e venceu.

Angolano, Sungano chegou ao jiu-jítsu já formado noutra arte marcial. Era capoeirista profissional quando decidiu somar a nova modalidade àquilo que já dominava, numa altura em que o jiu-jítsu ainda não tinha em Angola a mesma acessibilidade que hoje se lhe reconhece. A soma aconteceu, sobretudo, porque via nas duas disciplinas um caminho de aproximação ao MMA, ambição que carrega desde cedo e que inclui, sem disfarce, o sonho de competir um dia no UFC. Nos primeiros anos, o que o movia era o gosto pela modalidade, a vontade de aprender. A ideia de competir a sério veio depois, e veio de fora.

"Às vezes, numa trajetória desportiva, basta alguém acreditar em nós antes de nós próprios acreditarmos completamente"

Wilson Sunango

Coube ao treinador Ricardo Schwarz o momento que Sungano identifica como charneira. Numa sessão de treino, olhou para o então aprendiz e disse-lhe: "Você tem potencial para conquistar o jiu-jítsu no mundo, fera braba." A frase ficou. Chegou numa fase em que o atleta ainda não sabia até onde poderia ir, e funcionou como uma espécie de autorização: a de que o jiu-jítsu podia deixar de ser apenas treino e passar a ser competição, representação, conquista. "Às vezes, numa trajetória desportiva, basta alguém acreditar em nós antes de nós próprios acreditarmos completamente", resume, anos depois, já com o título europeu nas mãos.


A evolução técnica que se seguiu foi resultado de um processo em que cada graduação resultou de uma sucessão de tentativas, erros e correções, sustentada mais pela persistência do que por condições favoráveis de treino. Sungano descreve o processo sem grande eloquência: competir, errar, corrigir, voltar mais forte e repetir. Cada nova faixa trouxe consigo uma responsabilidade acrescida, não apenas um reconhecimento técnico, e é nessa acumulação, mais do que num salto isolado, que identifica o essencial do seu crescimento enquanto atleta.


A mudança para Portugal reconfigurou essa trajetória em dois sentidos opostos. Por um lado, aproximou-o de um ambiente competitivo mais desenvolvido, com atletas de escolas e nacionalidades diferentes a partilharem o mesmo tatame. Por outro, impôs-lhe uma vida dupla: Sungano trabalha na restauração, e durante largos períodos teve apenas um dia de folga por semana para treinar presencialmente. A preparação para o Europeu da PBJJF fez-se, por isso, em dois registos simultâneos: o treino possível com a equipa, quando a escala de trabalho o permitia, e o treino suprido em casa, sozinho, sempre que não permitia. "Quando não conseguia estar no tatame, treinava em casa, trabalhava a parte física e procurava manter a disciplina necessária para não perder o ritmo", explica. A preparação mental seguiu a mesma lógica de compensação: competir contra atletas com condições de treino distintas das suas exigiu-lhe confiar, sem margem para hesitação, no trabalho que conseguira fazer com o tempo de que dispunha.


Entrou no torneio a lutar pelo título da categoria, sem fixar à partida o Absoluto como meta. A prova contra pesos superiores funcionou como teste e confirmou que o jogo que desenvolvera ao longo dos anos não dependia de uma categoria específica para funcionar. Venceu as duas finais. No momento da vitória, a euforia - tantas vezes comum a quem trava batalhas sozinho -, cede lugar à memória dos turnos trocados, das sessões feitas sozinho em casa, das vezes em que a folga da semana determinava se haveria ou não treino de tatame. "A vitória não foi apenas minha naquele momento", diz. "Foi também uma vitória sobre todas as circunstâncias que poderiam ter-me feito desistir."


É na descrição dessas circunstâncias que a narrativa de Sungano ganha o contorno mais nítido. Ao longo do percurso, foi ele próprio quem suportou a generalidade dos custos associados à competição - inscrições, deslocações, equipamento, alimentação -, sem um apoio financeiro estável que lhe permitisse tratar o jiu-jítsu como carreira desportiva sustentada. Não atribui isso à ausência de estruturas na modalidade em Portugal, mas a uma realidade que o obrigou, repetidamente, a criar soluções próprias sempre que faltavam tempo ou recursos. "Isso ensinou-me a não esperar pelas condições perfeitas para começar a trabalhar pelos meus objetivos", afirma.


É também por essa via que o título ganha, para Sungano, um significado que ultrapassa o resultado desportivo. Angolano a competir em Portugal e a representar a comunidade lusófona, entende a conquista como uma ponte: prova de que existem atletas angolanos capazes de alcançar palcos internacionais, ainda que o percurso comece sem as condições ideais. Não transforma a dificuldade em receita - deixa claro que gostaria de ver mais apoio e melhores condições para quem segue caminho semelhante -, mas insiste que as limitações não têm de definir o limite de cada atleta.


Na prática, o título traduz-se também em responsabilidade. Sungano fala de uma confiança reforçada - a confirmação de que o trabalho feito nas margens do tempo disponível produz resultado e resiste a um nível internacional - e da expectativa de que a conquista abra portas a novas oportunidades e a melhores condições de preparação. Recusa tratá-la como ponto de chegada. "Quero que este resultado seja uma etapa, não o ponto final", afirma.


Com o título europeu conquistado, os próximos objetivos passam por continuar a competir a nível internacional, elevar o nível técnico e físico e procurar condições que permitam dedicar mais tempo à preparação. O Mundial mantém-se no horizonte. E mantém-se também a ambição mais antiga de todas, ainda por cumprir: chegar ao mais alto nível dos desportos de combate, com o MMA como destino possível. Para quem começa agora em condições semelhantes às que ele próprio enfrentou, a mensagem que deixa não promete atalhos: "Nem sempre vamos ter dinheiro, tempo, estrutura ou as pessoas certas ao nosso lado (...) mas é importante não confundir uma fase difícil com o nosso destino."

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