A chuva também pode ser uma bênção. Em “Txuba”, YA SIN explica-nos como

12 de Agosto de 2026

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Depois de "Sukka4luv", YA SIN lançou recentemente "Txuba", segundo capítulo de uma nova era que o artista começou a desenhar com o single anterior. A palavra significa chuva em crioulo cabo-verdiano, e é também nesse idioma que a canção é cantada, do início ao fim, sobre guitarras distorcidas e uma batida pensada para “abanar o corpo”. A voz acompanha essa energia com uma mensagem de autoestima, resiliência, fé e esperança, sem que a afirmação individual se desligue da comunidade e das raízes que a tornam possível.


A canção parte de uma expressão que YA SIN ouviu de forma próxima, ainda que não exatamente nestes termos: "txuba eh benção" (chuva é bênção). Foi esse conceito, e não a frase fixa "Benção moda txuba", que serviu de ponto de partida, numa altura em que compunha o tema em Portugal, onde dias de chuva remetem para melancolia - o oposto do peso que a chuva carrega em Cabo Verde, onde "quando chega, traz vida, esperança e renovação". A direção inicial da música seguia essa energia mais introspetiva, até o instrumental de Nelsoniq levá-la por outro caminho, abrindo espaço para transformar a ideia numa celebração daquilo que o artista é e daquilo que quer atrair para a sua vida.


É desse lugar que nasce também a forma como entende abundância. "Não é necessariamente ter mais coisas, mas reconhecer o valor daquilo que temos e estar aberto para receber mais", diz, referindo-se a pessoas, cultura, identidade, saúde, criatividade, oportunidades, à capacidade de continuar a sonhar. "Txuba" nasce dessa mentalidade de gratidão e de manifestação, e encontra na frase "Benção moda txuba" a sua síntese: um pedido para que as bênçãos cheguem com a mesma abundância da chuva, formulado numa expressão que pertence à cultura do próprio artista.


Essa lógica de pertença atravessa também a forma como YA SIN pensa a sua identidade artística, que descreve através do conceito de patchwork. "É pegar em diferentes pedaços: culturas, experiências, sons, memórias, pessoas e perceber que eles podem coexistir e criar algo novo sem perder a sua origem", explica. Nascido em Cabo Verde e criado em Portugal, descreve-se como resultado direto dessa mistura e recusa tratar as diferentes partes da sua identidade como blocos separados: Cabo Verde representa raiz, memória, herança; Portugal representa boa parte do seu crescimento e um espaço multicultural que lhe trouxe outras referências. A confluência entre os dois territórios aparece na língua, nos ritmos, na forma como conta histórias e é também o que o leva a cantar integralmente em crioulo, mais como consequência natural do que como declaração calculada. "O crioulo é simplesmente o idioma em que percebi que melhor sirvo o meu vaso e decidi fazer jus a esse fator", diz, ao admitir que a escolha carrega também uma afirmação cultural.


O mesmo espírito de confluência passou para o vídeo de "Txuba", assinado por Artur Monteiro, com quem partilha background cultural, o que lhe permitiu captar a intenção da canção sem grandes explicações, segundo o artista. A realização juntou ainda Simão Oliveira e a restante equipa, num processo colaborativo que dá continuidade a um catálogo de trabalhos que os dois vinham construindo em conjunto. Quanto aos elementos simbólicos que atravessam as imagens, YA SIN prefere não fechar leituras: identidade, cultura e transformação estão lá, mas evita indicar o que cada elemento significa, preferindo que o público construa a sua própria interpretação, gesto que entende como forma de participação na obra. Questionado sobre como resumiria o vídeo, escolhe três palavras: Identidade. Herança. Eclético.


"Txuba" fecha o segundo capítulo de uma fase que descreve como expansão, e não repetição. R&B, hip-hop e afrobeats continuam a atravessar o seu trabalho, ao lado de outras influências que fazem parte da sua identidade, e os singles publicados até agora funcionam como capítulos de uma mesma era, sem que isso implique uma narrativa nova a cada lançamento: fala antes em dar profundidade a um trabalho que já vinha construindo, com um projeto maior a caminho. Sobre possíveis colaborações, o critério é procurar artistas com identidade própria, que acrescentem uma peça ao patchwork em vez de somarem apenas um nome à lista.


Questionado sobre o que quer que fique depois de "Txuba", YA SIN volta à imagem que dá título à canção. "Quero que as pessoas sintam que podem celebrar quem são e aquilo que trazem consigo, que não precisam de apagar nenhuma parte da sua identidade para criar algo novo", diz. "'Txuba' é uma música sobre bênção, mas também sobre afirmação: eu reconheço aquilo que sou, aquilo de onde venho, e estou aberto para tudo aquilo que ainda está por vir." Que as bênçãos caiam como chuva, resume, mas que se saiba também reconhecê-las quando chegam.

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