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No dia 5 de abril, o Goz’Aqui Comedy Club, na Ilha de Luanda, recebe o lançamento de “Meu Primeiro Dia no Inferno”, novo romance alegórico de Pedro Bars e Zoé Kifembe, num momento que marca a chegada ao público de uma obra cujos autores descrevem como “manifesto literário”, construída ao longo de cinco anos e pensada como um espelho moral do tempo presente.
A data serve também para apresentar, com mais nitidez, um autor que, durante anos, foi sendo lido, ouvido e reconhecido em vários lugares da palavra, mas nem sempre de forma organizada perante o grande público. Yadhiro Barroso, que assina como Pedro Bars, não surge do nada. O seu percurso passa pela escrita para outros artistas, pela poesia, pela crónica, pela produção cultural e pela construção de plataformas que ajudaram a dar palco à literatura oral em Luanda. O novo livro consolida esse trajeto e reposiciona-o como agente cultural e como autor com ambição de intervenção estética e social.
Nascido no Rocha-Pinto, em Luanda, no início da década de 90, Bars inscreve a sua origem no centro da própria escrita. Filho de mãe zungueira e pai militar, encontra na memória familiar uma espécie de arquivo sensível do seu trabalho. “A primeira grande escola de literatura é a vida antes mesmo de sabermos que estamos a aprender”, afirma. E acrescenta que a infância, além de tema, é também matéria ativa da sua voz: “Não são apenas poemas sobre os meus pais; são também a forma como a infância continua a falar dentro de mim cada vez que escrevo.”
“A primeira grande escola de literatura é a vida antes mesmo de sabermos que estamos a aprender”
Pedro Bars

A dimensão íntima da escrita convive, desde cedo, com uma formação sentimental atravessada pela música popular brasileira. Numa altura em que “não havia ainda uma presença tão forte de música angolana de teor romântico como existe hoje”, o jovem de Luanda encontrou nas canções de Zezé Di Camargo e Roberto Carlos uma linguagem para sentimentos que ainda não sabia nomear. “Era o tempo das paixonites”, escreve, lembrando uma adolescência em que “o coração descobre, às vezes pela primeira vez, que sentir também pode ser uma forma de conhecimento”.
Esse início romântico foi depois absorvido por outras pressões do contexto urbano. Entre os 13 e os 14 anos, com a ascensão dos grupos de kuduro e de rap, começou a escrever para artistas emergentes do bairro. Mais tarde, já no ensino médio, no centro da cidade, novas referências e vivências alargaram a relação com a palavra. Houve desenho, música, poesia e freestyle. Mas o freestyle, longe de consagrá-lo, serviu-lhe, sobretudo, como confirmação de limite e de caminho. “Só serviu-me como um viés de confirmação de que a minha cena era mesmo a escrita”, conta.
O reconhecimento do próprio lugar é importante para perceber o autor que hoje se apresenta. Pedro Bars não construiu o seu percurso a partir da figura clássica do escritor isolado. Pelo contrário, formou-se no cruzamento entre bastidores, mediação, produção e circulação de palavra. Entre 2009 e 2014, tornou-se conhecido nas batalhas virtuais do Facebook ao escrever “barras” e disputar espaço num ambiente onde o rap, a provocação e o desempenho verbal eram também formas de afirmação pública. Em 2015, passou a escrever para rappers de batalha, os chamados gladiadores, sem abandonar a poesia nem a composição.
A pandemia de 2020 foi um ponto de viragem. Num período em que muita gente “estava a redesenhar o futuro”, Bars decidiu criar um projeto centrado na literatura oral. Nascia assim o “Orgasmo Literário”, concurso de poesia encenada que começaria em ambiente doméstico e que passaria, tempos depois, por mediatecas, universidades e restaurantes. O crescimento rápido do projeto revelou duas coisas ao mesmo tempo: a capacidade de organização do autor e a existência de um público disposto a responder à palavra falada quando esta encontra formato, ritmo e direcção.
“A política organiza o poder, mas o comportamento social revela a consciência, ou a falta dela, de um povo"
Pedro Bars
Foi dessa experiência que ganhou corpo a M-Arte Angola, estrutura dirigida por Pedro Bars e Zoé Kifembe. O projeto tentou, na prática, montar um pequeno ecossistema cultural em torno da oralidade, da música, da performance e da literatura. A produtora esteve por trás de iniciativas como “Recital Acústico”, “Music’Alma” e “Ubuntu Spoken Falafrika”, além de um programa de rádio “inteiramente voltado à poesia” na Sttop FM. Em 2022, a M-Arte Angola venceu a categoria de Melhor Produtora de Eventos em Ascensão nos Prémios Dipanda; em 2023, recebeu menção honrosa pelo impacto social nos Prémios Jovens do Musseke.
Esse percurso ajuda a explicar por que motivo a construção pública de Bars não pode ser reduzida a uma lista de feitos. O que está em causa é a tentativa de pensar a cultura como espaço de consciência. O próprio autor formula isso com clareza: “A política organiza o poder, mas o comportamento social revela a consciência, ou a falta dela, de um povo.” Noutro momento, define de forma ainda mais explícita a ligação entre a escrita e a ação cultural: “Tanto a crónica quanto a produção cultural fazem parte da mesma inquietação existencial. Uma procura compreender o mundo através da palavra; a outra procura transformá-lo através da arte.”
É nesse ponto que “Meu Primeiro Dia no Inferno” aparece como síntese de percurso. O romance não escolhe o inferno como cenário por gosto do choque fácil ou da provocação abstrata. “Talvez tenha escolhido o inferno como metáfora central da narrativa porque é um lugar onde ninguém pode fugir”, diz Pedro Bars. “Na vida, temos discursos, ideologias e justificações. No inferno desta obra, tudo isso desaparece e é tudo apenas sobre a consciência.”
A formulação central do livro organiza a lógica da obra e também o seu lado político. Como explica o autor, “a punição é externa. Alguém castiga, alguém decide a pena. Mostrar é diferente: é consciência”. E conclui: “O pior tribunal que existe é aquele que acontece dentro da própria consciência.”
No livro, a protagonista, Zoé desperta no inferno e atravessa um espaço onde convivem mortos ilustres e anónimos, tiranos, génios, artistas e figuras históricas. Mas a obra evita a figura tradicional da heroína salvadora. Segundo o autor, a personagem principal “não é uma heroína, não tem uma missão, não salva ninguém”. É antes “uma pessoa comum, que ao longo da narrativa observa, compreende e cresce”. Esse detalhe é relevante porque desloca o romance da grandiloquência moral para uma zona mais desconfortável: a da identificação. O leitor não acompanha um ser excepcional, acompanha alguém vulnerável, exposto, reconhecível.
“Se há algo contra o qual a obra se posiciona, é contra a cegueira moral”
Pedro Bars
A obra trabalha, segundo os autores, numa fronteira entre realidade, alegoria, espiritualidade e crítica social. “A realidade entra no livro como semente, mas a literatura faz crescer algo maior”, resume Pedro Bars. Esse “algo maior” parece apontar para uma crítica transversal às formas de inconsciência contemporânea. O próprio autor recusa compartimentar demasiado os alvos do romance. “A política, o ego artístico e a religião são apenas máscaras diferentes do mesmo problema: o ser humano quando perde a consciência.” Noutra formulação, insiste: “Se há algo contra o qual a obra se posiciona, é contra a cegueira moral.”
É um ponto forte do projeto, mas também um risco. Quando um livro ambiciona funcionar como manifesto, corre o perigo de se tornar excessivamente programático ou de falar mais em tese do que em carne viva. No caso de “Meu Primeiro Dia no Inferno”, o que poderá sustentar ou fragilizar a proposta será a capacidade de converter essas ideias em experiência narrativa.
Zoé Kifembe, coautora do livro, entra nesta equação como peça central de um percurso partilhado. Estudante de enfermagem, com formação prosseguida nos Estados Unidos, começou a afirmar-se publicamente na palavra falada em 2021, após anos de escrita. Nesse mesmo ano, publicou “Princesa Desencantada”, romance em verso com componente lírica, dramática e social, e lançou o audiopoema “Já Chegamos”, descrito como crítica social com pendor político. A obra valeu-lhe o prémio de Melhor Poema do Ano nos Prémios da Comunidade Literária Angolana. Em 2022, com apenas um ano de carreira, venceu na categoria de Melhor Poeta do Ano nos Prémios Nova Geração.
A trajetória de Zoé confunde-se, em vários momentos, com a de Pedro Bars, mas tem peso próprio. Foi apresentadora oficial das edições do “Orgasmo Literário” e de outros eventos da M-Arte Angola, tornou-se moderadora do podcast com o mesmo nome e é hoje apresentadora do projecto “Palco do Verbo”. Ao lado de Bars, representa uma geração de agentes culturais que tentam produzir, curar, apresentar e escrever, tudo ao mesmo tempo, num contexto em que a sobrevivência da arte muitas vezes depende dessa multiplicação de funções.
A mudança para os Estados Unidos, no início de 2023, introduziu outra camada nesta história. Segundo Pedro Bars, a decisão de emigrar nasceu quando sentiu que Luanda “já não oferecia as condições necessárias” para continuar a desenvolver o trabalho artístico “com a tranquilidade e a dignidade” que considerava essenciais.
Hoje, o autor trabalha na área de Customer Return numa multinacional e aproveita a escala laboral para manter os projetos culturais. A divisão de funções com Zoé é assumida de forma organizada e pragmática: ela trata da dimensão tecnológica e digital; ele concentra-se na estratégia e na conceção. “Produzir cultura angolana na diáspora é, antes de tudo, uma continuidade”, escreve. “A distância muda o ponto de vista, mas não rompe a ligação, só amplia.”
“O livro fala de inferno, mas no fundo, é uma história sobre a humanidade”
Pedro Bars

Yadhiro Barroso e Zoé Kifembe | DR
Esse reposicionamento geográfico também mexeu com o olhar político do autor. Bars diz que, desde que vive nos Estados Unidos, se tornou “mais atento às questões sociopolíticas, de Angola e do mundo em geral”. A literatura, nesse quadro, passa a ser entendida “também como um lugar de memória e de responsabilidade”. A frase ajuda a ligar o novo romance a uma linha mais ampla do seu trabalho, que já vinha de “Holocausto - O Silêncio de Deus” e que parece insistir numa mesma pergunta: onde acaba a transcendência e onde começa a responsabilidade humana?
No caso de “Meu Primeiro Dia no Inferno”, a resposta parece ir no sentido de uma espiritualidade socializada. “O inferno da obra é meramente humano”, afirma. “As chamas que tememos são criadas pelas nossas próprias escolhas individuais e coletivas.” A tese é coerente com toda a construção do autor até aqui: em vez de um inferno religioso no sentido clássico, há uma alegoria ética sobre o mundo que criamos e sustentamos.
O lançamento, por sua vez, foi pensado em coerência com essa ideia de mistura e circulação. O fato de acontecer num comedy club é, segundo Pedro Bars, uma oportunidade para “quebrar um pouco a rigidez dos lançamentos tradicionais” e criar “um ambiente mais descontraído”. Mas há também um dado prático e simbólico: a possibilidade de transmissão ao vivo para leitores espalhados por outras geografias. “Para um livro que nasce em diálogo com a diáspora, essa ponte digital faz todo sentido”, explica. “O lançamento da obra acontece fisicamente num lugar, mas simbolicamente em muitos.”
O evento contará com actuações da cantora Edna Ernesto, do poeta Esmeraldo Baptista, do humorista Tiago Costa e do freestyler Abdélvio. A apresentação estará a cargo de Mónica Carvalho e de Gênio das Ruas, com preleção da Dra. Domingas Monte. A mistura entre música, humor, poesia e performance sugere um lançamento pensado como extensão da própria estética dos autores, que sempre trabalharam a palavra em convivência com outras linguagens.
No fim, o que está em jogo com “Meu Primeiro Dia no Inferno” é a tentativa de fixar publicamente uma autoria que vem sendo construída há anos entre a intimidade da memória, a energia da oralidade, a inquietação política e o trabalho de bastidor. Pedro Bars quer ser lido como produtor de cena e como escritor que interroga o tempo a partir da cultura. E Zoé Kifembe reforça esse gesto com uma presença autoral que ultrapassa o circuito da performance falada.
Se o livro vai cumprir plenamente a ambição que anuncia, isso só a leitura dirá. Mas há algo que o autor admite logo à partida e que reforça toda a visão do projeto: “O livro fala de inferno, mas no fundo, é uma história sobre a humanidade.”
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