Yasmine, a “miúda tímida” que abandonou a enfermagem para esgotar o Coliseu

3 de Março de 2026

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Estava no primeiro ano do curso de enfermagem em Londres quando percebeu que não conseguiria continuar. A música, sempre presente, começava a impor-se como exigência e a certa altura, a hipótese de adiar indefinidamente essa vocação tornou-se mais pesada do que o risco de segui-la. “Foi do género: ou é agora, ou nunca. Disse à minha mãe: confia. Deixa-me ir para Portugal viver o meu sonho.” A mãe confiou. Ela regressou.


Yasmine Carvalho nasceu em Portugal, filha de pais guineenses, com ascendência cabo-verdiana e libanesa, num ambiente onde a kizomba, o zouk e o crioulo eram matéria quotidiana e camadas sonoras que cedo se infiltraram na forma como ouvia o mundo, muito antes de compreender que poderiam vir a ser o seu ofício. Em paralelo, havia as palavras. Escrevia poemas, textos soltos, páginas que acumulava sem intenção imediata de publicação. A escrita fluía com naturalidade e nada naquele período sugeria que a música pudesse deixar de ser um território íntimo.


Quando chegou a Portugal, começou por publicar covers no YouTube, num registo ainda artesanal, sem aparato de lançamento ou estratégia formal. Havia apenas a convicção de que, em algum lugar, alguém poderia ouvir A progressão foi gradual: uma música seguida de outra, até que o trabalho circulasse o suficiente para chegar aos ouvidos certos. E aconteceu: em meados de 2015, a editora E-Karga estabeleceu contacto e convidou-a a avançar. Em 2016, “Apaixona” marcou a estreia em nome próprio; no ano seguinte, a colaboração com Marvin em “Je Serai Là” ampliou o alcance e ajudou a consolidar o percurso.

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"Muita gente confunde isso [timidez] com arrogância, mas não. Sou tímida. Sempre fui”

Yasmine

Yasmine entrevista

©BANTUMEN

Yasmine entrevista

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Quase uma década depois, os números falam por si: um milhão de seguidores no Instagram, centenas de milhares de ouvintes mensais no Spotify, milhões de streams repartidos entre Portugal, Angola, Moçambique, França e Inglaterra. A jovem que pedira à mãe para confiar tinha transformado um impulso pessoal num projeto sustentável.


Ainda assim, nem tudo foram conquistas e 2022 ditou o fim da relação com a produtora. A ruptura, que descreve como leve, foi acompanhada e motivada por um período de hesitação interna. “Houve ali uma altura em que eu estava a divagar”, admite. Dentro de uma estrutura, a artista ocupa o centro visível enquanto a engrenagem funciona nos bastidores; fora dela, a engrenagem inteira passa a ser responsabilidade própria. Yasmine sentiu que precisava interromper o movimento automático e perceber “quem eu sou, para onde é que eu vou, o que é que eu quero.” A independência alterou a relação com o tempo e com as prioridades: a gestão agora é feita de forma horizontal, sem hierarquias e num modelo que responde às exigências dos diferentes papéis que desempenha - mãe, mulher, artista, empresária. Por muito que o trabalho tenha o seu peso, é na família que vê o maior alicerce: “A minha família vai ser sempre a minha prioridade. Nunca vou meter nada à frente da minha família”, conta.


Essa clarificação interna acabou por refletir-se também na música que decidiu continuar a fazer. Num meio onde a adaptação é frequentemente apresentada como condição de sobrevivência, sobretudo para quem trabalha a partir da kizomba, a sugestão surge quase sempre com a mesma formulação: suavizar, aproximar, ajustar a sonoridade a códigos mais consensuais. Reconhece o discurso sem dramatismo e enquadra-o numa lógica de mercado e de sobrevivência em que chegar ao mainstream, não dando garantias efetivas, permite a captação de novos públicos e com isso, outras possibilidades.


“A kizomba talvez não funcione tão bem”, ouviu em diferentes momentos. O argumento, reconhece, é recorrente. O que se perde quando se aceita essa premissa? “Perde-se a excepção. Perde-se de onde ela vem."  Manter a kizomba viva, com as suas cadências próprias e o seu lugar na história das diásporas lusófonas, é uma decisão artística consciente sobre aquilo que quer preservar e cantar em crioulo é uma forma de continuar esse legado e permitir ser-se inteira: “Não sinto que estou a voltar quando canto em crioulo. Sinto que estou aqui.”


Paradoxalmente, quem traz essa clareza identitária para o palco é alguém que se descreve como tímida. "Muita gente confunde isso com arrogância, mas não. Sou tímida. Sempre fui. E continuo a ser aquela miúda." É uma forma de controlo - e equilíbrio - entre a exposição da profissão e a privacidade que entende ser necessária preservar: estar presente sem se expor completamente, falar através da música em vez de pelas palavras.

“O concerto é a forma mais bonita de de consagrarmos um amor que temos estado a partilhar durante tanto tempo"

Yasmine

Yasmine entrevista

Marisa Rodrigues e Yasmine, durante entrevista no Coliseu dos Recreios | ©BANTUMEN

Parte dessa transformação é atravessada pela maternidade. Em 2019, quando engravida no início da consolidação profissional, confronta-se com a hipótese de interrupção. “É do género: acabou. Faz as malas. A carreira fica por aqui.” O desfecho contrariou essa previsão, a gravidez foi integrada no discurso público e, nas suas palavras, acabou por construir um “storytelling da família” que não a fragmentou, antes a tornou mais inteira. A segunda filha nasceu há cerca de dois anos, sem que aguardasse por uma alegada estabilização. “Podia ter esperado quando as coisas acalmassem. Não. Fui mãe. E estou a fazer as coisas na mesma.”


“Tayanna”, single em homenagem à filha mais velha, cristaliza esse entrelaçamento entre escrita e maternidade. A canção surgiu de páginas de diário que redigia para a filha ler mais tarde, num exercício inicialmente privado. O gesto de transformar essas notas em música correspondeu a uma continuidade natural do processo criativo. “As pessoas do outro lado sempre entenderam que eu não ia deixar a minha família para segundo plano.” O reconhecimento dessa compreensão pública consolidou uma forma de estar. “Yasmine vem sempre acompanhada de família. E eu gosto muito disso.”


O primeiro álbum, Libra, assume essa lógica de equilíbrio como conceito estruturante e trata-se de uma referência direta ao signo da artista. “Acredito muito em signos. Acredito muito em energias. E sou mesmo muito Libra.” O disco afirma a kizomba como eixo central, ao mesmo tempo que funciona como declaração de continuidade. “Queria relembrar as pessoas a Yasmine que fui durante estes dez anos. Não fazia sentido fazer coisas mega diferentes. Este álbum sou eu.” A possibilidade de um deluxe, “mais exótico, mais atrevido”, surge como desdobramento futuro, o outro lado da balança, mas não substitui o gesto inaugural de consolidação.


Yasmine sobe ao palco do Coliseu dos Recreios, a 7 de março, com casa esgotada para o primeiro concerto em nome próprio. Para a artista, este concerto é "o pico" e “a forma mais bonita que eu encontrei de consagrarmos um amor e um carinho que temos estado a partilhar durante tanto tempo." Entre os convidados estará Neyna, artista com quem colaborou no tema “Preta” e por quem assume ter um carinho especial graças à parceria estabelecida antes e depois da gravação.


Se pudesse falar com aquela “menina do backstage” que publicava covers e temia estar "a um degrau de dar mega errado", diria algo simples: "Tem calma. Um passinho de cada vez." No fundo, é a mesma coisa que diz hoje quando a indústria empurra para o próximo lançamento antes do atual ter sido habitado. "Lanças um projecto. Deixa estar. Deixa as pessoas namorarem."

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