Marcas por escrever
Contactos
Pesquisa
Pesquisar
Pesquisa

Partilhar
X
Duas mulheres falam ao telefone como se se ouvissem mas não se ouvem. Perguntam, respondem, interrompem-se, falham o encontro. Há qualquer coisa que nunca chega ao outro lado. Em As Telefones, a nova criação de Zia Soares a partir do livro de Djaimilia Pereira de Almeida, é nesse desencontro que se constrói uma relação inteira.
A peça nasce de uma aproximação anterior ao próprio palco. Foi Djaimilia quem procurou Zia, num gesto que abriu caminho a um diálogo prolongado entre duas autoras com percursos distintos, mas uma inquietação comum. Desse encontro surgiu um díptico: Pérola Sem Rapariga, apresentado em 2022, e agora As Telefones, que fecha sem fechar completamente esse ciclo.
Aqui, tudo começa na voz. Ao contrário da primeira parte, centrada na imagem, este espetáculo estrutura-se a partir do som, da respiração, do tempo entre palavras. A relação entre mãe e filha constrói-se em telefonemas que atravessam anos e geografias, evoluindo com a própria tecnologia das cabines ao WhatsApp sem nunca resolver a distância que as define.

©BANTUMEN
Mas a encenação não se limita a transpor o livro. Introduz uma fissura decisiva: a criação de Bia, a filha enquanto centro organizador da narrativa. É a partir da sua interioridade que o mundo se desenha. O palco torna-se, por momentos, extensão do seu pensamento, da forma como lembra, imagina e reconfigura a relação com a mãe.
E depois há a casa, um terceiro elemento que não existe no texto original, mas que ganha corpo em cena como construção simbólica dessa relação. Não é um cenário neutro. É um lugar em permanente edificação, onde a intimidade tenta fixar-se entre hábitos, afetos e ausência.
Esse esforço de construção diz tanto sobre as personagens como sobre o contexto que as envolve. Porque esta não é apenas uma história de mãe e filha. É também uma história marcada pela migração, pela distância forçada, pela necessidade de manter laços através de dispositivos frágeis. O telefone deixa de ser apenas meio e passa a ser condição. “Como é que a minha voz consegue atravessar um oceano?”, pergunta Zia, trazendo para o centro da criação uma experiência partilhada por muitas comunidades na diáspora.
Há aqui uma ambivalência difícil de ignorar. A tecnologia aproxima, mas também exige. A rapidez da comunicação cria uma expectativa de resposta constante, quase devoradora. A intimidade torna-se mais acessível e, ao mesmo tempo, mais instável.

©BANTUMEN
Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.
Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.
Recomendações
Marcas por escrever
Contactos