Entre chamadas e silêncio, Zia Soares encena o que não chega ao outro lado

19 de Abril de 2026
Zia Soares As Telefones
Zia Soares | ©BANNTUMEN

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Duas mulheres falam ao telefone como se se ouvissem mas não se ouvem. Perguntam, respondem, interrompem-se, falham o encontro. Há qualquer coisa que nunca chega ao outro lado. Em As Telefones, a nova criação de Zia Soares a partir do livro de Djaimilia Pereira de Almeida, é nesse desencontro que se constrói uma relação inteira.


A peça nasce de uma aproximação anterior ao próprio palco. Foi Djaimilia quem procurou Zia, num gesto que abriu caminho a um diálogo prolongado entre duas autoras com percursos distintos, mas uma inquietação comum. Desse encontro surgiu um díptico: Pérola Sem Rapariga, apresentado em 2022, e agora As Telefones, que fecha sem fechar completamente esse ciclo.


Aqui, tudo começa na voz. Ao contrário da primeira parte, centrada na imagem, este espetáculo estrutura-se a partir do som, da respiração, do tempo entre palavras. A relação entre mãe e filha constrói-se em telefonemas que atravessam anos e geografias, evoluindo com a própria tecnologia das cabines ao WhatsApp sem nunca resolver a distância que as define.

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Zia Soares As Telefones

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Mas a encenação não se limita a transpor o livro. Introduz uma fissura decisiva: a criação de Bia, a filha enquanto centro organizador da narrativa. É a partir da sua interioridade que o mundo se desenha. O palco torna-se, por momentos, extensão do seu pensamento, da forma como lembra, imagina e reconfigura a relação com a mãe.


E depois há a casa, um terceiro elemento que não existe no texto original, mas que ganha corpo em cena como construção simbólica dessa relação. Não é um cenário neutro. É um lugar em permanente edificação, onde a intimidade tenta fixar-se entre hábitos, afetos e ausência.


Esse esforço de construção diz tanto sobre as personagens como sobre o contexto que as envolve. Porque esta não é apenas uma história de mãe e filha. É também uma história marcada pela migração, pela distância forçada, pela necessidade de manter laços através de dispositivos frágeis. O telefone deixa de ser apenas meio e passa a ser condição. “Como é que a minha voz consegue atravessar um oceano?”, pergunta Zia, trazendo para o centro da criação uma experiência partilhada por muitas comunidades na diáspora.


Há aqui uma ambivalência difícil de ignorar. A tecnologia aproxima, mas também exige. A rapidez da comunicação cria uma expectativa de resposta constante, quase devoradora. A intimidade torna-se mais acessível e, ao mesmo tempo, mais instável.

Zia Soares As Telefones

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No palco, essa instabilidade é trabalhada como linguagem e a palavra de Djaimilia é ponto de partida para um objeto novo, autónomo. “Não estou presa ao que ela terá pensado”, diz Zia, sublinhando a necessidade de o espetáculo ganhar a sua própria organicidade . Teatro e literatura coexistem, mas não competem são formas distintas de dizer e escutar.Essa ideia prolonga-se no processo de criação. O trabalho com as intérpretes a própria Zia Soares e Sara Fonseca da Graça constrói-se numa lógica profundamente colaborativa, onde a observação e a escuta são centrais. Não há uma forma fechada à partida. O espetáculo emerge do encontro entre linguagens: texto, corpo, som, imagem. A cenografia de Neusa Trovoada reforça esse campo híbrido, funcionando não apenas como suporte visual, mas como extensão do próprio pensamento cénico.Há ainda uma dimensão que atravessa tudo isto, sem ser declarativa. A construção de um espaço de intimidade entre mulheres negras não como representação simbólica, mas como prática concreta de criação. Um protagonismo que não depende de validação externa, que se constrói de dentro para dentro.Quando se fala de lusofonia, Zia recusa leituras simplistas. Há uma história comum, sim, mas feita de tensões, assimetrias e reconfigurações constantes. A língua pode ser ponte, mas não resolve as diferenças. E, muitas vezes, serve interesses que não são os das comunidades que a habitam.No final, a pergunta inevitável: o que falta dizer em palco? Falta tudo. O teatro, aqui, surge como lugar de possibilidade, um espaço onde ainda é possível experimentar, falhar, escutar, tentar de novo e fazer chegar a voz ao outro lado.As Telefones estreia a 30 de abril, às 21h30, no Teatro Municipal de Matosinhos Constantino Nery. Em cena, Zia Soares, Lúcia Raimundo e Sara Fonseca da Graça dão corpo a uma relação que nunca se fixa completamente mas que insiste, apesar de tudo, em existir.

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