Muitos dizem que o futuro depende de ti e das tuas açōes mas a teoria nem sempre se coaduna com a prática. Por mais que a vontade, o sacrifício e a perseverança se façam presentes, é preciso que o nosso meio envolvente também esteja, de certa forma, receptivo às nossas vontades. É nessa senda, que contamos a história de Djanira Costa, uma atleta em ascensão que viu o seu sonho ser barrado pela pressão familiar.

É comum os destinos dos mais novos serem traçados pelos desejos e ambições dos pais, mas por norma, com mais ou menos facilidade, cabe ao jovem decidir por que caminho quer enveredar. Contudo, num núcleo familiar afrodescendente, a pressão pode muitas vezes ser sufocante, acabando por se tornar castradora.

Djanira Costa, atleta e estudante de Gestão e Finanças, viu o seu sonho ser destroçado quando, a caminho dos European Atheletics Indoor Championships, o seu pai decidiu proibi-la de continuar os seus treinos.

A sua vida competitiva começou no clube União Atlética Povoense, arredores de Lisboa, quando aos 12 anos de idade, conseguiu convencer os seus pais que aquele era um desporto que gostava de praticar e que queria seguir profissionalmente.

Aos 15 anos, depois de três anos de treino, o número de medalhas de primeiro lugar que conquistou já nem se contavam pelos dedos. Ao todo, Djanira tinha acumulado 32 medalhas, 15 delas de ouro. “Numa brincadeira, a minha mãe disse-me que se calhar eu ganhei o gosto por corrida porque ela andava sempre a correr para apanhar o autocarro” explicou-nos a sorrir, numa entrevista realizada em Londres, Inglaterra.

Os pais de Djanira são de nacionalidades diferentes, a mãe é de origem guineense e o pai de origem cabo-verdiana, mas cujo princípios e valores são semelhantes. “Eu sempre tive a noção de que os meus pais tinham uma mentalidade diferente da dos pais dos meus colegas, e de que eram mais rígidos, mas fui-me habituando a isso,” explica-nos.

Depois de ter iniciado a sua jornada atlética em Portugal, a vida de Djanira muda completamente de cenário, quando os seus pais decidem mudar-se para Londres, no Reino Unido em 2012, quando tinha 17 anos.

não sei porquê que continuas a treinar se nunca vais chegar a lado nenhum

Numa cidade gigante e desconhecida, Djanira decide inconscientemente refugiar-se no que mais gostava de fazer e retoma os treinos, em Finsbury Park, onde entretanto oportunidades começaram a surgir. “Não foi fácil mudar de país. Eu não tinha amigos aqui, o meu namorado estava em Portugal, e não sabia a língua”. Mesmo não sabendo falar inglês, “era nos treinos que eu me sentia em família e foi lá que comecei a desenvolver o meus inglês”.

Em Setembro de 2012, a jovem começou os seus estudos em Gestão, numa escola em Hackney e, apesar de gostar do curso, a sua atenção ainda estava a 110% nas faixas do campo onde praticava atletismo. “Eu até gostava imenso do meu curso, mas gostava muito mais de estar no campo a treinar as pernas e não a mente.”

Djanira Costa
Imagem divulgação

Mas esse escape cedo iria deixar de o ser. “As minhas notas não eram más, até eram bastante boas, mas para os meus pais não era o suficiente.” Durante dois anos, a atleta treinou intensamente mas tirava pausas forçadas sempre que recebia uma nota menos boa da escola. “O meu pai dizia-me: ‘não sei porquê que continuas a treinar se nunca vais chegar a lado nenhum, tens é de te focar nos teus estudos’, e eu de uma forma ou outra interiorizei isso.”

As palavras do seu pai acabaram por surtir o efeito contrário e tornaram-se em motivação. “Fui melhorando a cada treino e com a melhoria veio a atenção de várias pessoas, que reconheciam o meu talento e queriam levar-me mais além.”

Em 2015 o sonho acabara por ser abruptamente interrompido: o pai decidiu que Djanira não devia voltar a correr. A realidade de uma educação rígida de outrora batia assim de frente com a vontade de uma comprovada promissora carreira no atletismo. “Por algum motivo acham que sabem o que é melhor para os seus filhos, mas o melhor deles não se encaixa na sociedade em que vivemos hoje em dia”.

A decisão foi tomada com base em experiência de vida. “O meu pai foi pai cedo e por isso não viveu a sua vida como queria ter vivido. Ele queria ter ido para a universidade e tirado um curso em Economia, para poder ajudar a sua família mas com a minha chegada esses sonhos foram se afastando até ser tarde de mais.”

Agora é diferente, porque tudo depende de mim

Apesar de entender a motivação do pai, Djanira acredita que a educação “rígida” é que está por detrás dessa inquietação dos seus pais com a escola. Em Portugal, no seio das famílias de imigrantes, o ensino superior é uma meta que poucos pais conseguiram atingir e que acaba por ser projetada para os filhos, mas por vezes, de forma autoritária, passando por cima da vontade e objetivos dos próprios filhos. “Eu estava a caminho de uma das competiçōes mais importantes de atletismo [European Atheletics Indoor Championships], tinha trabalhado para lá chegar, mas depois de o meu pai proibir-me de ir, eu perdi a motivação toda e parei de vez.”

Djanira Costa parou durante três anos, e durante esse tempo focou a sua energia em estudar e trabalhar, como lhe foi imposto. Contudo, quando a vocação é inata, a voz interior, mesmo que adormecida, acaba por nos chamar à razão do coração. A jovem voltou a correr. Passaram-se três anos. O corpo não responde da mesma forma. A técnica tem de ser aperfeiçoada. A vontade de ser campeã, essa continua exatamente a mesma e a maioridade apagou os obstáculos que antes se faziam valer. Djanira quer ser a melhor. “Agora é diferente, porque tudo depende de mim e da minha força de vontade.”