Pedro Lopes, 32 anos, é secretário de Estado de Cabo Verde para a Inovação e Formação Profissional, é especialista em Comunicação, licenciado em Relações Internacionais, mestre  em Resolução de Conflitos e pós-graduado em Comunicação Estratégica de Marketing e é também um dos fundadores do TedX Praia. Neste extenso currículo, há ainda a acrescentar nada mais do que o título de uma das personalidades afro-descendentes mais influentes do mundo, atribuída pelo organismo MIPAD e o facto de integrar a primeira turma da Fundação Obama destinada aos próximos líderes africanos.

Estão lançados os dados para dar início a mais um perfil #Bright. Lê abaixo a entrevista ao jovem líder que tanto tem contribuído para o empoderamento juvenil no seu país e não só.

O que para ti, significa esse tipo de distinção (Os 100 Afrodescentes Mais Influentes)?

Primeiro é importante dizer que esta lista feita pelo MIPAD, surge na ocasião Década Internacional dos Afrodescendentes, proclamada pelas Nações Unidas (2015-2024).

Estar nesta lista das 100 pessoas mais influentes de ascendência africana abaixo dos 40 anos de idade no mundo inteiro, é um orgulho enorme por dois motivos: primeiro por ver a bandeira de Cabo Verde lá bem alto, a mostrar que o nosso país é do tamanho dos sonhos e da alma dos cabo-verdianos. Segundo, porque é um reconhecimento que mostra que os jovens do nosso país estão cada vez mais a dizer “presente” em fóruns internacionais, em rankings internacionais e a serem premiados pela sua excelência em diferentes áreas no panorama internacional. Temos que valorizar a nossa juventude e construir com ela uma África de futuro, que inclui quem mora no continente como a economista moçambicana Tânia Tomé, que está distinguida, mas também a sua diáspora como a franco-senegalesa Sibeth Ndiaye, conselheira do Presidente francês, Macron e que também faz parte desta lista. Em outros anos, o actor Trevor Noah (África do Sul), a escritora Chimamanda Adichie (Nigeria), a modelo Leila Lopes e os futebolistas Didier Drogba (Costa do Marfim) e Samuel Eto ́o (Camarões) estiveram também entre os distinguidos. Mas esta distinção realmente não é minha, esta lá a minha cara, mas esta distinção é para o meu pai que mesmo na diáspora, Portugal, onde foi para completar o curso de Economia e constituir família sempre fez questão de colocar em mim as sementes de Cabo Verde e regá-las com histórias, cultura, gastronomia, viagens nas férias para visitar a família e país de origem, mas acima de tudo com um orgulho de pertença às Ilhas de Cabo Verde que a distância nunca abalou. Na vida é importante encontrarmos o nosso porquê e o meu porquê sempre foi vir para Cabo Verde e poder ter impacto no meu país e saber sorrir e ser feliz durante esse percurso. De referir que a cerimónia da distinção será realizada em Nova Iorque pela ocasião da Assembleia Geral das Nações Unidas e a lusofonia estará bem representada com afrodescendentes de Cabo Verde, Brasil, Moçambique, Guiné Bissau e Angola, a acompanhar-me estará o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Cabo Verde – Luís Felipe Tavares, o que mostra o comprometimento do nosso país com a Década dos Afrodescendentes.  

Imagem : MIPAD)

Achas que os afrodescendentes ou a diáspora africana têm tido o destaque que merecem, quer profissionalmente, socialmente e politicamente falando? 

Temos que dar mais projeção à nossa diáspora, mostrar o que de fantástico estão os cidadãos dos nossos países que vivem lá fora a fazer, mas acima de tudo capitalizar em nosso beneficio a realidade que é, no caso do meu país, termos mais cabo-verdianos a viver fora do que em território nacional. Aproveitar a sua ligação emocional com os países de origem, a sua vontade de estarem ligados ao seu território, de dar o contributo para o desenvolvimento da sua terra mesmo que o façam à distância. Imaginem o que seria termos uma ponte virtual que permitisse ligar os jovens que vivem nos países da lusofonia aos casos de sucesso da nossa diáspora, dando acesso à nossa juventude ao conhecimento e orientação de quem vive lá fora e exerce cargos executivos em grandes empresas/instituições internacionais, governantes de sucesso e lideres comunitários. Nesta nova era digital temos que encontrar soluções inovadoras que encurtem a distância e que favoreçam os nossos países. Fazer referência também à necessidade de sabermos acolher uma nova vaga que está a surgir, da juventude da diáspora africana que quer descobrir a sua terra, a terra dos seus pais, avós, e que tem formação em universidades internacionais de muita qualidade e/ou já trabalhou em grandes instituições, é preciso acarinhá-los para que estes não se sintam cidadãos de segunda categoria, apoiá-los no início da sua chegada, já que estes não têm a mesma rede de contactos, e saber colocar as suas capacidades ao serviço dos nossos países. 

Como pode um secretário de Estado para a Inovação e Formação Profissional ajudar a dar destaque ao que de melhor se faz no continente africano?

Sendo o membro mais jovem do Governo do meu país quero estar próximo da juventude e dos canais de comunicação que ela usa, mas também dar visibilidade aos projetos liderados pela nossa juventude e que dão o seu contributo para um país e um continente virados para o futuro. Faço, portanto, uso das plataformas sociais (Facebook/Twitter/Linkedin/Instagram) para dar a conhecer projetos de inovação liderados por jovens, utilizo também as minhas redes de contactos que vem da participação em programas como o YALI e agora o Programa da Fundação Obama para partilhar experiências e as melhores práticas com outros jovens líderes que estão em posições governativas em outros países africanos. E aproveito também a minha participação em fóruns internacionais em representação de Cabo Verde para destacar o que estamos a fazer no nossos país e também para ouvir e aprender com o que melhor se faz em outros países.  A título de exemplo criámos recentemente o CV Next, que é uma plataforma para dar visibilidade a inovadores cabo-verdianos, seja no nosso país ou lá fora, colocar a inovação no centro de debate e permitir conectar governo-universidades-sector privado-juventude-parceiros internacionais para criarmos soluções inovadoras e convergirmos na mesma direção e, por fim, ligar empresas com mais experiência a start-ups nacionais. Este é o género de iniciativas que podem ajudar a dar destaque ao que de melhor fazemos.

Além de ser um motor de motivação para os jovens que podem participar localmente, o TEDx Praia tem alguma repercussão para os filhos e descendentes de pais cabo-verdianos pelo mundo?

Tem uma importância muito grande, o ano passado na primeira edição do evento, fizemos a transmissão para o mundo inteiro através da Internet e tivemos muitos jovens cabo-verdianos, muitos deles que nunca visitaram Cabo Verde a acompanhar o evento. Conectaram de forma muito forte com o TEDxPraia porque este representa uma marca internacional moderna onde se revêm como cidadãos de mundo que procuram conhecimento. E aqui, o facto de esta iniciativa realizar-se no país dos seus pais e dos seus avós, penso que os surpreendeu de forma positiva, ainda para mais sabendo que tinha sido organizado por jovens que vivem em Cabo Verde e que conseguiram organizar uma iniciativa ao nível do que melhor se faz no mundo. Para além disso, trouxemos também da nossa diáspora para participarem como oradores, pessoas como Nick Pinheiro (Engenheiro da Microsoft e Facebook), Elisabeth Moreno (Presidente da Lenovo França), Emily Macauley que já esteve na lista da Jeune Afrique Economia dos 50 melhores Gestores do continente africano e que na sua talk fala exatamente sobre o tema Diaspora Brain Gain (disponível no YouTube). É importante partilhar uma imagem de um país moderno e virado para o futuro para que os nossos jovens cabo-verdianos que estão lá fora tenham orgulho do seu país.

Sobre o TEDxPraia é importante realçar que apesar de ser ainda o detentor da licença, a organização deste ano ficou toda entregue ao Joel Almeida e à sua equipa que tiveram a responsabilidade de mostrar que este é um evento que não depende da pessoa X ou da pessoa Y mas sim da força da juventude cabo-verdiana. 

Sendo um jovem Secretário de Estado, empreendedor, e personalidade influente, com as tuas conquistas qual é o legado que queres deixar?

Essa é realmente uma pergunta que penso que todos os jovens que querem ter impacto no seu país e no seu continente devem perguntar a si mesmos. Quando acabar esta caminhada, o que deixei para trás? Tenho feito o meu percurso passando por diversas áreas, tentando sempre crescer como pessoa e melhorar a nível profissional, levantando-me nas minhas quedas, que por certo ainda serão muitas, não perdendo tempo com críticas que não são construtivas ou com queixumes que nos retiram a força de caminhar para a frente. O legado que quero deixar para trás é o de ter feito as coisas com autenticidade, com paixão e com o objetivo de fazer diferente para melhor. Aqui em Cabo Verde falo muito da construção de um Cabo Verde 2.0. Um Cabo Verde de futuro, mas orgulhoso da sua identidade, inovador, onde os jovens têm voz pela força dos projetos que desenvolvem e pelas ideias que concretizam, um Cabo Verde estável social e politicamente mas imprevisível na suas manifestações cultuais e nas ideias da sua juventude, que procura insistentemente novas soluções que permitem responder com resiliência e engenho a uma natureza que teima em não trazer chuva para o nosso arquipélago. E que também procura novas soluções para encurtar a distância relativamente a países mais desenvolvidos. Tenho também o sonho de usarmos cada vez mais a nossa cultura como uma lança para conquistar o sucesso dos nossos projetos profissionais e não apenas utilizarmos a cultura como escudo onde nos refugiamos para justificar uma certa apatia. Em Cabo Verde somos ótimos contadores de histórias, somos apaixonados, sonhadores, nunca desistimos face às adversidades, temos um espírito aberto ao mundo, com uma rede de contactos ampla, temos de usar tudo isto a nosso favor, é nosso. Que o meu legado possa ser o de alguém que sempre caminhou em frente com a vista no horizonte e sem conformismos, que deu força à juventude, desafiou a colocarmos muito da nossa cultura nos nossos projetos profissionais e na nossa cultura empresarial e que fez essa caminhada sem deixar de ser autêntico e de sorrir com vontade. 

O que esperas adquirir neste programa da Fundação Obama para poderes transmitir aos jovens do teu país?

A missão da Fundação Obama é “inspirar e capacitar as pessoas para mudar o seu mundo”, logo, daí advém a responsabilidade de multiplicar valor. Penso que essa é a responsabilidade de quem participa em programas internacionais como por exemplo o Programa YALI que tive o prazer de ser um dos selecionados em 2017. Aquando do regresso ao nosso país existe um dever cívico de inspirar mudança, de ter impacto sobre as pessoas e sobre as nossas comunidades, é verdade que estes programas nos dão visibilidade e curriculum, mas se ficar só por aí, arrisco-me a dizer que quem selecionou não fez uma boa escolha ou então os candidatos não foram totalmente honestos no momento da candidatura. O mais difícil é manter o entusiasmo que existe no momento da partida, e por isso penso que o desafio está à chegada porque aí é que é importante mostrar que esta oportunidade se traduziu em conquistas pessoais e coletivas e partilha de conhecimento.   

Qual foi a sensação de descobrir que foste selecionado entre os dez mil candidatos para o primeiro programa da fundação de alguém tão influente como o Presidente Obama e a sua esposa Michelle?

Foi curioso, porque já me tinha candidatado há algum tempo e com a responsabilidade das minhas funções e enorme volume de trabalho, acabei por me esquecer. Até que vi um post no twitter do Presidente Obama a dizer que mal podia esperar para estar com os 200 selecionados que iriam fazer parte do lançamento do programa da Fundação Obama em África. E o entusiasmo subiu, no dia seguinte recebi o mail que me informava que tinha sido um dos selecionados e claro que a alegria foi muita. O Presidente Obama e a Sra. Michelle são líderes que admiro, sigo a sua Fundação desde a sua Cimeira inaugural em 2017 e partilho dos seus princípios e dos seus objetivos. A minha mãe, que é muito importante para mim, sempre me diz que vou merecendo todas estas conquistas porque tenho um coração grande, e por incrível que pareça, aos momentos em que conquistei etapas importantes sempre antecederam períodos de altruísmo. Este é mais uma etapa e agradeço a todos os que me têm apoiado nesta caminhada, fazendo parte dos meus projetos, juntado as suas ideias às minhas, dando-me conselhos ou “apenas” amizade e apoio verdadeiro. O meu sucesso será sempre também deles. Obrigado também aos meios de comunicação como a BANTUMEN que dão força à juventude da nossa África lusófona.