Na América do Norte observa-se na comunidade negra um levantar cada vez maior de um interesse por uma educação afrocentrista. Para quem desconhece a palavra, o afrocentrismo é uma ideologia que defende a história, identidade e cultura africana, procurando oferecer orgulho e conhecimento sobre as suas origens africanas.

É neste contexto que o The New York Times publicou um artigo sobre os pais que estão à procura de alternativas à integração dos seus filhos quando as escolas de Nova Iorque continuam demasiado segregadas.

“‘Eu me amo!’, gritou o grupo de crianças negras em uníssono. ‘Eu amo o meu cabelo, amo a minha pele!’ Na hora de regressar à calma, a professora ergueu o punho numa saudação ao poder negro. Os estudantes fizeram o mesmo e a sala ficou silenciosa. Enquanto as crianças saíam do apertado auditório da escola a caminho da aula, elas passavam por cartazes de Colin Kaepernick e Harriet Tubman”, descreve o artigo naquilo que é uma manhã na escolha Ember Charter, em Bedford-Stuyvesant, no Brooklyn, um bairro há muito conhecido como um centro do poder político negro norte-americano.

Embora a cidade de Nova Iorque tenha tentado romper o ciclo de segregação desde 1954, o seu sistema educativo, neste nível, continua a ser o pior dos Estados Unidos. E a comunidade, em vez de pressionar social e politicamente a integração, está cada vez mais a optar por alternativas como escolas projetadas apenas para crianças negras.

As escolas afrocêntricas têm sido defendidas por educadores negros que tiveram experiências traumáticas com a integração desde a década de 1960 e por jovens famílias negras que dizem que recentemente experimentaram racismo codificado e marginalização em escolas integradas. Ambos os grupos ficaram desapontados por décadas de esforços para lidar com as desigualdades no maior sistema escolar dos EUA.

“Alguns de nós são pró-integração, alguns de nós são anti e outros são ambivalentes”, disse Lurie Daniel Favors, membro da Parenting While Black, um recém-formado grupo de pais do Brooklyn. “Mesmo que a educação integrada funcionasse perfeitamente – e a nossa sociedade passou os últimos 60 anos a tentar – ainda não está a dar às crianças negras o tipo de educação necessária para criar as soluções de que as nossas comunidades precisam.”

Crianças de qualquer raça podem se inscrever numa escola afrocêntrista, embora a maioria seja predominantemente negra. Alguns têm números consideráveis ​​de estudantes hispânicos, como é o caso da escola Ember, cujo um terço dos alunos são hispânicos e inclusive incorpora o espanhol na afirmação matutina dos estudantes.

As escolas afrocêntristas visam capacitar as crianças negras de uma forma que as escolas tradicionais na América historicamente não conseguiram. Embora os defensores da integração desejem o mesmo, alguns pais e educadores em todo o país acreditam que as escolas afrocêntristas de alta qualidade podem atingir esse objetivo [o da integração] de uma maneira diferente – afirmando o poder negro, o orgulho e a excelência perto de casa.

E, embora um estudo recente tenha constatado que algumas escolas afrocêntristas têm baixo desempenho, estas continuam populares entre os pais e muitos educadores. Milwaukee e Chicago têm escolas bastante populares, na Geórgia, alguns pais negros decidiram educar os seus filhos em casa para ajudar a garantir que aprendam sobre a história dos negros e novas escolas e programas públicos afrocêntristas surgiram recentemente em Washington, D.C. e Oakland, Califórnia.

Demetrius Freeman/The New York Times

Mas, mesmo com o conceito se espalhando, décadas de pesquisa mostraram que a integração pode redistribuir recursos entre as escolas e, assim, aumentar o desempenho académico, e especialistas alertaram que o abandono da ideia de integração poderia sair-lhes pela culatra. “A segregação leva à desigualdade”, disse Andre Perry, um membro da Brookings Institution. “Não se pode simplesmente fazer isso. Se ignorares esse problema, ele voltará para assombrar-te”.

Richard A. Carranza, chanceler de escolas da cidade de Nova Iorque, disse que está ansioso para expandir um debate que ele ajudou a começar sobre desigualdades gritantes nas escolas – mesmo que alguns pais negros não concordem que a integração é a resposta.

“Muitas vezes, quando se fala sobre integração, trata-se de tirar crianças negras das suas escolas e enviá-las para escolas brancas”, disse numa entrevista. “Raramente é sobre ‘Como se faz com que outras crianças entrem em escolas tradicionalmente negras e encontrem valor?”.

E sobre os resultados dos estudantes que são comparados aos das escolas mistas, Mutale Nkonde, outro membro do conselho escolar, diz: “Mesmo numa escola integrada, mesmo numa escola de alto desempenho, nem todos os barcos estão a subir.”

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