"A Nobreza do Amor" e o fim (ainda incompleto) da invisibilidade negra nas novelas

April 28, 2026
a nobreza do amor novela opiniao
©Globo/Estevam Avellar

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Texto escrito originalmente em português do Brasil.


Gostemos ou não, a produção de novelas é um dos produtos de maior sucesso do audiovisual brasileiro. A teledramaturgia refletiu (e reflete) importantes dilemas éticos, morais e políticos da sociedade. As novelas também muitas vezes reforçaram estereótipos e opressões estruturais, invisibilizaram tramas, enredos e histórias de parte significativa da população. Nos últimos anos, transformações no debate público sobre representação, questão racial e de gênero alteraram não só a complexidade de enredos e personagens negros, mas também progrediram em dar espaços a roteiristas, pesquisadores, produtores e artistas racializados. Não podemos negar que esta mudança não surge fortuitamente ou com o ganho de consciência de quem dita se uma novela vale ou não a pena, mas também por estratégia de mercado e de público que passam por relativa saturação das mesmices de enredos com personagens majoritariamente brancos do eixo Rio-São Paulo.


O recente lançamento de “A Nobreza do Amor”, nova novela das 6 da Rede Globo, se configura, sob minha perspetiva, um novo marco da teledramaturgia brasileira. A novela, que teve início em meados de março, propõe um enredo transatlântico. Dois cenários fictícios, de um lado, a cidade de Barro Preto na região das falésias do Rio Grande do Norte, do outro lado, o Reino de Batanga, localizado na costa ocidental do continente africano. A história que conduz a trama são os eventos do Reino de Batanga, com o golpe de Estado realizado pelo ministro Jendal (interpretado por Lázaro Ramos) contra o Rei Cayman II (interpretado por Welket Bungué) que provoca a fuga da Princesa Alika (interpretada por Duda Santos) e da Rainha Niara (interpretada por Erika Januza) para Barro Preto.


A telenovela, que tem como autores Duda Rachid, Júlio Fischer e Elisio Lopes Jr, é um marco, em primeiro lugar, pela representação e reconstrução do imaginário. Estudos realizados pelo GEMAA-IESP, núcleo de pesquisa que desenvolve estudos sobre ação afirmativa e representação de raça e gênero em instituições e mídias, demonstram que, entre 1977 e 2018, há uma relação de 92% de personagens brancos para 8% de personagens não-brancos. De 2015 a 2023, há uma mudança relevante na qual 72% dos personagens são brancos contra 21% de personagens não-brancos. O ano de 2023, em particular, representa um momento de virada com a marca de 63% de personagens brancos para 37% de personagens não-brancos, sendo duas novelas daquele ano com recorde de diversidade, Amor Perfeito (2023) com elenco de 45% de personagens não-brancos e Vai na Fé (2023) com 43% de personagens não-brancos. Apesar das mudanças, o estudo constata ainda a sub-representação de personagens não-brancos que representam mais de 50% da população brasileira segundo o último censo do IBGE.

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©Globo/Estevam Avellar

A Nobreza do Amor não compõe parte do estudo do GEMAA, no entanto, em primeira vista o elenco principal da novela conta com um número significativo de atores e atrizes negros. Outro ponto fundamental consiste nos contextos que constroem estes personagens. A baixa presença de artistas negros foi acompanhada de personagens que, muitas vezes, só tinham uma função subalterna, sem contexto familiar, ou personagens auxiliares da realização de personagens brancos. A Nobreza do Amor traz uma conceção  de família negra que acredito ser um avanço. E traz ainda uma família africana real que resiste em dois lados do Atlântico. Ainda que, claro, acredite que há pontas soltas como a ausência de uma história consistente sobre o pai de Tonho (interpretado por Ronald Sotto) ou sobre a história de Mundica (interpretada por Samantha Jones).   


A trama trabalha a questão racial 40 anos após abolição no Nordeste brasileiro com timidez, contudo há cenas e acontecimentos que deixam explícita a existência do racismo que influi sobre o tratamento de pessoas negras, mesmo que estejam em posições de prestígio, como é o caso do engenheiro José dos Santos /Zambi (interpretado por Bukassa Kabengele) e da própria Rainha Niara e Princesa Alika, que ganham os nomes fictícios de Vera e Lúcia dos Santos, respectivamente, na trama. Mesmo que não sejam reconhecidas como realezas no contexto brasileiro, inúmeras vezes os cidadãos de Barro Preto atribuem “distinção”, “elegância”  às personagens. 


A personagem Princesa Alika, altiva, orgulhosa, sabedora de si e da relevância nobre de sua existência, poliglota, diplomata, empresária, guerreira que não negocia sua humanidade de maneira alguma em relação a dinâmicas de opressão de raça e gênero, é um símbolo que não podemos perder de vista. Ela incorpora uma atitude que remonta a guerreiras históricas e mitológicas da luta pela emancipação negra como Akotirene, Aqualtune, Dandara, Tereza de Benguela e muitas outras. Além disso, todos os núcleos de protagonismo da novela têm atores e atrizes negros como condutores do enredo, entre vilões, mocinhos, protagonistas e coadjuvantes. 


Por outro lado, a novela apresenta algumas incongruências e uma mistura de símbolos africanos na construção fictícia de Batanga. O Reino de Batanga acopla uma miríade de símbolos, estética e traços de povos africanos distintos que não tem uma relação geográfica direta no contexto do continente africano, como é o caso do oxê de Xangô, Orixá do panteão iorubano, na bandeira de Batanga com símbolos adinkras da cultura Akan de Gana, com toda uma construção da representação cultural de Batanga, aparentemente, ser oriunda de povos centro-africanos sendo comum palavras, expressões de idiomas como kimbundo e kikongo. 


Este fator não deve ser considerado como uma crítica em si, mas talvez uma tentativa por parte dos autores de refletir a forma como a cultura afro-brasileira tem diferentes matrizes civilizacionais. A cultura afro-brasileira é, em termos gerais, confluência de culturas ocidentais africanas, centro-africanas e nativo-americanas. Portanto, em diferentes níveis, a experiência de resistência cultural de povos originários de Oyó, Osogbo, do Reino do Daomé, do Reino do Ndongo, do Kongo, de Matamba, formou os alicerces daquilo que viria a ser a capoeira, o candomblé, a umbanda, o maracatu, os quilombos, o jongo etc. Ainda assim, acredito que ao pensar o imaginário coletivo brasileiro sobre África é preciso ter mais ponderação uma vez que no Brasil ainda se pensa que África é um “país” paupérrimo, sinônimo de escravidão e de atraso. Batanga se opõe parcialmente a esse imaginário reducionista, no entanto, pode incorrer com esta mistura de características de símbolos africanos distintos no reforço de uma África monolítica.


Outra incongruência é particularmente geográfica. O primeiro episódio informa que Batanga é um país na costa ocidental africana que, no meu entendimento, se refere à parte ocidental do continente onde se encontram contemporaneamente países como Nigéria, Gana, Senegal, Guiné-Bissau, Guiné-Conakry, etc. Mas, como apontámos, toda a representação cultural é centro-africana, além de ser mencionado na trama que Batanga era vizinho do Reino de Matamba. Mais uma vez, acredito que esta “desconexão” possa ser intencional, na medida em que no Brasil, em comunidades negras , o que é particular do Reino do Kongo, por exemplo, se amalgama com o que é particular de Ilé-Ifé, e assim adiante. No geral, quando se pensa em sincretismo, se refere à mistura com caráter de sobreposição de práticas religiosas ocidentais com práticas africanas, indígenas, mas é fundamental que lembremos que a cultura afro-brasileira é também resultado da confluência interafricana e indígena.


De qualquer maneira, a despeito das incongruências, duas coisas que considero muito relevantes são: em primeiro lugar, que se produzam enredos fictícios sobre pessoas afro-brasileiras, pessoas africanas, tramas e histórias negras, com profundidade, com acuidade, e especialmente a partir de mãos negras, pesquisadores(as), roteiristas(as), diretores(as) negros. É preciso sair do previsível, do estereótipo, rasgar o véu da invisibilidade de biografias e possibilidades imaginativas negras. Necessário se atentar que o povo brasileiro precisa de reparação de histórias não contadas, só deste modo, esta sociedade pode avançar no sentido de perceber que não há progresso sem olhar as potências e cicatrizes de frente. Outro ponto que considero fundamental é retomar a significância da história e das culturas centro-africanas pré-coloniais para a cultura e identidade brasileiras. Os centro-africanos representam, segundo Linda M. Heywood e Joseph Miller, 45% de todos os africanos escravizados e trazidos para as Américas, sendo o Brasil o principal destino de todos os homens, mulheres e crianças centro-africanos.


Existe certa tendência em privilegiar culturas africanas ocidentais em detrimento de centro-africanas que resulta da antropologia brasileira dos anos 50, de autores dos primeiros estudos afro-brasileiros como Nina Rodrigues que tinham uma ideia de que a cultura iorubá seria superior às culturas angola-congolesas, o que ficou conhecido como “nagôcentrismo”. Linda Heywood, historiadora afro-americana, lembra que, a despeito da “presença extraordinária dos centro-africanos no Brasil colonial e do fato da cultura inicial afro-brasileira ter sido em grande parte proveniente da África Central, poucos estudos têm detalhado esse processo em profundidade. As pesquisas que lidam especificamente com a cultura enfatizam a contribuição dos africanos ocidentais no intuito de dar conta de sua habilidade em preservar os elementos africanos na cultura crioula do Brasil.


Muitos dos estudos antropológicos focalizam quase que exclusivamente os praticantes de religiões afro-brasileiras, sobretudo os que praticavam a religião dos Orixás, de cultura ioruba na Bahia.” Ou seja, em A Nobreza do Amor, há termos, palavras, expressões como “Eweti”, “Layorê”, Ewê” que são de origens linguísticas distintas, mas fica patente que as línguas predominantes são o kimbundo, kikongo, umbundu, em verbetes como “Wazekele, “Kyambote”, “Jukulumessu” e etc. O que se chama de “culturas do tronco linguístico bantu”, marcam todos os aspectos culturais do cotidiano brasileiro, inclusive a maneira que falamos o português. Não é à toa que Nei Lopes, intelectual da cultura afro-brasileira, publicou duas edições do Dicionário Bantu no Brasil com mais de 1000 verbetes. 


Por último mas não menos importante, A Nobreza do Amor traz para as telas brasileiras artistas africanos. Temos o já consolidado Bukassa Kabengele, congolês-brasileiro, ator e cantor, filho do intelectual Kabengele Munanga, e que já esteve presente em filmes, séries e novelas. Temos Licínio Januário, angolano, natural da província do Bié, um artista versátil que mescla poesia, teatro, capoeira e ancestralidade em todos os seus trabalhos. Ele participou de uma entrevista aqui na BANTUMEN onde discorre sobre sua vida e trabalho. Temos também o ator guineense Welket Bungué que já apareceu em outras produções, mas agora se lança pela primeira vez em uma novela aberta da Rede Globo. 


Enquanto telespectador, acredito ser urgente dirimir as fronteiras geográficas e simbólicas que separam pessoas africanas e a produção mainstream brasileira, especialmente de artistas vindos dos PALOPs. É chegada a hora de vislumbrarmos maior espaço para artistas negros dos PALOP e de Portugal, e isso não é sobre uma conexão somente em nome da ancestralidade africana que podemos partilhar, mas em nome do enriquecimento da arte, da produção audiovisual, das parcerias entre negros brasileiros, negros europeus e africanos que sofisticam histórias, que oferecem outros ordenamentos, sotaques e scripts. Estes artistas têm um potencial de reinventar nossas novelas e nos oferecem pontes que precisam ser firmes entre territórios atlânticos.


Queremos, enquanto telespectadores, produções negras já existentes nesses territórios supramencionados sendo apresentadas e revisitadas na televisão brasileira. Enquanto noveleiro que sou, reafirmo: A Nobreza do Amor é um marco pelo imaginário em disputa que propõe, pela estética, pela trilha sonora (isto é um show a parte que podemos conversar sobre em outro diálogo), pela coragem de transformar. 


Ngasakidila!

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