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Adama Djaló construiu, ao longo de mais de duas décadas entre diferentes países, culturas e organizações, uma convicção que resume bem a sua visão sobre o lugar de África no mundo: "África não precisa de pedir licença para existir." A frase surge com naturalidade quando fala do Human Leaders International Congress 2026, mas podia resumir toda a sua trajetória, da Guiné-Bissau para Portugal, de Londres para Angola e novamente para a África Ocidental, sempre com o desenvolvimento humano, a comunicação e a liderança como fio condutor de uma carreira construída à volta daquilo que, segundo diz, continua a receber menos atenção nas organizações: as pessoas.
É essa visão que a leva agora à cidade da Praia, onde integra o programa da primeira edição do congresso. No palco, apresenta a masterclass "O Código Humano da Comunicação", dedicada à forma como os perfis comportamentais influenciam as relações dentro das organizações. Fora do palco, leva uma história que explica porque acredita que nenhuma transformação acontece sem autoconhecimento, sem escuta e sem a coragem de criar oportunidades para os outros.
Quando fala de si, Adama evita construir uma narrativa de sucesso assente em títulos ou cargos, e prefere falar de recomeços. Nasceu na Guiné-Bissau e saiu do país aos onze anos, cresceu em Portugal, estudou, viveu em Londres, trabalhou em Angola e regressou mais tarde para desenvolver projetos no continente africano. Cada mudança representou um novo começo e, sobretudo, uma oportunidade para perceber que o lugar onde nascemos não determina necessariamente o lugar onde podemos chegar. "Onde a gente vem não pode determinar para onde vamos", afirma, recordando que nunca foi a melhor aluna nem a pessoa que parecia destinada a construir uma carreira internacional, mas sempre foi, isso sim, uma inconformada no melhor sentido da palavra, alguém que fazia perguntas, que procurava compreender as pessoas e que acreditava que as oportunidades dificilmente aparecem a quem fica à espera delas.
Essa forma de estar ficou marcada por um episódio que ainda hoje recorda como um dos momentos decisivos da sua vida. Em Londres, participou num fórum internacional de recrutamento destinado exclusivamente a angolanos da diáspora, e logo no início da sessão foi pedido a quem não cumprisse os requisitos que abandonasse a sala. Adama não era angolana, era guineense de nascimento e portuguesa de nacionalidade, mas decidiu permanecer mesmo assim. No final da apresentação aproximou-se da diretora responsável pelo recrutamento, apresentou-se e entregou o currículo. A resposta foi educada mas negativa, o projeto era apenas para cidadãos angolanos, e saiu convencida de que aquela conversa terminava ali. Meses depois, quando surgiu uma vaga na equipa, lembraram-se da jovem que tinha decidido não abandonar a sala.
A história tornou-se uma das metáforas que mais utiliza nas suas formações. "A sorte dá muito trabalho", diz frequentemente, defendendo que as oportunidades existem, mas exigem preparação, iniciativa e capacidade para permanecer quando seria mais fácil desistir, porque a diferença entre quem aproveita uma oportunidade e quem a perde raramente está apenas na sorte, está na preparação para quando a porta finalmente se abre.
Foi precisamente essa oportunidade que a conduziu para uma carreira internacional ligada ao recrutamento, à formação e ao desenvolvimento de talento. Em Angola, a trabalhar numa academia de formação, encontrou aquilo que hoje define como a sua missão, ao perceber que as empresas não precisavam apenas de pessoas tecnicamente competentes, precisavam de profissionais capazes de comunicar, colaborar e compreender os outros. Até então, sempre ouvira dizer que tinha energia, facilidade em estabelecer relações e capacidade para mobilizar equipas, mas durante muito tempo não soube transformar essas características numa profissão, numa altura em que conceitos como coaching, inteligência emocional ou liderança comportamental ainda estavam longe de fazer parte do vocabulário comum das organizações africanas. "Descobri que a minha missão era ajudar as pessoas a desbloquearem o seu potencial oculto", explica.
Essa descoberta alterou completamente a sua forma de olhar para as empresas. Ao trabalhar com organizações públicas e privadas, começou a perceber que muitos dos problemas atribuídos à falta de competência técnica tinham, afinal, origem nas relações entre as pessoas, e que as organizações investiam em tecnologia, processos e procedimentos, mas continuavam a ignorar aquilo que realmente condicionava os resultados, que é a forma como as equipas comunicavam, lidavam com o conflito e reconheciam as diferenças. Foi então que conheceu uma ferramenta de análise de perfis comportamentais que acabaria por transformar também a sua própria forma de trabalhar. Ao receber o primeiro relatório sobre si própria, ficou surpreendida com o nível de detalhe com que aquele documento descrevia os seus pontos fortes, áreas de desenvolvimento e forma de interagir com os outros, e foi a partir desse momento que percebeu que compreender as pessoas não era uma questão de intuição, mas sim uma competência que podia ser estudada, desenvolvida e aplicada nas organizações. Hoje é precisamente essa abordagem que leva a empresas, governos e instituições em diferentes países da lusofonia.
Para Adama, comunicar não significa apenas transmitir informação, significa criar entendimento. "A comunicação é uma ciência", afirma, defendendo que comunicar eficazmente exige primeiro conhecer quem somos, para só depois ser possível adaptar a mensagem à pessoa que está do outro lado. "A comunicação não deve ser sobre mim, deve ser sobre o outro, mas para isso, primeiro tenho de me conhecer", resume. É esta ideia que estará no centro da masterclass que apresenta no congresso, onde pretende ajudar os participantes a compreender que diferentes estilos de personalidade exigem diferentes formas de interação.
Ao longo dos últimos anos, trabalhou com empresas em Portugal, Reino Unido, Angola, Guiné-Bissau e outros mercados da CPLP, e em praticamente todos encontrou o mesmo padrão: equipas tecnicamente competentes, mas frequentemente incapazes de transformar a diversidade em vantagem competitiva. Segundo Adama, as diferenças entre pessoas são frequentemente encaradas como um problema quando deveriam ser vistas como um recurso. "Muitas vezes aquilo que nos incomoda no outro são precisamente as áreas que nós próprios precisamos de desenvolver", diz. Essa ideia está na base do trabalho que desenvolve enquanto diretora regional da Clarity4D para os países da CPLP, ajudando organizações a compreender melhor os diferentes perfis comportamentais e a construir culturas de colaboração mais saudáveis.
A experiência internacional nunca a afastou da vontade de regressar à Guiné-Bissau. Pelo contrário: depois de vários anos entre Londres e Angola, decidiu voltar ao país onde nasceu para criar a Adama Connect. Muitos consideraram a decisão arriscada, num contexto marcado por desafios estruturais em que parecia improvável que temas como liderança, desenvolvimento humano ou perfis comportamentais encontrassem espaço, mas Adama acreditava exatamente no contrário: se aquelas metodologias tinham produzido resultados noutros países africanos e europeus, também poderiam contribuir para o desenvolvimento da Guiné-Bissau. Foi essa convicção que a levou a investir na formação de líderes, gestores, instituições públicas e organizações da sociedade civil, mostrando que a transformação começa quase sempre pelas pessoas antes de chegar às estruturas.
É também essa experiência que dá um significado particular à sua participação no Human Leaders International Congress, que para Adama representa muito mais do que um conjunto de palestras: representa um sinal de maturidade para a África lusófona. Durante demasiado tempo, afirma, muitos dos grandes debates sobre liderança, inovação ou desenvolvimento aconteceram longe do continente, e ver um encontro desta dimensão acontecer em Cabo Verde, reunindo especialistas de diferentes geografias, demonstra que África também pode produzir conhecimento, gerar reflexão e liderar conversas globais.
“África não precisa de pedir licença para existir. Conseguimos fazer coisas muito grandes com o nosso contexto”
Adama Djaló
A frase não significa fechar portas ao exterior. Pelo contrário, Adama defende a importância das parcerias internacionais, da aprendizagem e da circulação de conhecimento. O que recusa é a ideia de que África tenha de esperar validação externa para reconhecer o valor das suas próprias competências, uma convicção que ganha ainda mais força quando fala da Guiné-Bissau. Apesar dos desafios económicos e institucionais, considera que o país possui uma riqueza frequentemente ignorada: o humanismo. "A Guiné tem um humanismo fora de série", diz, recordando a forte cultura de entreajuda, a proximidade entre as pessoas e a capacidade coletiva para cuidar umas das outras, que continuam presentes mesmo em contextos difíceis e que, na sua leitura, representam uma das maiores vantagens competitivas do país. Com mais investimento em educação, formação e desenvolvimento de competências, acredita que a Guiné-Bissau poderá construir uma nova geração de líderes preparados para responder aos desafios do futuro.
Ao longo de toda a conversa, Adama regressa repetidamente à mesma ideia: liderança nunca foi sinónimo de protagonismo. Para ela, liderar significa servir, escutar e criar condições para que outras pessoas cresçam, e é por isso que rejeita a imagem do líder solitário capaz de resolver tudo sozinho. "Mais vale um por cento de cem pessoas do que cem por cento de uma só", diz, acrescentando que essa visão obriga também os próprios líderes a cuidarem de si, porque, na sua perspetiva, não existem grandes líderes que caminhem sozinhos: todos precisam de mentores, terapeutas, coaches ou pessoas capazes de lhes oferecer um espaço seguro para continuar a aprender. A liderança começa pelo autoconhecimento e termina na capacidade de colocar os outros no centro.
É precisamente com essa reflexão que encerra a conversa: "Todos podemos ser líderes. Agora, será que todos queremos pagar o preço para ser líder?" A pergunta fica no ar porque, para Adama Djaló, liderar nunca foi uma questão de estatuto, mas uma escolha diária, feita de responsabilidade, generosidade e compromisso com o desenvolvimento dos outros. É essa liderança, profundamente humana, que leva ao Human Leaders International Congress, não para pedir licença, mas para mostrar que o conhecimento, a inovação e a transformação também podem nascer em África.
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