Alicia Freitas, pianista cabo-verdiana de 16 anos que já começa a desenhar o seu próprio som

April 12, 2026

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Aos 16 anos, Alicia Freitas ainda fala da música com a mistura rara de quem está a descobrir e, ao mesmo tempo, já sabe exatamente onde quer estar. Pianista, intérprete e compositora cabo-verdiana, estreou-se no Atlantic Music Expo 2026, no Palácio da Cultura Ildo Lobo, na Praia, com um repertório maioritariamente autoral, tornando-se numa das artistas mais jovens a passar por aquele palco. 


A música entrou-lhe cedo na vida, muito antes de qualquer ambição pública. Alicia lembra-se de crescer com a mãe a pôr-lhe música de vários géneros em casa, como quem oferece uma linguagem antes mesmo de haver palavras para a explicar. O primeiro contacto com o piano aconteceu por volta dos quatro anos, de forma autodidata, ainda sem aulas, ainda sem método, apenas por curiosidade e atração natural pelo instrumento. Aos seis, entrou para a escola Pentagrama, onde começou a aprender música de forma mais estruturada, primeiro pela flauta e pela educação musical, depois pela guitarra acústica. Mas nada disso a tocava da mesma forma.


Foi só quando regressou ao piano, há cerca de três anos, que sentiu aquilo a que chama “uma grande conexão”. Com os outros instrumentos, diz, tocava porque estava nas aulas, porque fazia parte. Com o piano foi diferente. Sentiu-se livre. Sentiu que podia explorar, experimentar, desobedecer um pouco, encontrar uma forma mais pessoal de se exprimir. É nesse ponto que a música deixa de ser apenas aprendizagem e passa a ser linguagem.


Talvez por isso as suas composições tenham esse lado de procura, como se ainda estivessem a ser escritas ao mesmo tempo que própria jovem artista se vai construindo. Alicia não fala da sua música como algo fechado ou resolvido. Pelo contrário, assume-se numa fase de descoberta. E essa abertura é também uma forma de honestidade. Em vez de apressar-se a definir-se, prefere experimentar e tentar perceber o que lhe pertence, o que a move, o que quer dizer através do piano.

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Alicia Freitas pianista cabo verde

©BANTUMEN

Essa procura tem incluído, nos últimos tempos, uma aproximação mais consciente à música cabo-verdiana. Não porque lhe tenha sido imposta como dever identitário, mas porque começou a sentir vontade de a tocar à sua maneira mas Alícia reconhece que esse caminho nem sempre é simples. Fala da dificuldade em encontrar pautas bem escritas ou referências suficientes para transpor certos géneros tradicionais para o piano. Por isso, “criei talvez um pouco de conforto com a música contemporânea mas, recentemente, consegui encontrar pessoas que me ensinaram a sua maneira de ver a música tradicional e tenho estado a achar muito interessante,” explica-nos a artista acrescentando que absorveu as fórmulas mais básicas e que depois as desenvolveu para agora poder fazê-lo à sua maneira.


Sobre as suas próprias composições, a primeira foi uma morna, que não chegou a desenvolver muito. Depois veio uma coladeira, onde conseguiu absorver uma base e levá-la para o seu próprio universo. E é nesse encontro entre tradição e liberdade que Alicia parece encontrar uma direção cada vez mais interessante, onde não existe uma repetição reverente, nem uma tentativa de provar pertença. É antes uma conversa em curso, delicada, curiosa, entre uma jovem pianista e um património que quer compreender sem deixar de ser ela própria. Talvez por isso diga esperar conseguir, daqui para a frente, envolver ainda mais géneros cabo-verdianos no seu trabalho.


Quando fala das suas referências, em Cabo Verde, menciona nomes como Carlos Matos e Khaly Angel. Fora do arquipélago, surgem pianistas de diferentes geografias e sensibilidades, como o espanhol Juan Arenosa e o italiano Ludovico Einaudi.


A estreia no Atlantic Music Expo foi a entrada concreta num espaço que conhecia há alguns anos mas do lado de fora. Chegou a pensar: “e se um dia eu estivesse ali em cima do palco? E, finalmente, este ano consegui entrar.” Quando finalmente foi selecionada, a alegria inicial deu lugar a outra sensação, mais inquieta. Perguntou-se o que fazia ali, no meio de tanta gente com mais percurso, mais idade, mais influência. A pergunta é reveladora não de insegurança gratuita, mas da consciência do lugar onde estava. “O que é que uma rapariga de 16 anos está a fazer no meio desta gente grande?”, perguntou-se.


“Aí, pensei: ‘estou aqui mas não estou de qualquer maneira’”, retorquiu. A jovem lembrou-se que trabalhou para chegar ali. E, assim, subiu ao palco num dos showcases mais assistidos deste AME 2026 por delegações de profissionais da indústria da música e de festivais de vários países.


Quando terminar o liceu, Alícia quer estudar composição e trilha sonora num conservatório. E, se depender da abertura que procura, os Estados Unidos aparecem-lhe como um destino desejado, mais do que a Europa, que vê como mais fechada a certos caminhos menos clássicos.

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