Entre o trauma e a comunidade, Ana Tica insiste em construir futuro

April 5, 2026

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O seu nome de nascimento é Ana Fernandes mas o mundo conhece-a como Ana Tica. Nascida em Lisboa, de origem cabo-verdiana, e mãe de uma rapariga de 12, Ana construiu o seu percurso ao serviço dos outros e hoje lidera a ÉBAN - Social Tech for Ethical Data, startup dedicada a ajudar organizações sociais a medir e comunicar o seu impacto. Nesta conversa, fala sem filtros sobre dúvida, legado e o tipo de sucesso que não aparece nos feeds das redes sociais.


Ana Tica chegou à Animação Sociocultural "um pouco ao acaso”, ou assim pensou durante algum tempo. Hoje reconhece que foi a soma de necessidades muito concretas que a guiou até lá. Crescer em Portugal sendo uma pessoa negra, sem referências próximas que se pareciam consigo, criou nela uma fome de pertença. "Sentia muita necessidade de encontrar pares", conta.


Foi no ensino secundário, com os estágios do curso técnico, que essa procura encontrou um caminho. Nos bairros onde estagiou, fez amigos, identificou problemas e percebeu que podia fazer parte da solução. "A animação começou a fazer muito sentido, porque trabalhamos com a metodologia do projeto, e o projeto tem muito a ver com o sonho. Não é projetar algo antes de ser realidade; é conseguir ver essa realidade, depois definir todos os passos para lá chegar e fazê-lo em grupo."

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Ana tica entrevistas

©BANTUMEN/Nuno Silva

Depois de anos a desenvolver e a participar em projetos sociais - alguns deles interrompidos porque, como diz, “alguém decidiu que não estava a ter ‘impacto suficiente’” - Ana Tica acabou por centrar o seu trabalho precisamente nessa questão. Fundou uma startup dedicada à medição de impacto social, num momento em que muitas organizações geram valor real, mas continuam a ter dificuldade em medi-lo, prová-lo e comunicá-lo de forma consistente.


O problema não é novo. A Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico e a União Europeia têm vindo a sublinhar a importância da medição de impacto social, não só para perceber a mudança gerada, mas também para melhorar decisões internas e prestar contas a financiadores, parceiros e à sociedade. Ao mesmo tempo, alertam para o facto de muitos destes modelos continuarem a responder mais às exigências externas de avaliação do que à realidade concreta em que as organizações sociais trabalham.


É precisamente nesse intervalo que Ana quer intervir. O objetivo da sua startup passa por ajudar organizações sociais a digitalizar processos, prestar contas com maior clareza e demonstrar, de forma mais sólida, o valor do trabalho que desenvolvem - não apenas junto dos seus destinatários diretos, mas também perante a sociedade em geral. Mais do que recolher números, trata-se de mostrar como os recursos são usados, que resultados produzem e que transformação social tornam possível.


Para a empreendedora, a digitalização não é uma ameaça ao setor social, mas uma exigência do presente. “Estas organizações não podem ficar para trás, porque fazem um trabalho muito importante. Mas ao mesmo tempo, cada vez mais, é necessário prestar contas à sociedade sobre os recursos que se utilizam e o valor que geram.”


Questionada sobre o que podia ter travado o seu percurso, Ana Tica é direta e aponta a falta de oportunidades. "Essa é mesmo o que pode fazer diferença na nossa vida: termos oportunidade de conhecer novas coisas, de ter novas experiências, de aceder a conhecimento." Felizmente, diz, as oportunidades foram aparecendo e aprendeu a estar aberta a elas, mesmo quando a incerteza era grande.


E as dúvidas? "Já duvidei de mim. Isso acontece a toda a gente", replica mas com a certeza de que a melhor forma de lidar com elas é avançar na mesma. "Sou aquela pessoa que vai mesmo com medo ou com dúvidas. E é nesse movimento que as coisas acontecem. E, frequentemente, quando me lanço, afinal não foi tão difícil como imaginava."


Ana Tica rejeita a definição de sucesso que domina as redes sociais, a das posses, dos patamares profissionais, dos números. Para ela, sucesso é outra coisa. "O tempo é um dos nossos principais recursos. Por vezes queremos algo, mas fazemos o oposto: valorizamos a família, mas para lhe dar boas condições, trabalhamos e vamos deixando sempre para depois os momentos de qualidade com ela."


O seu maior sucesso até hoje? "Estar viva", afirma com convicção de quem sabe o que diz. A 3 de setembro de 2025, Ana sobreviveu a um acidente grave que se tornou numa tragédia nacional: o acidente do elevador da Glória. Ao todo, morreram 16 pessoas e 22 ficaram feridas. "Depois de algo tão marcante, continuar aqui, continuar a perseguir sonhos, poder ver a minha filha crescer, isso é um enorme sucesso", desabafou à BANTUMEN.


Se pudesse dar uma mensagem ao seu eu mais novo, diria “que sobrecarregar-me de afazeres não me trazia mais sucesso”, afirma com a experiência de quem viveu o burnout sem o reconhecer. "Não tinha consciência do cansaço, de como nos pode sobrecarregar e de como nos pode fazer mal."


Ainda para quem se revê na sua história, Ana Tica deixa uma dica que é também uma convicção de vida: construir em comunidade. "A minha história é muito feita em coletivo. Construir redes de apoio e juntar forças, permite-nos ter mais capacidades para realizar projetos e construir sonhos." Numa sociedade que ensina o individualismo, Ana propõe o oposto: "estar disponível para estar em comunhão com os outros. Dar, receber e construir juntos."

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