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A família, com as suas complexas interações e papéis, é o nosso primeiro laboratório de vida. É nela que aprendemos a amar, a enfrentar desafios e a construir a nossa identidade. No entanto, quando um dos alicerces - a figura paterna - se fragiliza ou se torna ausente, as fissuras que daí resultam não afetam apenas o presente. Elas ecoam por gerações, moldando as futuras relações dos filhos e das filhas. Este não é apenas um problema individual, mas um desafio social que exige a nossa atenção.
A psicologia do desenvolvimento e a teoria sistémica, através de pensadores como Murray Bowen e Salvador Minuchin, mostram que a dinâmica familiar disfuncional pode perpetuar-se (Kerr & Bowen, 1988; Minuchin, 1974). Quando o pai está fisicamente presente, mas emocionalmente ausente ou fragilizado, deixa um vazio que a mãe, muitas vezes, preenche. Consciente ou inconscientemente, ela assume um papel de dupla jornada: provedora e cuidadora solitária. Este ato, embora feito por amor, cria um modelo de sacrifício que os filhos, tanto homens como mulheres, absorvem profundamente.
Para os rapazes, o impacto é frequentemente um défice na maturidade emocional. Quando a mãe assume todas as responsabilidades, o filho pode crescer com um perigoso sentimento de direito (entitlement). Ele aprende que o seu papel é ser cuidado, e não cuidar. Este padrão de dependência, normalizado na infância, manifesta-se na vida adulta. O homem procura uma parceira que reproduza a figura da mãe: que seja provedora, cuidadora e que resolva os seus problemas. Torna-se emocionalmente passivo, delegando responsabilidades e, sem se aperceber, consome energia em vez de a partilhar. A sua maturidade não se mede pela capacidade de proteger e enfrentar desafios, mas pela sua dependência.
Aqueles que não conseguem reconhecer e mudar esse padrão a tempo, podem passar a vida a repetir a mesma dinâmica, a saltar de relação em relação e a culpar as parceiras anteriores pelos seus fracassos. Em casos mais graves, quando esta dependência se torna uma escolha consciente, o homem pode construir relações tóxicas baseadas no interesse, a manipular emocionalmente as parceiras para manter o seu conforto e poder.
As raparigas que crescem neste contexto também interiorizam uma lição distorcida. Elas observam a mãe como uma guerreira, mas também a veem sobrecarregada e exausta. O resultado é a construção de um modelo de género distorcido, onde amar e ser valorizada significa sacrificar-se. Elas aprendem que o seu valor reside no quanto conseguem dar e suportar (Bretherton, 1992).
Esta visão pode levar a um ciclo de repetição com consequências severas:
Escolha inconsciente de parceiros: Estudos sobre a teoria do apego sugerem que estas mulheres podem desenvolver um apego ansioso, sentindo a necessidade de se sacrificar para manter a relação. Elas, por vezes, escolhem inconscientemente parceiros que reproduzem a figura do pai ausente, pois essa dinâmica, ainda que dolorosa, é-lhes familiar.
Autoestima ligada ao desempenho: A sua autoimagem está ligada à capacidade de “aguentar tudo”. Elas têm dificuldade em receber ajuda ou em permitir-se ser cuidadas, pois isso lhes parece egoísmo ou fraqueza.
Consequências físicas e mentais: O stress contínuo e a sobrecarga emocional nestas relações podem deixar marcas profundas. Muitas mulheres que vivem esta dinâmica relatam problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão, além de sofrerem de exaustão crónica, que pode manifestar-se em problemas físicos severos. O esforço constante para “salvar” o outro, ou para preencher o vazio deixado pela falta de reciprocidade, consome a sua energia vital, deixando cicatrizes que podem durar a vida inteira.
Este não é um artigo para culpar pais, mães ou filhos. É um convite para a consciência, um apelo para quebremos estes ciclos.
Para o Homem: Se cresceu a ver a sua mãe como a única figura forte da casa, é vital que compreenda que o seu papel como parceiro é radicalmente diferente do papel de filho. O amor adulto não é sobre ser servido, mas sobre servir. O verdadeiro poder e honra de um homem reside na sua capacidade de ser um porto seguro, um companheiro que partilha fardos, e não alguém que os cria.
Para a Mulher: Se cresceu a ver a sua mãe a carregar tudo sozinha, a sua missão não é salvar ninguém, nem repetir a dor dela. O que viu não é o seu destino, é apenas um modelo que pode ser quebrado. O seu valor não está no quanto consegue aguentar, mas no quanto se permite ser cuidada e amada de forma recíproca. O amor saudável não é peso; é parceria.
Homens e mulheres, pais e mães, temos a responsabilidade de olhar para a nossa história e de construir um futuro onde a família seja um espaço de equilíbrio, onde a força e a vulnerabilidade sejam partilhadas. É só assim que poderemos verdadeiramente salvar o amor e construir uma sociedade mais resiliente.
Referências
Amato, P. R., & Keith, B. (1991). Parental Divorce and the Well-Being of Children: A Meta-Analysis. Psychological Bulletin, 110(1), 26–46.
Bowen, M., & Kerr, M. E. (1988). Family Evaluation. New York: W. W. Norton.
Bretherton, I. (1992). The origins of attachment theory: John Bowlby and Mary Ainsworth. Developmental Psychology, 28(5), 759–775.
Feeney, J. A., & Noller, P. (1990). Attachment style as a predictor of adult romantic relationships. Journal of Personality and Social Psychology, 58(2), 281–291.
Harper, C., & McLanahan, S. (2004). Father absence and youth incarceration. Journal of Research on Adolescence, 14(3), 369–397.
McLanahan, S., Tach, L., & Schneider, D. (2013). The Causal Effects of Father Absence. Annual Review of Sociology, 39, 399–427.
Minuchin, S. (1974). Families and Family Therapy. Cambridge, MA: Harvard University Press.
Webster, G. D., Graber, J. A., Gesselman, A. N., Crosier, B. S., & Schember, T. O. (2014). A Life History Theory of Father Absence and Menarche: A Meta-Analysis. Evolutionary Psychology, 12(2), 273–294.
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