Marcas por escrever
Contactos
Pesquisa
Pesquisar
Pesquisa

Partilhar
X
Bino Branco, membro fundador dos Ferro Gaita, morreu este sábado, 29 de agosto, aos 56 anos, nos Estados Unidos, avança fonte familiar. De acordo com a Inforpress, agência de notícia de Cabo Verde, o artista encontrava-se sob tratamento médico desde 2025, devido a doença oncológica grave.
Carlos Alberto Pereira Lopes, nome verdadeiro do músico, intérprete e instrumentista cabo-verdiano, dava corpo, junto de Eduíno e do seu ferrinho, à sonoridade dos Ferro Gaita, banda que fundou em 1996 e da qual foi, até ao fim, um dos principais vocalistas. Poucas formações cabo-verdianas terão atravessado tantos anos sem perder a formação original nem o fôlego, e os Ferro Gaita contam-se hoje entre as mais longevas e mais determinantes da história da música do arquipélago.
Em junho deste ano, o Governo de Cabo Verde tornou pública a gravidade da situação ao atribuir-lhe uma pensão de Estado no valor de 75 mil escudos mensais. Bino enfrentava, desde 2025, uma doença oncológica, cujo tratamento era realizado nos Estados Unidos. A Resolução n.º 89/2026 do Conselho de Ministros justificava a medida com a impossibilidade de o músico continuar a exercer a sua atividade profissional, reconhecendo, simultaneamente o contributo de uma vida dedicada à valorização e à divulgação da identidade cultural cabo-verdiana.
A sua voz e o seu ferrinho tornaram-se, ao longo dos anos, quase sinónimos do próprio instrumento, essa barra de ferro percutida ao ritmo de uma faca que, junto da gaita, o acordeão diatónico introduzido pelos colonizadores portugueses, sustenta a base do funaná. Raro terá sido o artista que emprestou o rosto a um instrumento com a naturalidade com que Bino emprestou o seu ao ferrinho.
Antes dos Ferro Gaita, passou por vários grupos musicais juvenis, entre os quais se destaca o Grupo Djassy, onde foi vocalista principal. Dissolvido o grupo em 1991, instalou-se na ilha Brava, onde se tornou figura assídua das noites cabo-verdianas, ainda longe do reconhecimento que viria a construir.
Foi na Cidade da Praia, em 1996, que se juntou a Estêvão Tavares, o Eduíno, e a Paulino Preto para fundar os Ferro Gaita. O propósito que animava o grupo nascente era recuperar a sonoridade tradicional do funaná, devolvendo ao ferrinho e à gaita o protagonismo que os teclados lhes vinham roubando. Fundu Baxu, o álbum de estreia, editado em 1997, tornou-se um sucesso em Cabo Verde e na diáspora, e abriu caminho a uma verdadeira revitalização do funaná tradicional.
Ao longo de mais de três décadas, Bino ajudou a erguer os Ferro Gaita a uma das bandas mais influentes da música cabo-verdiana, com digressões pela Europa, por África e pela América que levaram o funaná a públicos que dele pouco ou nada conheciam. Gravou sete álbuns originais com o grupo, colaborou com diversos artistas cabo-verdianos, editou um trabalho a solo e dedicou parte do seu percurso à promoção dos ritmos tradicionais de Santiago, o batuku e a tabanka incluídos.
Em entrevista à BANTUMEN, em junho de 2025, horas antes de um concerto dos Ferro Gaita no Festival MED, em Loulé, falava então da força política do funaná no tempo em que era proibido por ser considerado subversivo, dando voz aos anseios das camadas mais pobres da população: "Queríamos sair da escravatura, então tínhamos que pegar no funaná." A independência, dizia, tinha passado também por ali, pelas canções e pelas suas mensagens codificadas.
Falava ainda da amizade entre os elementos do grupo, coesão que extravasava os palcos e se estendia às próprias famílias: era padrinho do filho de Eduíno, e Eduíno padrinho do filho dele. Definia o papel dos Ferro Gaita enquanto instituição da música cabo-verdiana como "um ato de responsabilidade, de unidade, de eficácia". Perguntado sobre o que ainda lhe faltava, respondia entre risos que ainda tinha muitas coisas por fazer, porque ainda se sentia novo. Despedia-se do público, nessa noite, em crioulo: "Nhos podi bem, hoji nsta bom pa nhos."
Em 2007, os Ferro Gaita receberam a Medalha Nacional de Mérito Cultural. Em 2024, o grupo assinou com o Ministério da Cultura um protocolo de apoio à preservação do funaná enquanto património imaterial nacional. A Bino Branco, que em vida recusou sempre o título de embaixador do funaná, fica reservado esse lugar, incontestável, na memória do género que ajudou a manter vivo.
Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.
Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.
Recomendações
Marcas por escrever
Contactos