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Chegar a si própria nem sempre é um ponto de partida. Para Carla Gonçalves, foi um processo feito de travessias, perguntas sem resposta e um vazio que a ciência e os alcances pessoais, por si só, não conseguiam preencher.
Nascida em Cabo Verde e a viver em Portugal desde os 16 anos, Carla carrega consigo as memórias e o amor pelas raízes, assumindo que vibra o seu país mesmo estando longe e que o leva para tudo o que faz. Terapeuta holística e mãe, foi a curiosidade que definiu o percurso que a trouxe até aqui.
Filha de uma linhagem de mulheres cabo-verdianas "fortes e trabalhadoras", cresceu com a ideia de que era preciso "ser alguém" na vida, um conceito comum à comunidade e que muitas vezes associa valor pessoal ao diploma e ao sucesso profissional.
“Eu sabia como a parte biológica do corpo funcionava, mas não sabia como me curar”
Carla Gonçalves
Foi nesse caminho que chegou à licenciatura em Bioquímica e ao mestrado em Segurança Alimentar, escolhas que lhe deram ferramentas para compreender o corpo humano a nível biológico e na sua dimensão mais concreta. Mas, à parte da formação académica, a terapeuta sentia que faltava algo: "Eu sabia como a parte biológica do corpo funcionava, mas não sabia como me curar."
Carla já tinha alcançado tudo o que prometia felicidade - a família, o diploma e o trabalho - mas o vazio mantinha-se. Foi esse vazio que a empurrou para outra procura. Sem referências na sua comunidade de pessoas ligadas ao espiritual, fez o percurso sozinha: pesquisou, estudou, experimentou. E, nesse processo, encontrou o universo holístico.
"Queria agregar a parte espiritual àquilo que já conhecia. Hoje consigo olhar para o ser humano nas duas dimensões e como uma divindade." A terapia holística, explica, parte exatamente dessa visão integrada: "É reconhecer o ser humano como um todo, como uma divindade na sua totalidade. Quando se trabalha a saúde mental, devemos trabalhar o corpo inteiro. É uma terapia integrativa. Trabalhar o amor próprio, o autoconhecimento e aprender a olhar para cada detalhe de nós."
Um estudo publicado na revista Psychology, Community & Health, identificou que perto de 76% de uma amostra da Grande Lisboa já tinha recorrido pelo menos uma vez a alguma forma de medicina alternativa ou complementar, a maioria mantendo médico de família. As maiores utilizadoras são mulheres entre os 30 e os 69 anos, movidas em grande parte pelo esgotamento, pela desconexão ou pelos desequilíbrios que a medicina convencional trata de forma pontual mas não resolve. Em consulta, é exatamente aí que Carla começa."É tirar as máscaras. É sermos fiéis a nós próprios, mesmo nas partes mais difíceis, amar os nossos defeitos, as nossas histórias e transformar isso em força e amor."
Para a terapeuta, grande parte das pessoas vive hoje em desconexão. Não por escolha consciente, mas por adaptação e necessidade. "Vivemos muito em função do que os outros esperam de nós. Entramos em piloto automático e deixamos de nos ouvir." Esse afastamento constrói-se nos detalhes. O caminho de volta também e pode começar com afirmações diárias. Aprender a dizer "não". Criar pequenos momentos de presença, como estar em contacto com a natureza, permitir-se descansar sem culpa. "São passos simples, mas consistentes. É assim que começa a mudança."
“Quando se trabalha a saúde mental, devemos trabalhar o corpo inteiro. É uma terapia integrativa”
Carla Gonçalves
Dessa desconexão nasce a mentoria Feminino Cíclico, uma das suas criações mais pessoais desde que iniciou o seu percurso na terapia holística, um espaço pensado para ajudar mulheres a reconectarem-se com a sua própria natureza e com a sua energia feminina. "Perdemos a ligação à nossa energia feminina. Ao nosso ciclo. E isso afasta-nos de quem somos."
Num mundo que valoriza a constância e a produtividade linear, Carla propõe olhar para a ciclicidade da mulher como uma bússola, respeitando o útero e a sua capacidade de criação não só física, mas também emocional e energética. "Não somos seres constantes e está tudo bem com isso."
A TPM ganha um novo significado: tempo para mim. Mais do que um jogo de palavras, trata-se de ensinar mulheres a ouvirem o seu corpo, respeitarem os seus ritmos e utilizarem a sua energia de forma consciente. "Durante a menstruação, por exemplo, é um momento de recolhimento, mas também de criação. Podemos canalizar essa energia para dentro, para nos ouvirmos e cuidarmos de nós."
Quando questionada sobre os maiores bloqueios femininos atuais, não esconde que a resposta está na "hipermasculinização da mulher", uma realidade marcada por sobrecarga emocional, exaustão e uma necessidade constante de fazer, muitas vezes, em detrimento do sentir. Dentro da comunidade africana, este peso ganha contornos ainda mais específicos, muito ligados à monoparentalidade e à normalização da ausência paterna. "Muitas estão exaustas. Mas é importante que se lembrem que são mulheres antes de tudo. Merecem cuidar de si. Existe muito a ideia de que a mulher não pode parar. Tem sempre de estar a fazer alguma coisa, senão é vista como preguiçosa."
"Há muitas mulheres em depressão silenciosa. O corpo fala e quando não ouvimos, ele grita", afirma ao ressalvar que cuidar do corpo e da mente, entendido muitas vezes como luxo, é uma necessidade e também uma responsabilidade. "Se não nos cuidarmos, continuamos ciclos. E acabamos por ferir outros a partir das nossas próprias feridas. É aprender a dançar com aquilo que estamos a sentir, com equilíbrio."
A própria admite ter vivido isso no início do seu percurso. Em jeito de conclusão, partilha que se recorda perfeitamente do impacto de entrar numa sala com mais de 100 pessoas e perceber que a maioria partilhava as mesmas dores que ela. "Quando partilhamos, percebemos que não estamos sozinhas. E isso muda tudo."
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