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Carla Marina Santos é fundadora da Capacitare e dirigente associativa. Ao longo de mais de 20 anos, tem dedicado a sua vida à integração de migrantes, à formação de profissionais e ao desenvolvimento social em comunidades da CPLP e a sua história, como a própria diz, é a história de quem escolhe ser, todos os dias.
Quando Carla Marina Santos tinha 16 anos, começou a trabalhar numa estrada comunitária num bairro de construções clandestinas. Àquela altura, nenhuma sala de aula conseguiria ensinar-lhe o que a prática diária exigia: treinar músculos como a coragem, lidar com o medo sem se deixar paralisar, comunicar de forma assertiva e, sobretudo, exercer liderança pelo exemplo. "De outra forma nunca terás condições de inspirar pessoas para estarem contigo e escolherem abraçar causas muito maiores do que as suas questões pessoais", reflete.
Hoje, com uma formação em Antropologia e um percurso que mescla academia, ativismo e empreendedorismo, Marina é fundadora da Capacitare, uma empresa que chegou aos nove anos de existência a transfomar a forma como se pensa o atendimento ao público, a integração de migrantes e o desenvolvimento social em Portugal. Com parcerias com grupos como a Sonae e a NOS, a Capacitare faz uma leitura consistentemente crítica do sistema que diz querer mudar.
A trajetória de Marina atravessou tensões profundas. Uma antropóloga comprometida com as comunidades enfrenta frequentemente contradições entre a teoria académica e a materialização prática das políticas sociais. "Sim, claro que houve conflitos", admite. Mas teve clareza sobre quem queria ser. "Ter muito claro quem queres ser ajuda no teu posicionamento e na forma de comunicar", explicou em entrevista à BANTUMEN.
Marina escolheu não estar "de bem com Deus e com o Diabo" e assume publicamente cada chapéu que veste: empreendedora, ativista e designer de impacto. E não poderia ignorar as suas raízes. "Não posso ignorar onde tudo começou… o meu bairro… o associativismo e defendo acerrimamente este papel de dirigente associativa."
Entre todas as funções que exerceu - como voluntária, técnica social, mediadora e coordenadora - nenhuma se destaca isoladamente. "Todas! Cada uma contribuiu para uma parte de mim e o conjunto ajudou a ser a mulher e profissional que sou!" Mas existe um episódio que permanece vivo na sua memória como símbolo de liderança transformadora.
Num dia de limpeza comunitária do bairro, Marina trocou o seu papel de "Drª Carla" - de quem fazia atendimentos especializados em migrações - por luvas e roupa desportiva. As mulheres da comunidade questionaram-na: " A doutora Carla não faz isso. O que está a fazer?" Ela respondeu: "A Limpar, pois hoje é dia de ação comunitária!" De repente, imensas mulheres compareceram. "Foi um dos vários momentos que se revelaram impactantes na comunidade e foi no papel de voluntária naquele dia, mas nos restantes dias de coordenadora que não manda fazer, mas envolve-se no que tem de ser feito", afirma.
Como antropóloga, Marina compreendeu cedo que a observação participante é uma forma de estar. "Por estar muito envolvida emocionalmente nos processos e nos projetos, desde cedo compreendi que a academia é importante estar contigo para te ajudar a sistematizar, a contribuir para análise crítica e trazer dados."
A tensão entre quem estuda as comunidades e quem as vive por dentro precisa ser transcendida. "A academia é importante para te ajudar a refletir, a colocares-te em causa na tua prática. Pois, esta história de 'Olhometros ou Achometros' também deve acabar! Precisamos de elevar mais o debate."
Marina questiona a legitimidade de forma provocadora: "Quem estuda as comunidades precisa sempre de nós para entrar nas comunidades; Quem pensa em projetos para as comunidades precisa de nós para fazer a coisa acontecer, por isso quem tem legitimidade? És tu ou eles? Ou podemos ser nós? Eu escolho Nós!"
Durante anos de trabalho nas associações, nas comunidades e em articulação com os serviços públicos, Marina compreendeu várias realidades incómodas: porque é que as comunidades da CPLP continuam a ter os mesmos problemas estruturais; como se pode robustecer os dirigentes associativos para que deixem de ser marionetas ao serviço de financiadores; como se diversificam as fontes de sustentabilidade das organizações sociais; e como se alivia o estrangulamento dos serviços públicos. Começou pelos processos documentais de migrantes - território concreto, com dores mensuráveis e margens de erro visíveis - e foi migrando, ao longo de nove anos, para a formação e capacitação. Usa um CRM para mapear os clientes e antecipar necessidades, o que num contexto em que a burocracia pode durar anos e acumular ansiedade tem, nas suas palavras, um efeito direto no dia-a-dia das pessoas. "Quando compreendi as dores dos envolvidos - pessoas, organizações e administração pública - escolhi criar algumas soluções para atuar na causa-raiz, pois caso contrário estaremos a fazer cuidados paliativos. E não me fazia sentido criar uma associação, mas sim uma empresa que viesse trazer uma nova proposta de valor." Assim nasceu a Capacitare, há 9 anos.

Carla Santos na comemoração do 9 aniversário da Capacitare | DR
Olhando para o percurso da empresa, Marina identifica avanços significativos. Mas também vê a persistência de um problema: "o que ainda existe hoje é um Mindset de estarmos focados em produtos e serviços; De fazermos coisas por modas e principalmente por cada pessoa, associação e organização da administração pública fazer do seu jeito sem coerência."
Existe uma esquizofrenia institucional em Portugal. "Os migrantes são reclusos em regime aberto, estão presos, amarrados à burocracia sem qualquer vislumbre de quando a saga irá terminar. Isto do ponto de vista emocional é um desgaste e provoca Traumas."
Os profissionais de atendimento ao público estão "desgastados, exaustos sem qualquer tipo de investimento formativo que os ajude a lidar com uma profissão de desgaste".
O que falta, para Marina, é coragem. "Precisamos de menos políticos e mais pessoas que ajudam alinhar processos e fazem recordar que o Código de Procedimento Administrativo veio para ser aplicado." Precisamos alinhar quem queremos ser enquanto instituições, como queremos que as pessoas se comportem, como robustecemos as chefias intermédias.
Durante estes 9 anos, a Capacitare tem implementado um "Modelo de Atendimento 360º - Pessoas, Emoções e Resultados". Os resultados têm sido testados: trabalhos com a Sonae no "Movimento Empatia" em todas as lojas Continente e, mais recentemente, com a NOS, apoiando o aumento dos níveis de NPS - Net Promoter Score - dos profissionais.
A Capacitare iniciou com serviços de acompanhamento documental para testar um novo modelo de atendimento. "Ter um negócio é estar focado no Client Centric, pelo que ele é o nosso melhor consultor." Após 9 anos, a proposta está "bem oleada e pronta para ser replicada", razão pela qual faz agora sentido focar-se cada vez mais na Formação e Capacitação.
Portugal é frequentemente citado como um dos melhores países da Europa em políticas de integração. Marina discorda de forma fundamentada: "Portugal tem tido bons instrumentos legais, mas se no dia-a-dia não são implementados de que valem, para que servem? Apenas, para estarmos sempre em incumprimento."
O Código de Procedimento Administrativo estabelece o princípio da boa administração - que deve ser célere, económica e eficiente, evitando a desburocratização. "Onde estamos neste ponto?" pergunta Marina.
A transição digital também não resolveu o problema. "Não há transição digital, apenas viemos digitalizar o papel e introduzir plataformas digitais que vieram criar um buraco maior, onde temos outro tipo de analfabetos que irão precisar sempre dos intermediários."
Existe espaço para todos porque a necessidade é grande e as respostas são nulas: "associações que atendem em massa e por isso respostas personalizadas não conseguem e escritórios de advogados que não são especialistas em Direito Estrangeiros que também dão umas perninhas". O que importa é saber "quem está comprometido em prestar um serviço de qualidade e que não se foca no dinheiro".
Para a Capacitare, qualidade significa: ser proativo na resposta, fazer boa análise inicial para evitar surpresas financeiras, ser célere naquilo que depende de si, celebrar as conquistas, gerir expectativas e assumir o que não fazem.
“Portugal não estimula as empresas”
Carla Marina Santos
Muitas empresas têm uma relação episódica com o social e Marina abomina esse tipo de comportamento. “Pois senti muito isso toda a minha vida enquanto dirigente". O que falta é que os dirigentes associativos saibam analisar o seu clima e decisões. "Numa relação tem de ser atrativo para todos, impactante e deve ser muito mais do que a fotografia ou uma ação esporádica. Está a faltar intenção duradora e menos imediata."
A Capacitare apoia de forma afincada um projeto social: a Associação Capacity for Social Innovation, que emergiu durante a pandemia. "Pois, não executamos atividades, mas sim geramos impacto em todos que escolhem usar as soluções disponíveis."
Já encontrou parceiros consistentes, embora tenha aprendido com erros de avaliação. "Temos vindo a validar uns que achávamos eles faziam, mas afinal tinham bons sites e não fazem aquilo que dizem; Outros fazem, mas não comunicam tanto."
"Portugal não estimula as empresas. Não é de todo atrativo ter uma empresa aberta em Portugal", afirma Marina de forma categórica. O problema agrava-se quando não se vem de um contexto de empreendedorismo familiar ou de grandes networkings que facilitam processos.
Mas Marina transforma o desafio em estímulo. "Esta realidade pode ser estimulante e para mim foi pois venho do contexto desportivo e de um ambiente familiar em que estar em guerra é exigido que te prepares fisicamente e emocionalmente."
Como mulher afrodescendente proveniente de um contexto migratório, enfrenta um tipo de realidade que a coloca “num lugar de partida diferente". Não gosta, mas diz lidar há 45 anos com isso. “Mas convicta que eu estou muito comprometida, sou consistente, preparo-me, mas ainda assim cometo muitos erros e escolhi criar opções sérias pautadas por valores que promovam a Descoberta e Responsabilidade Individual."
Para os próximos anos, a Capacitare anuncia várias frentes. Uma melhor comunicação dirigida para suprimir as dores das comunidades. Análises de clima das organizações para ajudar a garantirem a sua sustentabilidade. Capacitação de profissionais de atendimento ao público. Uma nova abordagem inspirada no seu modelo de atendimento 360º onde aplicam a metodologia dos 3 R's: Revisitar, Ressignificar e Redirecionar. "Firmar novas parcerias que nos ajudem a estar onde queremos estar, pelo que procuramos um investidor tecnológico para fazer este caminho connosco."
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Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.
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