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A arte não é linear. É feita de amor, encontros e raízes. Três forças que se entrelaçam como bússolas de criação e identidade na vida de Chuck Mbevo. O amor pelo detalhe e pela estética conduziu-o naturalmente à moda, os encontros com culturas, pessoas e geografias ampliaram-lhe a visão do mundo, e as raízes - angolanas e congolesas - ofereceram-lhe a solidez necessária para dialogar com diferentes universos criativos.
Criativo angolano-congolês, Chuck Mbevo tem-se destacado no universo da moda e da produção visual, construindo uma carreira marcada pela versatilidade e pela capacidade de traduzir a identidade africana em linguagem contemporânea. O percurso começou como assistente da stylist angolana Raina Cardoso, experiência que lhe abriu portas para colaborações com nomes de referência da música e da cultura lusófona.
Cada peça e cada projeto que assina carregam essa mistura de afetos e vivências, transformando-se numa narrativa visual que celebra tanto a resiliência como a essência africana. Hoje, entre Lisboa e outras geografias, Chuck Mbevo afirma-se como uma das vozes criativas mais promissoras da diáspora, fiel ao compromisso de contar histórias através da estética e do estilo.
“Tentei, mas ser designer de roupa não é fácil”
Chuck Mbevo
Em 2017, estreou-se na Moda Luanda com a coleção Lifestyle Hip Hop, conquistando destaque na cena fashion angolana. Desde então, expandiu a atuação como stylist e produtor visual, cruzando moda, música e artes visuais. Em 2024, assinou a produção visual do videoclipe de Cef Tanzy e vestiu Landrick, reforçando a sua presença multidisciplinar.
Atualmente radicado em Portugal, Mbevo é fundador da marca de chapéus Akudo Hats, pensada em 2022, lançada em 2024 e a ganhar notoriedade em 2025. Inspirada na cultura Igbo da Nigéria, a marca carrega o conceito de “riqueza pacífica”, refletindo a visão criativa de Chuck e o compromisso de valorizar a essência africana no mercado global, num diálogo entre tradição, identidade e estilo contemporâneo.
Com passagens por Angola, Congo, Namíbia, África do Sul e Portugal, Chuck define-se como um “cocktail africano”, levando para a sua obra a multiplicidade cultural das suas vivências e projetando-se como uma voz emergente da moda afro-diaspórica. “Eu sou um jovem angolano, um jovem sonhador, que também é pai, é filho. É alguém que quer chegar a um patamar para inspirar todo aquele jovem que ainda está no mundo, especialmente em África, a perceber que nada é impossível. E se que sonhar, com um plano de ação e trabalho, consegue sim atingir muita coisa na vida. Esse é o Chuck Mbevo. Eu acho que sou alguém que quer ensinar aos jovens que é possível atingir o seu sonho”, disse-nos logo no início da conversa.
Como artista, soube desde cedo como misturar as raízes angolanas e congolesas para criar arte. A convivência com diferentes realidades africanas ampliou o seu olhar e deu-lhe ferramentas para reinterpretar tradições em diálogo com a contemporaneidade. Hoje, na diáspora, expressa essa herança através de uma estética própria, resultado da soma de vivências e aprendizagens que transporta consigo.
O estilo, inicialmente um hobby, tornou-se profissão. Os elogios à forma como combinava cores e peças despertaram a consciência de que o talento podia ser mais do que aptidão pessoal. A valorização vinda de fora transformou-se em motivação para investir numa carreira que alia intuição estética e visão criativa. Atualmente, vive inteiramente desse trabalho, afirmando-se como um nome em ascensão no mundo da moda. “Quando comecei, foi como assistente de uma stylist muito conhecida em Angola, a Raina Cardoso. Foi através dela que ganhei a experiência que tenho e as pessoas começaram a notar o meu trabalho. Depois o resto é história. Começaram a chegar a mim porque já tinham visto trabalhos anteriores e queriam colaborar. Em 2017, em Angola, lancei a minha marca de roupa a Lifestyle Hip Hop, na Moda Luanda, com a Karina Barbosa. Fiz uma coleção de camisas que logo depois foi usada pelos Zona 5 num videoclipe. Tentei, mas ser designer de roupa não é fácil. Fiz só aquela coleção e depois parei. Agora estou com acessórios de chapéus, que acho muito mais simples do que roupas”, explicou.
Chuck Mbevo. Fotografia de Eyeconic
Chuck Mbevo e Wilds Gomes. Fotografia de Eyeconic
Em 2022, iniciou uma experiência com chapéus através da coleção One of a Kind, em parceria com a marca Moi Hats. Dessa colaboração nasceram 22 peças exclusivas enviadas para Angola, um primeiro passo que se consolidou em 2024 com a criação da sua própria marca, a Akudo Hats. O nome inspira-se na cultura Igbo da Nigéria: “Aku” significa riqueza e “Udu” significa paz, formando a expressão “riqueza pacífica”.
A Akudo traduz não só uma estética distinta, mas também um conceito identitário que liga moda e simbolismo cultural. Para Chuck, a escolha deste caminho resulta da simplicidade e fluidez do processo de desenvolvimento de acessórios, em contraste com a complexidade da produção de roupa. “Quando comecei a criar chapéus, na verdade, não encontrei tanta dificuldade assim, porque eram peças únicas, com detalhes artesanais. Talvez a parte mais difícil tenha sido a execução técnica, o lado mais artesanal, mas em termos criativos foi bastante bem-sucedido. Quero que a Akudo conte uma história, a riqueza pacífica, a essência da marca é a resiliência. Como fundador e designer, estou num espaço que não era o meu. O meu mercado sempre foi África. Aqui [em Portugal] tento encaixar-me e a única forma é trazer algo em que me sinto à vontade. Isso representa resiliência: mesmo não fazendo o que fazia em África, apresento algo novo para que saibam que estou cá a criar”.
Acrescentou ainda: “Em África já fiz o meu nome e até já enviei uma coleção de chapéus para Angola. Agora quero transmitir a essência africana aqui. Hoje em dia nós, africanos, queremos narrar a nossa própria linguagem cultural, não deixar que sejam outros a fazê-lo por nós. Quero fazer parte desse movimento na Europa. Mas por outro lado ainda sinto que há barreiras para criadores e artistas negros. Não podemos ficar à espera que as oportunidades nos cheguem, temos que criá-las. É o que estou a fazer com a Akudo. Não é fácil penetrar neste mercado, mas acredito que com trabalho as pessoas vão começar a notar”.
O processo criativo da Akudo nasce da observação do quotidiano e das pessoas que rodeiam Chuck Mbevo. A primeira coleção foi inspirada nas aldeias de Portugal, como forma de reconhecer não apenas a essência africana que sustenta o projeto, mas também o território onde a marca nasceu e se consolidou. Foram escolhidas 12 aldeias, cujos nomes foram atribuídos aos chapéus, criando uma ligação entre identidade local e expressão global.
Embora a próxima coleção ainda não esteja definida, o criador sublinha que a inspiração pode surgir a qualquer momento, seja numa conversa, numa experiência ou numa vivência diária. Essa abertura ao imprevisível traduz-se na autenticidade da Akudo, que se assume como uma marca em constante movimento, capaz de absorver contextos distintos e transformá-los em peças de forte valor simbólico e estético.
“Daqui a 5 anos, sonho é ter a primeira flagship store - loja principal ou representativa de uma marca - em Ibiza. Por ser uma cidade de muito estilo, onde acho que a marca se encaixa. Além das vendas online, queremos proporcionar uma experiência única. É esse o objetivo a médio prazo”, concluiu Chuck.
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