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Para Daniela Reis, produtora e planificadora de eventos, no universo da criação de experiências a decoração deixa de ser apenas um detalhe estético para se tornar linguagem, identidade e emoção.
Fundadora da Decoraçon, empresa criada em 2019, Daniela construiu um percurso que atravessa criatividade, sensibilidade humana e produção cultural. O seu trabalho passa por transformar espaços e momentos em experiências com significado, onde cada detalhe é pensado para refletir as pessoas e as histórias que estão a ser celebradas.
Ao longo dos últimos anos, a sua atuação tem-se destacado no universo da decoração e organização de eventos, e também na produção de iniciativas culturais de grande visibilidade, entre elas, as últimas quatro edições da PowerList BANTUMEN 100, um dos eventos que celebra figuras negras influentes no espaço lusófono.
Entre bastidores, decisões rápidas e equipas em movimento, o trabalho de produção exige visão, resistência e capacidade de liderança. Mas para Daniela, tudo começa sempre no mesmo lugar: nas pessoas.
Neste Dia Internacional da Mulher, a BANTUMEN destaca o percurso de uma mulher que tem vindo a construir o seu espaço na indústria criativa, e para quem "liderar não tem a ver com superioridade. Tem a ver com posicionamento. É saber ocupar o nosso lugar e assumir quem somos para concretizar aquilo em que acreditamos.”

DR

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O que mais moldou quem sou hoje foram as pessoas com quem me fui cruzando ao longo do meu percurso, tanto em Portugal como no Luxemburgo. Tive experiências muito bonitas e outras mais desafiantes, e todas elas ensinaram-me algo importante sobre liderança.
Durante muito tempo colocava sempre o outro em primeiro lugar e não existia muito equilíbrio. Isso acabou por, durante algum tempo, bloquear a minha criatividade. Hoje percebo que liderar não tem a ver com superioridade, mas sim com posicionamento. É saber ocupar o nosso lugar e assumir quem somos para concretizar aquilo em que acreditamos.
A minha criatividade nasce muito desse olhar livre sobre o mundo, um olhar quase infantil, atento aos pequenos detalhes que estão sempre a revelar algo. Tento preservar esse olhar todos os dias, feito de curiosidade, amor e sensibilidade, porque é daí que nasce tudo aquilo que crio.
A área social e educativa nunca saiu realmente de mim. Mesmo hoje, de certa forma, continuo muito ligada a esse lado humano. Trabalhar com crianças ensinou-me algo muito valioso: a autenticidade. As crianças são verdadeiras na forma como sentem, reagem e se relacionam com o mundo. Não complicam o que é simples e vivem muito no presente.
Essa forma de estar ensinou-me a olhar para as pessoas com mais sensibilidade e atenção. Nos eventos que produzo, procuro sempre trazer essa verdade, que cada momento seja vivido de forma genuína. Para mim não se trata apenas de prestar um serviço ou de criar algo esteticamente bonito. Trata-se de tocar o coração das pessoas. Tento sempre que cada projeto reflita a identidade de quem me procura e que cada pessoa sinta que aquele momento foi pensado verdadeiramente para ela.
Na verdade, quando comecei não tinha ainda uma grande maturidade empresarial. Não tinha uma estratégia muito definida para resolver um problema específico.
Hoje, percebo melhor o propósito. Muitas mulheres procuram criar momentos especiais de partilha com as pessoas que amam, quis dar importância para transformar essa visão em realidade com sensibilidade e significado. A Decoraçon nasce muito desse lugar: ajudar a criar momentos que não são apenas eventos, mas memórias e experiências com valor emocional.
Percebi isso quando comecei a observar as reações das pessoas e também aquilo que eu própria sentia. Quando vi que aquilo que criava realmente tocava as pessoas e fazia sentido para quem vivia aqueles momentos.
A estética é muito importante para mim. É muitas vezes a primeira coisa que observo quando chego a um espaço. Mas nunca foi apenas sobre decoração. É sobre o amor que coloco em cada detalhe e sobre a energia que quero transmitir às pessoas que passam pelo meu trabalho.
Com o tempo percebi que aquilo que faço também ajuda as pessoas a contar a sua própria história através dos momentos que vivem. E foi aí que entendi que o meu trabalho vai muito além da estética: ele também carrega identidade, memória e significado.
Muita gente não imagina o nível de exigência que existe nos bastidores de um evento desta dimensão. Existe um trabalho muito grande que acontece longe do palco: planeamento constante, tomada de decisões rápidas, mudanças de última hora e a necessidade de encontrar soluções imediatas para garantir que tudo acontece com a qualidade esperada.
Na última edição houve momentos particularmente intensos, em que a pressão emocional também se fez sentir. Produzir um evento como este exige uma grande capacidade de gestão, adaptação e resistência. Mas é também aí que está a beleza do processo. Mesmo com equipas reduzidas ou recursos limitados, quando existe compromisso, criatividade e sentido de responsabilidade, é possível concretizar algo verdadeiramente impactante.
Aprendi ao longo do percurso que a transparência é fundamental. Procuro ser o mais clara possível com a equipa sobre aquilo que já está definido e sobre aquilo que ainda está em construção.
Num evento com este impacto nem sempre é possível controlar todas as expetativas, sobretudo quando envolve uma comunidade tão diversa. Cada pessoa tem a sua sensibilidade, a sua forma de interpretar as situações e também as suas próprias expectativas.
Por isso, grande parte do trabalho passa também pela gestão das emoções e do comportamento humano. É importante saber ouvir, perceber os diferentes ritmos das pessoas e criar um ambiente onde todos se sintam respeitados e parte do processo. No final, procuro sempre focar-me naquilo que está ao meu alcance: criar as melhores condições para que o evento aconteça com qualidade, organização e respeito por todos os envolvidos.
Sem hesitar: são as mudanças de planos à última da hora. As pessoas chegam no dia do evento, veem tudo lindo e alinhado, mas não fazem ideia do nível de sacrifício que acontece nos bastidores para chegarmos ali. A nossa equipa é incrivelmente reduzida. Para terem uma noção, quem está a erguer a PowerList são exatamente as mesmas pessoas que garantem o funcionamento diário da BANTUMEN. São jornalistas e produtores de conteúdo que, de repente, acumulam a responsabilidade colossal de fechar parcerias, tratar do alinhamento editorial e produzir um dos eventos mais importantes do género em Portugal. São muitas responsabilidades em cima de muito poucas pessoas.
O maior teste à nossa resiliência surge quase sempre com os patrocínios. É frustrante porque, embora muitas marcas reconheçam a importância e o peso social do que fazemos, apenas algumas conseguem olhar para este projeto específico realmente como uma oportunidade estratégica de negócio e visibilidade nacional e internacional. Olham para nós apenas como uma 'causa'. Isto faz com que algumas marcas assumam um compromisso e que, a pouquíssimo tempo do evento, revelam a necessidade de cortar o budget ou de alterar radicalmente os detalhes da parceria. Quando isso acontece, o impacto é imediato.
O Eddie Pipocas e a Vanessa Sanches têm a missão duríssima de gerir toda essa frustração comercial e de readaptar a estratégia num contrarrelógio e esse efeito dominó cai diretamente no meu esquema de trabalho. De um dia para o outro, sou obrigada a repensar a produção, a logística, a estética do espaço e a fazer milagres com os recursos que sobram, sem deixar que a qualidade caia.
Não vou mentir, isto cria uma tensão gigantesca entre nós no momento. A pressão vai aos limites, há estresse e debates muito intensos até conseguirmos perceber como dar a volta à situação. Mas é aí que a nossa união fala mais alto. Sentamo-nos e discutimos até chegarmos a um consenso sobre a melhor forma de agir. No fim do dia, o que nos move é um objetivo único e inabalável: entregar um evento de excelência absoluta, com a dignidade, a elegância e o impacto que a nossa comunidade merece.
É precisamente nesses momentos que o meu papel como responsável pela produção ganha ainda mais peso. Cabe-me transformar todas essas mudanças em soluções concretas no terreno. Tenho de reorganizar a logística, repensar o espaço, ajustar fornecedores, rever timings e garantir que tudo continua a fazer sentido visualmente e operacionalmente. Muitas vezes são decisões tomadas em poucas horas, sempre com o mesmo objetivo: que, quando as pessoas entram na sala, sintam que tudo foi pensado ao detalhe e que o evento mantém a qualidade e a elegância que a PowerList representa.
Durante muito tempo eu nem pensava muito nisso. Quando algo não acontecia, simplesmente assumia que talvez não fosse para mim ou que ainda precisava de aprender mais. Com o tempo e com a experiência percebi que, em alguns contextos, é importante posicionarmo-nos de forma clara. Sobretudo quando estamos a trabalhar com instituições ou empresas maiores. Não posso dizer que sinta isso constantemente, mas hoje tenho mais consciência dessas dinâmicas e sei ocupar o meu espaço com mais segurança.
Para mim é um enorme orgulho. É também uma forma de mostrar elegância, excelência e competência e de desmontar algumas ideias limitadas que ainda existem sobre o que pessoas negras podem ou não fazer. A PowerList mostra que podemos celebrar as nossas raízes com orgulho e, ao mesmo tempo, criar eventos com o mesmo nível - ou até superior - a qualquer outro grande evento europeu.

DR
Hoje sou muito mais consciente nas escolhas que faço e nas parcerias que construo mas há parceiros que, desde a primeira colaboração, entendemos que trilhamos um caminho comum, como por exemplo a Mobichic, a Sonn.Era, e a designer e consultora de marketing Miriam Monteiro. Com o tempo percebi que nem todo o trabalho ou oportunidade faz sentido aceitar. Para mim é essencial que exista alinhamento de valores, respeito mútuo e uma visão comum sobre aquilo que queremos criar. Mais do que uma relação puramente comercial, procuro construir relações de confiança com os meus clientes e parceiros. Quando esse alinhamento existe, o trabalho torna-se muito mais do que um serviço: transforma-se numa verdadeira parceria e num processo de criação partilhado.
É um desafio constante. Nem sempre quem está de fora consegue perceber o verdadeiro valor do trabalho criativo. Muitas vezes vê-se apenas o resultado final, mas raramente todo o processo, o tempo, a reflexão e a dedicação que existem por trás de cada projeto.
Com o tempo fui aprendendo que é importante encontrar um equilíbrio entre a liberdade criativa e a sustentabilidade do negócio. Isso passa muito por saber estruturar melhor os projetos, valorizar o processo criativo e também educar os clientes sobre o que realmente envolve este tipo de trabalho. Para mim é essencial que a criatividade continue a ser o centro de tudo o que faço, mas também que o negócio tenha bases sólidas para crescer de forma consciente e sustentável.
Talvez o maior erro tenha sido não ter, no início, uma educação financeira sólida. Comecei muito movida pela paixão e pela vontade de criar, mas com o tempo percebi que o lado financeiro é essencial para que um projeto possa crescer de forma saudável. Também percebi a importância de valorizar todo o processo que existe por trás do trabalho criativo.
Um projeto com impacto real transforma algo na vida das pessoas. Não é apenas sobre visibilidade ou comunicação. É sobre aquilo que fica depois que o evento termina ou que a campanha acaba. Quando um projeto consegue tocar pessoas, criar oportunidades ou mudar perspectivas, então sabemos que existe impacto verdadeiro.
É um custo pesado, sim. Quando temos um projeto que sentimos quase como parte de nós, existe uma responsabilidade emocional muito grande. Há momentos em que sentimos vontade de parar ou de dar atenção a outras áreas da vida. Mas nem sempre o tempo do projeto coincide com o nosso tempo pessoal. E isso pode ser exigente. O que, graças a Deus, não me tira a paz, pois tento viver muito no presente e não me culpo pelos passos que já dei.
Sem dúvida, as mulheres da minha família. A minha avó sempre teve uma mentalidade empreendedora na área imobiliária, e a minha mãe é uma mulher muito batalhadora que construiu o seu caminho e hoje me inspira muito. Para além disso, ao longo da vida fui encontrando muitas mulheres que, de diferentes formas, me ensinaram sobre trabalho, responsabilidade e cuidado com os outros.
Já pensei, claro. Mas nesses momentos tento sempre voltar à pergunta essencial: se aquilo que estou a fazer continua alinhado com o meu propósito.
Sempre que percebo que o meu trabalho pode impactar positivamente a vida de alguém, reencontro o meu “porquê” para continuar. Acredito muito numa ideia que uma dessas mulheres que marcou o meu percurso me ensinou: “eu sou porque tu existes.” Para mim isso significa que nos vemos uns aos outros. Muitas vezes o outro é um reflexo de nós, e aquilo que damos ao mundo acaba também por voltar para nós. Quando conseguimos impactar positivamente a vida de alguém, isso também transforma a nossa própria vida.
Diria simplesmente: vai e faz. Hoje temos muito mais ferramentas, informação e oportunidades do que antes. O importante é construir o caminho com estrutura, aprender continuamente e acreditar no dom que cada uma traz consigo. O talento é nosso. O resto é educação, prática e fé no caminho.
Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.
Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.
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