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Em novembro de 2025, a BANTUMEN voltou a Luanda para celebrar, pela primeira vez, o MIA – Mês da Identidade Africana fora de Portugal. Além de uma extensão geográfica do projeto, foi também um regresso simbólico e emocional à cidade e ao país onde a BANTUMEN nasceu, em 2015.
Este momento especial aconteceu em parceria com o The Creative Hub by Cipro Group, que organizou uma tour por diferentes espaços gastronómicos e culturais da cidade, pensada para refletir sobre identidade, pertença e criação contemporânea. Um dos pontos altos desse percurso foi o almoço no Ethio-Habesha Ethiopian Restaurant, na Vila Alice - um lugar onde comer é apenas o início da experiência.
À entrada, percebe-se logo que ali ninguém é cliente. Michael Geda e a sua esposa, Kidest Mulugeta, recebem cada pessoa como convidado. Juntamente com Masresha Aregaye, irmão de Michael, dominam com naturalidade aquilo que na cultura etíope é quase uma arte: a hospitalidade. Na Etiópia, acolher bem não é um detalhe, é um valor central da vida comunitária, um gesto de respeito e de ligação entre pessoas.
Antes de nos sentarmos à mesa, acontece um pequeno ritual: Michael ou Kidest lavam as mãos de cada convidado. É um gesto simples, mas profundamente simbólico porque prepara o corpo e o espírito para a refeição que se segue, porque ali come-se com as mãos, em partilha. Na tradição etíope, comer com as mãos é sinal de confiança, proximidade e comunhão. A comida chega servida num grande prato de barro comunitário, tradicionalmente conhecido como gebeta, forrado com injera, o pão fermentado de base da gastronomia etíope. Todos partilham do mesmo prato, reforçando a ideia de comunidade e igualdade à mesa.
Cada prato é apresentado e explicado, num diálogo que mistura sabores, histórias e memórias. Além da gastronomia, no Ethio-Habesha respira-se cultura: livros espalhados, música a preencher o ambiente, referências visuais que ligam Angola à Etiópia, África à diáspora e passado ao presente.
Depois da refeição, chega um dos momentos mais marcantes: a cerimónia do café. Na cultura etíope, o café é um acontecimento social. Os grãos são preparados ali mesmo, numa pequena cafeteira tradicional, colocada sobre brasas. Antes de ser servido, somos convidados a aproximar-nos para sentir o aroma dos grãos a torrar, um momento sensorial que antecede o sabor. O café é depois vertido de forma quase coreografada: a chávena pousada na mesa, a cafeteira elevada no ar, e o líquido a cair em fio, de lá de cima, com precisão e calma. Tudo acontece devagar, como se o tempo tivesse outro ritmo.
No final do almoço, quando já não havia pratos nem chávenas à frente, Michael ainda encontrou espaço para a conversa. Falou-nos da história da Etiópia e o porquê de este ter sido um dos poucos países africanos que nunca foi colonizado, apesar das várias tentativas da Itália, sobretudo no final do século XIX e novamente nos anos 1930. Contou-nos que, apesar das rivalidades internas, os diferentes grupos étnicos etíopes uniram-se quando a ameaça veio de fora. Foi essa união, rara e decisiva, que permitiu defender o território, a cultura e a soberania.
Ali, a partir do corpo, da comida, da memória e da partilha, ouvir as histórias e experiências dos fundadores deste restaurante fez-nos recordar e avivar o porquê de existir uma BANTUMEN, que reflete sobre identidade, resistência e futuro.
Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.
Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.
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