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No Corpo, a Memória da Violência abre em Luanda com uma pergunta incómoda: e se a violência não fosse apenas um episódio isolado, mas uma estrutura que atravessa as nossas relações, instituições, hábitos e memória coletiva? A exposição - patente até ao dia 28 de maio na Galeria Plano B, na baixa de Luanda - nasce desta necessidade de olhar para o que permanece invisível. Promovida pela revista Ngapa em colaboração com o Estúdio-V e com curadoria de Hemak V, reúne pintura, ilustração, cerâmica e fotografia de artistas angolanos que aceitaram responder a esta reflexão urgente sobre como a violência se disfarça de hábito, obediência, medo e silêncio.
A exposição parte dos últimos 50 anos da experiência coletiva do país para abrir um campo de perguntas sobre memória, trauma, justiça e reparação, questões que a sociedade muitas vezes reconhece tarde demais.
Em entrevista à BANTUMEN, César da Silveira, coordenador da revista Ngapa, e Hemak V, curador da exposição, falam sobre o processo de criação da mostra, a relação entre revista e galeria, e a forma como o projeto propõe olhar para a violência enquanto estrutura social, política e simbólica.
Para Hemak V, curador da exposição, “a violência não é apenas um episódio isolado, nem apenas aquilo que acontece de forma visível ao corpo. A violência também se instala nas relações, nos hábitos, nos silêncios, nas instituições, na memória coletiva e nas formas como aprendemos a existir em sociedade”, explica esmiuçando o título da mostra. Não se trata apenas de representar a violência, mas de seguir os seus rastos. Ver onde ela se repete, onde se disfarça de hábito, onde aparece como obediência, medo, exclusão ou silêncio. “A curadoria procura tornar visível essa dimensão mais profunda da violência como estrutura, linguagem, método e sistema”, acrescenta Hemak V.

DR
A ideia da exposição surgiu durante o processo editorial da 4.ª edição da Ngapa. Segundo César da Silveira, coordenador da revista, a edição foi pensada como uma publicação essencialmente visual, com obras de pintura, ilustração, cerâmica e fotografia criadas especificamente para a reflexão proposta em torno da violência.
À medida que os trabalhos começaram a chegar, tornou-se claro que o papel já não bastava. “As obras precisavam de sair das páginas da revista e dialogar com públicos que não são necessariamente leitores da Ngapa”, explica César. A exposição nasceu, assim, como prolongamento natural da revista, mas também como gesto de abertura, um convite para que o pensamento editorial se transforme em presença, encontro e experiência.
Na galeria, essa reflexão ganha corpo através de diferentes linguagens artísticas. A pintura e a ilustração trabalham o simbólico, o imaginário e a memória. A escultura traz a matéria, a marca e o peso do corpo. A música e a performance acrescentam voz, gesto, movimento e ocupação do espaço. Para Hemak V, o percurso expositivo foi construído a partir da própria lógica da revista, mas pensado para que o público pudesse atravessar fisicamente as camadas do tema. “Dentro da galeria, estas linguagens dialogam como partes de um mesmo corpo expositivo, criando uma experiência sensorial, crítica e imersiva”, afirma.
O corpo, nesta exposição, é território, arquivo, documento e campo de disputa - corpo humano, social, político, institucional e também corpo do Estado. Nas obras, a violência aparece no corpo que carrega marcas, no corpo social que normaliza comportamentos, no corpo político que define quem pode falar ou mover-se, no corpo institucional que produz exclusões e no corpo do Estado, onde o poder assume formas de controlo, disciplina e silenciamento.
A exposição reúne obras de Anita Sambanje, Cela, Débora Sandjai, Ely Inglês, Gegé M’bakudi, Isis Hembe e Killa O, Mac Verkron, Mussunda N’Zombo, Paula Agostinho, Sarhai, Tiago Mena Abrantes e Tonspi. César da Silveira sublinha que a intenção foi convocar a arte como campo de pensamento.“A nossa intenção não foi fazer uma leitura sobre a produção artística contemporânea angolana, mas recorrer a este campo e corpo de expressão e pensamento para aprofundar e, de alguma forma, mediar a nossa interação com momentos violentos da nossa história pessoal, enquanto país e enquanto sociedade”, explica.
A expetativa de César da Silveira e Hemak V é que o público saia da galeria com novas perguntas sobre as formas de violência que continuam presentes sem serem nomeadas.
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Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.
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