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Quem nunca se admirou com as voltas da própria vida e com a estranha, porém agradável, sensação de estar tudo a acontecer ao mesmo tempo? Fattú Djakité conhece bem esse ritmo, não fosse ela a personificação (e resposta) da pergunta que dá início a este texto. Durante anos, ia à Cidade da Praia estudar, observar, aprender. Foi aos workshops e às conferências do Atlantic Music Expo, viu concertos, fez entrevistas, tentou perceber como funcionava o inglês, aquela língua que parecia uma fronteira. "Era muito difícil fazer qualquer entrevista em inglês", conta. "Agora não domino inglês, mas sinto que consigo fazer uma entrevista." Hoje, continua a fazer o mesmo, mas como artista com uma trajetória em ascensão e ciente da mensagem que quer passar ao mundo. É uma vitória pequena que contém outras maiores. Fattú mede a sua trajetória em aquisições, não em grandes saltos, mas em passos que se acumulam. A paciência faz parte do método e a crença também.
Nascida em março de 1990, em Bissau, Fattú Djakité chegou a Cabo Verde aos cinco anos, nos braços da avó. A cidade da Praia foi o segundo começo de alguém que cresceu cabo-verdiana de facto e guineense de memória. Admite que não foi fácil crescer entre dois países, dois crioulos, duas identidades que o mundo insistia em separar. "Foi um período muito difícil porque chegas numa fase, numa bolha, em que tu não sabes quem és", disse numa entrevista anterior à Lusa.
O tempo tratou de clarificar o que a infância deixou em aberto e hoje não aceita que a obriguem a escolher. "Eu sou Fattú Djakité, eu sou guineense e sou cabo-verdiana e ponto final", afirmou mais de uma vez, com a firmeza de quem já teve de repetir isso demasiadas vezes. A sua música, os seus trajes, a sua forma de estar em palco, tudo isso carrega as duas margens. Guiné-Bissau e Cabo Verde são, para ela, "dois corpos e um coração", dois países que lutaram lado a lado contra o colonialismo sob a bandeira de Amílcar Cabral e que têm mais em comum do que muitos querem admitir.

Fattú Djakité e Vanessa Sanches em Cabo Verde | ©BANTUMEN
Amante de música desde cedo, foi moldada por artistas como Justino Delgado e Tabanka Djaz num percurso que artístico que a avó decifrou muito antes de Fattu conseguir nomeá-lo. Ainda em miuda cantava, dança, escrevia. Aos 13 anos, gravou a primeira demo num estúdio de bairro e, com uma coragem que é também a ingenuidade necessária, levou-a à rádio. Foi aí que conheceu o músico Princezito, que se tornaria o seu mentor, o que ela própria chama de "pai musical". Aos 18, entrou no projeto Verão 2008, iniciativa que juntou jovens talentos cabo-verdianos. Em 2012, ficou em terceiro lugar no concurso Estrela Pop, o seu primeiro contato real com o reconhecimento público. Em 2015, lançou o seu primeiro single, "Bendedera di Sol."
Viajou para o Rio de Janeiro em 2017 para gravar o primeiro álbum com o produtor brasileiro Maurício Pacheco, mas os constrangimentos acumularam-se e o disco só chegou ao público em novembro de 2022. O título Praia-Bissau foi sugerido pelo músico Princezito e diz tudo sobre o que Fattú tem para dizer ao mundo: 12 cantadas nos crioulos da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, com composições de Elida Almeida, Toy Delgado e a participação especial do rapper brasileiro Emicida. Sete das faixas são composições inéditas da própria artista. O disco valeu-lhe os prémios de Melhor Intérprete Feminina e Música Tradicional do Ano na gala dos Cabo Verde Music Awards de 2023, a primeira filha da Guiné-Bissau a ser distinguida naquele palco.
A projeção viria, contudo, anos mais tarde. Em julho de 2025, Fattú Djakité lançou "Badja Tina" e o mundo respondeu de uma forma que ela ainda estava a processar quando se sentou a conversar com a BANTUMEN, dias antes de subir ao palco para abrir a última noite de concertos do Kriol Jazz Festival.
Badja quer dizer dançar. Tina é um ritmo, um instrumento e um género musical da Guiné-Bissau, uma tradição nascida entre mulheres que cantavam enquanto lavavam roupa no rio, improvisando sobre tudo o que as incomodava: a poligamia, as injustiças, o silêncio imposto. Com o tempo, a tina tornou-se um espaço coletivo de desabafo e resistência. Fattú Djakité compôs Badja Tina a partir desse substrato, mas com uma intenção explícita de denunciar o casamento forçado infantil, uma prática que, diz ela, "ainda é explícita" na Guiné-Bissau, e da qual não é possível falar sem falar também do abuso sexual de crianças.
O videoclipe foi gravado na Guiné-Bissau, dentro da própria comunidade da artista. Na produção audiovisual Fattú usa saias de fibras de rafia trançadas, uma cinta de contas vermelhas, e nos tornozelos o sadjo, instrumento feito de sementes que marca o ritmo. Tudo foi feito "por nós na nossa insistência e conseguimos criar essa preciosidade", disse em entrevista ao Balai. O "nós" inclui o seu companheiro Dieg, produtor da música, e HR Beatz, produtor do grupo Sizal.

Fattú Djakité no Kriol Jazz Festival, 2026 | ©BANTUMEN
Quando a música saiu, em menos de uma semana ultrapassou 900 mil visualizações. Depois vieram os 150 mil no YouTube, os dois milhões de partilhas do vídeo com tradução no Instagram, quase um milhão no TikTok. E vieram pessoas. Dançarinos do Japão. Artistas como Queen Latifah, SZA, Aurora, Seu Jorge, Vanessa da Mata. Uma estrela da Roménia com quase oito milhões de seguidores que lhe ligou via WhatsApp à uma da manhã - sem noção das horas que eram em Cabo Verde - para dizer-lhe que acabara de partilhar a sua música no Twitter e queria saber de onde ela era. "Eu ainda estou a processar o quão extraordinário foi o 'Badja Tina'", confidenciou, com uma mistura de espanto e gratidão. “Ainda estou a receber vídeos de dançarinos a dançar. Vale a pena. Cada um no seu contexto, cada um no seu país."
A versão com tradução para inglês - que produziu depois de perceber que a mensagem chegava mais longe quando compreendida - foi o estopim para o sucesso que ainda hoje a surpreende e a prova de que é possível entender a mensagem mesmo quando não se conhece a língua. "Antes as pessoas estavam ok, a música é bonita, tem uma boa voz, tem uma imagem bonita, mas não compreendiam. Mas quando compreenderam a causa, o propósito de falar sobre o casamento infantil forçado, teve um outro impacto." Recebeu mensagens de vários cantos do mundo e passou noites sem dormir a responder, mensagem por mensagem. "Todas as mensagens que eu recebia, todos os likes, eu ia lá.”
Fattú Djakité é uma artista independente e o sucesso de Badja Tina é, nas suas palavras, a prova de que esse caminho, por mais cansativo que seja, pode produzir algo com impacto real. Não é uma conclusão que formula como vitória, é antes uma hipótese que está a testar, com consciência dos custos."É muito cansativo e difícil", admite, "porque ainda estamos no processo de criar a equipa, saber que estamos a fazer praticamente tudo em tempo." O "em tempo" é uma forma eufemística de dizer: sem rede, sem margem, sem descanso. Enquanto não há uma base consolidada, uma equipa em que se possa confiar, a independência significa estar ao mesmo tempo no lugar criativo e no lugar de gestão, de produção, de comunicação. "Enquanto não tens uma base, uma equipa, algo que é que possas tipo afirmar estar mesmo mais descansada, estar somente na parte criativa, ainda é muito e muito duro."
Mas a outra face existe e dentro dela aquilo que qualquer artista mais preza: a liberdade. "Dá-te um pouco de liberdade. Independência é dura, mas dá-te liberdade." É ela que define o que faz, como o faz e quando o faz. E, no caso de "Badja Tina", foi essa autonomia que permitiu que a música existisse da forma como existe, sem que ninguém viesse dizer que o tema era arriscado, que o ritmo era demasiado específico, que o mercado não estava preparado. "Nunca tinha trabalhado com ninguém, com nenhuma editora ou com nenhum manager que eu acho que eu conseguisse chegar um resultado assim. Então isso deu-nos mais força para continuar e para ver se, ok, afinal há um espaço sim para algo que é novo."
Há mais de vinte anos que Fattú vive da música, com dois filhos para sustentar e sem nunca ter cedido à ideia de um emprego convencional. "Quando és pai ou mãe e tens que sustentar a casa mas mesmo assim acreditas no teu sonho… Nunca pensei 'tens que ir trabalhar, fazer algum trabalho convencional para ajudar um pouco'. Eu sempre acreditei mesmo na música. Eu sinto que é um projeto a longo prazo, então não é algo que tens que pensar 'ok, tem que dar certo agora'. É passo a passo."
“Praticamente eu não toco em Cabo Verde nem nos festivais”
Fattú Djakité
Dois anos antes da fase positiva que tem marcado os últimos tempos, Fattú atuou no Festival Músicas do Mundo, em Sines (Portugal), palco que sonhara subir, naquele tipo de sonho vago e ao mesmo tempo concreto que os piscianos, diz ela a rir, conhecem bem. As pessoas entenderam a música mesmo sem entender as palavras. "As pessoas acolhiam, as pessoas vibravam e eu era aceite por ser eu mesma." No dia seguinte, nas manchetes, chamaram-na "a rainha de Sines", naquilo a que hoje chama "uma bofetada também para mim. Mas eu acreditava. Era algo que eu sonhava." Desde então, passou por França numa curadoria de Dino d’Santiago, e pelos Açores, pelo Azores Burning Fest. Assume que as reações têm sido consistentes e que há públicos que procuram exatamente aquilo que tem para dar. "Tem pessoas que apreciam a tua voz, que há pessoas que te aceitam como és, querem a tua energia."
O reconhecimento externo contrasta com uma realidade doméstica de nem sempre ser reconhecida no país que a viu crescer e que toma também como seu. Não esconde que a sua música não toca muito nas rádios de Cabo Verde, e a presença nos festivais do país tem sido irregular. "Praticamente eu não toco em Cabo Verde nem nos festivais", diz, sem amargura evidente, mas sem eufemismos. O mercado é pequeno e o propósito de um artista, diz, é sempre a internacionalização. O que "Badja Tina" mostrou é que esse caminho é possível e que pode abrir-se a partir de dentro, sem precisar de ninguém que venha de fora validar primeiro.
Em dezembro de 2025, foi distinguida como Mulher Inspiradora do Ano nos Zikomo Awards, em Dar es Salaam, na Tanzânia, duas distinções que considera importantes, especialmente por virem de um lugar íntimo e pessoal. "Sempre respirei África. A minha africanidade é muito explícita na minha forma de ser, vestir e expressar. Então, um prémio vindo de África é um firmamento de que o mundo, principalmente o continente africano, está a ver-me."
À parte das distinções e do sucesso que vai chegando, Fattu mantém-se fiel àquilo que considera mais importante no percurso de um artista: a criação. Para este ano, há músicas novas. Uma delas chama-se "Aleluia", que apelidou de "Lelê", e é sobre coletividade. "Eu acredito muito na união, na nossa força juntos. Eu não só estou a falar das nações, estou a falar também da nossa força juntos como colegas, artistas." A música foi uma das que levou ao palco do Kriol Jazz Festival, em abril de 2026, onde encerrou a última noite do festival. Mais há mais, e uma delas é dedicada à avó. Chama-se "Canseira" e a artista descreve-a simplesmente como "muito, muito bonita." Ainda não sabe quando a vai partilhar, mas sabe que vai.
No plano pessoal e profissional, a equipa está a crescer. A confiança também. "Agora acredito muito mais nas minhas composições, porque são reais também. Porque quando eu escrevo, tiro de dentro de mim."
Para quem a viu no palco do Kriol Jazz, ficou evidente que Fattu é uma artista que já sabe qual é o seu lugar e está a trabalhar para que todos saibam onde está e para onde quer ir. "Eu quero ser eu, no máximo, e as pessoas vão ver isso. A minha autenticidade, o meu power no palco, aquilo que eu acredito, com um pouco de humor e energia. Muita, muita música."
Admite que o seu maior superpoder - que acaba também por ser a razão destas quase duas décadas de carreira - é o facto de “ser eu mesma. E não há ninguém mais que isso no mundo."
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