Cabo Verde não é só feito de “morabeza” e em “Ti Manxe”, Fidju Kitxora explica porquê

July 14, 2026
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Depois do primeiro disco marcado pela descoberta das suas raízes cabo-verdianas, Fidju Kitxora regressou com um olhar mais atento às contradições do arquipélago. Em "Ti Manxe", o coletivo deixa para trás a visão idealizada de Cabo Verde e explora o outro lado da moeda, como as tensões, a violência e o quotidiano.


À margem da passagem pelo Festival MED, Fidju Kitxora explicou à BANTUMEN como "Ti Manxe" nasceu de uma relação mais profunda com Cabo Verde. Se em Racodja, disco de estreia editado em 2024, predominava a descoberta da identidade e da memória familiar, o novo trabalho afasta-se da visão romantizada do arquipélago para revelar um retrato mais complexo da realidade cabo-verdiana. Ao longo de sete faixas, o coletivo cruza gravações de campo com eletrónica, funaná, semba e kuduro que convivem com a tensão e a vulnerabilidade.


Motivado pela vontade de conhecer melhor a sua história e origem após a morte da avó materna, Fidju percorreu diferentes ilhas de Cabo Verde, registando centenas de gravações de campo que mais tarde deram origem a Racodja. Desde então, as sucessivas estadias no arquipélago alteraram a maneira como observa o território. “O primeiro álbum foi uma resposta de alguém que foi pela primeira vez, que conheceu a família, que teve choques emocionais”, explicou. Ao longo do processo do segundo álbum, percebeu que já não tinha uma visão “tão inocente” e que ainda existem desafios que vão para além do campo turístico e que só quem passa pelas ilhas e fica por mais que “um par de semanas” consegue perceber a profundidade das questões daquele território.


Numa entrevista concedida ao Rimas e Batidas, Fidju Kitxora explicou que sentiu necessidade de ser “mais honesto” na forma como retratava o arquipélago, recusando ficar “refém da cultura do entretenimento”. Em vez de reforçar uma imagem confortável ou facilmente consumível de Cabo Verde, "Ti Manxe" procura dar espaço às contradições, às fragilidades e às experiências que fazem igualmente parte da realidade das ilhas.


Morabeza é um conceito associado à hospitalidade e ao acolhimento do povo cabo-verdiano, mas que, segundo Fidju, é apenas um dos lados da moeda. Há vários níveis de profundidade numa realidade social que também tem as suas questões e que “ não é só Morabeza que define Cabo Verde”. Uma das suas faixas com o título “Morabeza” é a que melhor traduz essa intenção. A composição partiu de uma gravação feita no bairro de Tira Chapéu, na Ilha de Santiago, durante a madrugada, enquanto ocorria uma disputa e pessoas eram apedrejadas. À gravação juntaram-se mais tarde as guitarras de Tó Trips e Henrique Silva que trouxeram uma atmosfera mais densa e melancólica à faixa.

As gravações de campo do músico e arqueólogo continuam a ser o seu ponto de partida do processo criativo. Conversas ocasionais, sons de rua ou acontecimentos inesperados que vão sendo registados num arquivo pessoal que Fidju descreveu como “diário de bordo”. Mais tarde, essas gravações são ouvidas, catalogadas e, em alguns casos, transformadas em matéria musical. Esse processo documental aproxima a música da observação antropológica. Cada som procura captar a atmosfera dos lugares e das pessoas que os habitam. O próprio título do álbum traduz essa intenção. Em crioulo cabo-verdiano, “Ti Manxe” significa “até amanhecer”, uma expressão que Fidju interpreta como um estado de transição, onde se acumulam experiências, emoções e tensões que, em vez de serem contadas numa história linear, coexistem sem uma única interpretação. 


A passagem pelo Festival MED integrou um percurso de circulação internacional, que, segundo Fidju, permite ao coletivo chegar a públicos mais heterogéneos e apresentar o projeto em contextos onde a diversidade musical é valorizada. Enquanto "Ti Manxe" continua a circular, Fidju Kitxora já prepara uma nova proposta artística. Sem adiantar pormenores, revelou que o próximo trabalho surge na sequência de um convite para um festival ainda por anunciar.

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