“Filhos do Meio”, documentário sobre o rap na Margem Sul, chega à RTP2

October 14, 2026
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Still do documentário “Filhos do Meio”

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Antes do streaming, o rap chegava a Almada em cassetes que circulavam de mão em mão. É dessa memória, e de quem a guardou, que se faz Filhos do Meio, Hip Hop à Margem, o documentário de Luís Almeida que a RTP2 emite a 27 de outubro e que fica disponível, no mesmo dia, na RTP Play. Em 60 minutos, o filme reconstitui a história do rap em Almada e no Miratejo, um dos primeiros grandes polos do género em Portugal, a partir de imagens de arquivo e dos testemunhos de quem fez parte do movimento.


O filme começou por ser uma exposição. A mostra homónima foi inaugurada a 26 de outubro de 2024 no Museu de Almada, Casa da Cidade, e o documentário surgiu da vontade de levar esse conteúdo para lá das paredes do museu. Com fotografias, objetos, vídeos e textos, a exposição integrava o programa com que a Câmara Municipal de Almada assinalou os 50 anos do 25 de Abril. Evocava também os 30 anos dos primeiros discos de rap em português editados no país, entre eles a coletânea Rapública, Portukkkal é um Erro, de General D, e o primeiro trabalho dos Da Weasel. A coordenação criativa coube ao crítico e radialista Rui Miguel Abreu e ao rapper e produtor TNT, da editora Mano a Mano. A organização ligava a génese do hip hop na Margem Sul ao movimento antirracista espontâneo que surgiu na passagem dos anos 1980 para os 1990, em reação à presença de skinheads neonazis.


Do mesmo projeto saiu um livro, lançado a 8 de fevereiro de 2025, em que o jornalista Ricardo Farinha documenta pela primeira vez a história de Nelson Neves. Líder dos B-Boys Boxers, o coletivo que esteve na origem do movimento em Almada e no Miratejo, Nelson Neves nunca tinha dado uma entrevista até então. O documentário teve uma primeira exibição em Almada em janeiro desse ano, ainda com a exposição patente.


No ecrã, a história avança por ordem cronológica e com o rap underground sempre no centro. O filme recorre a um arquivo que, segundo a produção, nunca tinha sido reunido e às memórias de quem começou por ouvir as cassetes vindas de fora. O percurso vai dos Líderes da Nova Mensagem aos Black Company, passa pela Rapública, pelos Nexo, pela Máfia Suliana, por Chullage e pelos M.A.C. e chega à geração mais recente, que continua a inscrever Almada na sua música. Na apresentação do filme, o IndieLisboa sublinhava os nomes que corriam o risco de ser esquecidos por não terem deixado música editada capaz de fazer a passagem entre gerações, como os Nexo. Destacava também o contexto de um território operário, politizado e culturalmente diverso no pós-25 de Abril, onde o hip hop deu voz a jovens que não se reviam nas referências dominantes do país.


A estreia em festival foi a 7 de maio de 2025, na sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge, durante o IndieLisboa. Antes disso, a produção e o IndieByNight organizaram no Cais do Sodré uma festa de antecipação, com DJ Fellaz, Juana na Rap e DarkSunn. Desde então, o documentário passou por festivais como o Porto/Post/Doc e o Festival Política e teve uma sessão ao ar livre no MIMO, em Amarante, a 27 de junho deste ano. Segundo a produção, acumulou também dezenas de milhares de visualizações no serviço de entretenimento a bordo da TAP. Pelo caminho somou o prémio de Melhor Documentário no Lisbiff, o de melhor longa-metragem documental no HipHop Cinefest, em Roma, e a Garça de Ouro no Festival Entre Olhares, atribuída por unanimidade. Na justificação, o júri escreveu: “Sem saudosismo nem estereótipos, pela combinação muito conseguida de imagens de arquivo e depoimentos atuais, este documentário oferece uma perspetiva histórica inovadora e reflexiva sobre a identidade e a arte.”


A chegada à televisão pública foi uma escolha. “Fazemos filmes para que sejam vistos de forma acessível e, por isso, para nós era muito importante disponibilizar o documentário na televisão pública”, afirma Luís Almeida, que assina a realização e a montagem. Ricardo Farinha ficou com as entrevistas, a pesquisa e a recolha de arquivo. A produção é da Many Takes, com produção executiva de Daniel Freitas, que teve também um papel central na recolha de arquivo. A direção de fotografia é de Marco Bento, o som direto de Catarina Silva e a pós-produção de som de Gustavo Marques.


Numa entrevista à BANTUMEN, publicada em julho no âmbito da parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian, Luís Almeida contou que começou a realizar numa altura em que ninguém lhe entregava material para montar. A Many Takes, que fundou com Alexandra Oliveira Matos, nasceu na pandemia, quando o trabalho parou. Antes de Filhos do Meio, a produtora já tinha feito “De Sol a Sol”, série documental sobre a cultura hip hop. No percurso do realizador contam-se ainda a série “Barman”, para o RTP Lab, e a colaboração com a revista digital Rimas e Batidas. Desde 2022, partilha com Alexandra Oliveira Matos a curadoria de cinema do Jardim de Verão da Gulbenkian.


Este ano, Almeida estreou também “Novas Narrativas de Caça”, uma série de ficção que criou e cujo primeiro episódio, “Moamba”, escreveu e realizou. São sete episódios independentes, escritos e realizados por cineastas afrodescendentes. A série teve estreia internacional em abril, no Festival Internacional de Cinema de Cartagena das Índias, na Colômbia, e foi financiada pela iniciativa Cinema pela Democracia, da Comissão Comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril com o Instituto do Cinema e do Audiovisual. Está disponível na íntegra na RTP Play desde 14 de maio. Na conversa com a BANTUMEN, o realizador explicou que o que mais lhe agrada é ver o público chegar às obras, em vez de elas ficarem “escondidas numa gaveta”.


Filhos do Meio, Hip Hop à Margem é emitido na RTP2 a 27 de outubro e fica disponível na RTP Play a partir do mesmo dia.

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