Ghoya e o manifesto "Fincadu" sobem ao palco do LAV em junho

May 5, 2026
Ghoya Fincadu LAV
Ghoya | DR

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Com um álbum lançado em março e um concerto histórico marcado para 27 de junho no Lisboa ao Vivo, o rapper e ativista Bruno Furtado prepara-se para levar o seu alter-ego Ghoya a um novo patamar.


Ghoya sempre fez da sua música um manifesto. Filho de pais santomenses e cabo-verdianos, tendo crescido em Portugal entre burocracia e identidade fragmentada, a trajetória de Bruno Furtado que não foi linear e chegou a incluiur um período de reclusão que, longe de o calar, acabou por alimentar uma escrita ainda mais densa e consciente. O documentário Complô, de João Miller Guerra, eternizou parte desse percurso. E agora é Fincadu, o seu mais recente álbum, que define o novo capítulo.


O disco chegou em março e o título não é metáfora vã. É literalmente um fincar de pés na terra, num gesto de permanência e pertença. E no próximo dia 27 de junho, às 21h, o Lisboa ao Vivo será o palco da sua apresentação oficial. A noite chega com banda ao vivo, recriações cénicas e um alinhamento construído para dar corpo físico às narrativas de Fincadu. Faixas como “Xpludi” - com o lendário General Mucuemba -, “Rapacinhu” e “Cunfia” serão o fio condutor de uma noite onde o rap se cruza com a resistência contra o racismo, a desigualdade e a injustiça social. Beats pesados, palavra afiada, e a vivência de quem sabe o que significa lutar por um lugar ao sol.


Sentámos com o artista para perceber o que está por detrás deste momento. "Fincadu surge como um gesto de resistência", responde sem hesitar. "Fui percebendo que há memórias, identidades e experiências que o tempo tenta diluir, empurrando-as para fora da narrativa dominante, distanciando-nos de nós próprios. Este álbum nasce da necessidade de resistir, de continuar a lutar sem esperar por validação para existir."

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Ghoya Fincadu LAV

Ghoya | ©BANTUMEN

Mas resistência, neste caso, não é só olhar para fora. Uma das marcas de Fincadu é precisamente o olhar que se volta para dentro. "Com o tempo percebi que esse confronto também tem de existir virado para dentro. Neste projeto há esse equilíbrio: há momentos em que a música olha para as estruturas sociais que moldam a vida de muita gente, e há momentos em que o olhar se vira para as dúvidas, as contradições, os traumas."


É também neste disco que emerge uma dimensão diferente do artista: "mais silenciosa e mais introspetiva", nas suas próprias palavras. Quem o conhece como voz de intervenção pode surpreender-se com a vulnerabilidade que atravessa algumas faixas. Mas Ghoya não vê contradição nisso. Sem abandonar a rua, o disco carrega o peso das experiências que ficam connosco mesmo quando os lugares já mudaram - e é nessa tensão entre o coletivo e o íntimo que Fincadu encontra a sua força.


Para Ghoya, o rap crioulo também é um arquivo. "Nasceu de experiências muito concretas: bairros, diásporas, histórias de deslocação, de luta e de sobrevivência. Enquanto a música continuar ligada a essas realidades, a sua força mantém-se."


Numa indústria que muitas vezes tenta suavizar ou comercializar essas raízes, a sua posição é clara: "Manter o discurso fincado é simplesmente continuar a escrever a partir desses pontos, sem tentar encaixar a nossa experiência em moldes mais confortáveis." Esse compromisso estende-se à comunidade que o acompanha - e à que ainda o vai descobrir. Ghoya não sobe ao palco sozinho no dia 27 porque leva consigo a história de muitos que se revêem na sua luta e na sua arte. O concerto de apresentação de Fincadu é, por isso, um convite à escuta atenta e à celebração de uma cultura que se recusa a ser apagada.


Fincadu mostra também uma dimensão diferente do artista, "mais silenciosa e mais introspetiva", nas suas próprias palavras. Sem abandonar a rua, o disco carrega o peso das experiências que ficam mesmo quando os lugares já mudaram. E há uma pergunta que emerge: o que é que Ghoya precisava mesmo de dizer? A resposta é curta, mas carrega o peso de toda uma geração: "Nós existimos. As nossas histórias têm valor e não precisam de validação externa para existirem."


Durante muito tempo, explica, certas experiências foram tratadas como marginais dentro da cultura. A música foi sempre a forma de contrariar isso. "Fincadu é uma homenagem a uma geração inteira que continua a transformar a sua experiência em palavras, em música e em consciência, através do rap crioulo."

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