Motivação ou bullying? O regresso da gordofobia disfarçada de empoderamento nas redes sociais

May 27, 2026
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Com dois anos consistentes tanto como frequentadora assídua do ginásio como caminhante apaixonada, aliados a um estilo de vida que muitos classificariam confortavelmente como saudável, cheguei a uma conclusão incontornável: vejo-me muitas vezes como uma contradição ambulante.


Sou uma mulher grande que come livremente, sem culpa nem pedidos de desculpas, e que abraça plenamente o seu corpo. Ao mesmo tempo, adoro genuinamente a minha rotina estruturada de ginásio - quatro dias por semana, sem falhar - e mantenho um nível de atividade física que surpreende a maioria das pessoas que encara o fitness através de uma lente limitada e rígida.


Esta percepção aparece, previsivelmente, sempre que me deparo com comentários não solicitados, muitas vezes moldados por um desprezo mal disfarçado, que me lembram que o meu corpo não “corresponde” exatamente ao estilo de vida que escolhi. Mais precisamente, a contradição que essas pessoas veem não está nos meus hábitos, mas nas expectativas limitadas de si mesmas. Estes comentários refletem a hostilidade mais profunda e normalizada enfrentada por mulheres que ousam envolver-se com o bem-estar e o fitness nos seus próprios termos; mulheres que não performam a saúde da forma que a tendência atual exige que ela seja performada.


Ultimamente, esta hostilidade tornou-se particularmente visível - e particularmente cruel - nas plataformas de redes sociais. A cultura fitness online tem vindo a evoluir (ou talvez a regredir) para algo muito mais agressivo. Criadores de conteúdo, personal trainers e inúmeros frequentadores de ginásio adotaram uma nova forma de discurso disfarçada de “amor duro”. O objetivo, aparentemente, é sacudir as pessoas para a ação, eliminar as “desculpas” e conduzi-las a uma versão mais disciplinada e orientada para objetivos de si mesmas. Mas as suas táticas baseiam-se frequentemente em gozo, humilhação e vergonha pública. A linha entre motivação e bullying está desfocada e a ser ativamente apagada.

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“Será isto realmente motivação? Ou será um reaparecimento de gordofobia interiorizada, disfarçada com a estética da disciplina?”

Jamila Pereira

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Figuras influentes do fitness, como Toni Fine, Amanda Dobler e Wizard Liz, construíram enormes audiências precisamente através desta estratégia. Os seus vídeos são inconfundíveis no tom: diretos, duros e, na maioria das vezes, deliberadamente provocadores. Toni, por exemplo, diz frases que roçam a crueldade: “Queres motivação brutal? Olha para ti nua ao espelho.” “Vira-te de lado e não encolhas a barriga.” “Olha para o quão achatado o teu rabo parece de lado.” “Porque é que as tuas costas são tão largas como as de um jogador de futebol americano?” E talvez o mais revelador: “Recomendas o IMC? Basta olhares ao espelho e ele dir-te-á se és gorda ou não.”


E, em vez de rejeitarem esta mensagem confrontacional, muitos utilizadores online parecem acolhê-la. Nas secções de comentários, as pessoas riem-se. Dizem sentir-se energizadas. Algumas insistem que este é exatamente o tipo de responsabilização de que precisavam. Em muitos aspetos, esta reação é mais inquietante do que o próprio conteúdo. Obriga-me a questionar se estarei simplesmente a ser demasiado sensível ou se existe algo muito mais insidioso por detrás desta tendência crescente.


Porque, embora qualquer pessoa tenha todo o direito de se sentir empoderada por este tipo de narrativa, não consigo deixar de me perguntar se o apelo reside em algo menos fortalecedor do que parece. Será isto realmente motivação? Ou será um reaparecimento de gordofobia profundamente interiorizada, disfarçada com a estética da disciplina e do autoaperfeiçoamento? Afinal, não é a primeira vez que vemos movimentos nas redes sociais mascararem-se de bem-estar enquanto reforçam silenciosamente os mesmos padrões de beleza de sempre.


Estamos a assistir a um regresso subtil, mas deliberado, a um determinado ideal de corpo - magro, estreito, disciplinado. A moda reflete isso. As calças de cintura descaída e as silhuetas justas voltaram discretamente às coleções populares. A representação plus-size, outrora uma conquista difícil nas passerelles e nas campanhas de marcas, está a desaparecer. Existe uma obsessão renovada com o corpo “limpo”, com uma figura esculpida, e cada vez mais, auxiliares farmacêuticos como Ozempic estão a ser glorificados como soluções revolucionárias na procura da magreza. Isto não é uma rejeição total da positividade corporal, mas é certamente uma recalibração. A magreza voltou a estar na moda. E, com isso, certas vozes - como a da Toni - ganham legitimidade enquanto mensageiras daquilo que está a ser reembalado como amor-próprio através da dureza.

“Estamos a assistir a um regresso subtil, mas deliberado, a um determinado ideal de corpo - magro, estreito, disciplinado”

Jamila Pereira

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Neste contexto, é fácil perceber como a linguagem delas, apesar de cortante, é interpretada por algumas pessoas como um urgente “abre-olhos”, uma forma de “salvar” quem é visto como complacente, descuidado ou em negação relativamente ao próprio corpo. O que é mais difícil de ver, e ainda mais difícil de confrontar, é o impacto a longo prazo de normalizar a vergonha como ferramenta motivacional. Particularmente quando essa vergonha é dirigida de forma desproporcional a mulheres que não se enquadram - e nunca se enquadraram - no molde de saúde que a sociedade insiste que todas devemos aspirar a alcançar, especialmente mulheres negras de pele escura.


Mas por que é que as mulheres estão realmente a virar-se para o wellness, conhecido por bem-estar, através de uma abordagem de “mean girl” ou “bully” e a abandonar a positividade corporal?

À medida que assistimos ao crescimento de ideologias de extrema-direita, da transfobia e da romantização de tendências como o tradwife, também precisamos de enfrentar uma verdade mais profunda e frequentemente ignorada: a gordofobia funciona há muito tempo como uma ferramenta dentro da maquinaria da supremacia branca e do racismo sistémico.


A construção do IMC é um exemplo disso, já que o índice foi desenvolvido por matemáticos e fisiologistas, não médicos, com base em corpos de homens brancos europeus e posteriormente universalizado como padrão de saúde para todas as populações, ignorando diferenças raciais, étnicas e corporais.


A definição de feminilidade e, por extensão, de beleza é esmagadoramente moldada por padrões brancos e eurocêntricos. As mulheres mais frequentemente consideradas merecedoras de amor, respeito, visibilidade e desejo são aquelas que se conformam a esse modelo.


Quando mulheres negras interiorizam narrativas gordofóbicas e adotam a retórica do movimento wellness “mean girl” sob o disfarce de motivação ou de autodisciplina, o que está a acontecer não é empoderamento. É a reprodução dos mesmos sistemas opressivos que vigiaram e desvalorizaram os nossos corpos durante gerações. Porque, no fim de contas, sejamos magras ou não, continuamos hipervisíveis da pior forma possível; eternamente no centro da ridicularização, constantemente posicionadas como demasiado ou insuficientes.


A experiência da cantora norte-americana Lizzo serve como um exemplo recente e contundente. Durante anos, a artista sofreu abusos e troça incessantes devido ao seu tamanho, apesar de defender publicamente uma mensagem de positividade corporal e autoaceitação. No entanto, quando recentemente decidiu perder peso e alterar a sua aparência, a reação negativa não diminuiu, apenas mudou de forma. As mesmas pessoas que antes exigiam que ela emagrecesse agora chamam-na hipócrita. As críticas mudaram de tom, mas não de intenção; ela continua a ser atacada simplesmente por existir num corpo que os outros sentem ter o direito de controlar.

“Vivemos numa sociedade que beneficia ao convencer as mulheres de que nunca são suficientes tal como são”

Jamila Pereira

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Esta suposta hipocrisia levou muitas pessoas a ver a positividade corporal como algo vazio ou performativo. Já não é considerada uma posição política, mas um mecanismo de sobrevivência, um gesto superficial incapaz de proteger as mulheres do escrutínio ou da insegurança. E, à medida que se espalha, abre espaço para formas mais severas de autorregulação e de policiamento externo. Sob o pretexto de “amor duro”, somos encorajadas a disciplinar-nos antes que os outros tenham oportunidade de o fazer.


Vivemos numa sociedade que beneficia ao convencer as mulheres de que nunca são suficientes tal como são. Uma sociedade que monetiza a nossa insatisfação e prospera quando a nossa saúde mental é sacrificada em nome da estética. O apetite pelo controle dos corpos femininos - da forma como parecem, se movem e são percepcionados - continua a crescer. Por isso, quando mulheres, especialmente aquelas oriundas de contextos marginalizados, adotam esta retórica punitiva e a chamam de empoderamento, não estão a desmantelar o sistema. Estão a reforçá-lo. Quando as mulheres adotam o ethos “mean girl” sob a ilusão de motivação ou de autoaperfeiçoamento, não estão a desafiar o sistema, estão a ajudá-lo a prosperar.


O que emerge é um ciclo de autovigilância e punição interiorizada. O resultado é uma cultura onde o ódio, a insegurança e o autopoliciamento se disfarçam de cuidado, onde simplesmente existir no próprio corpo se torna um ato carregado de ansiedade, culpa e pressão constante.


Por isso, se te sentes emocionalmente anestesiada, mesmo depois de consumires inúmeras citações de empoderamento ou de seguires a tua influencer body-positive favorita, não estás sozinha. Não significa necessariamente que a positividade corporal tenha falhado. Pode simplesmente significar que estás cansada e à procura de algo real. Mas, nessa procura, virar-te para coaches de fitness que se promovem como “irreverentes” em vez daquilo que realmente são (brutais e cruéis) não te dará a solução que procuras.


Sim, podem ter audiências gigantescas. Sim, podem apresentar-se como vozes da “verdade”. Mas o tipo de motivação que vendem surge, muitas vezes, à custa do teu próprio valor pessoal. A versão de sucesso que promovem é construída sobre a exploração de inseguranças, aprofundando a vergonha que trabalhaste tanto para desaprender. E isso não é empoderamento. É uma punição disfarçada de progresso.


Dizeres a ti mesma que amas o teu corpo, que cuidas dele, que descansas quando precisas, não é fraqueza nem autoengano. É sobrevivência e também um ato revolucionário como a Audre Lorde tão bem nos ensinou. Especialmente num mundo capitalista que não pestanejaria se amanhã desmaiasses de burnout ou de exaustão. Recusares destruir-te em nome da produtividade não significa que estejas a ceder à “infantilização” de que a sociedade tantas vezes acusa as mulheres. Significa simplesmente que reconheces os teus limites, reconheces a tua humanidade e escolhes tratar-te com compaixão.


A honestidade não precisa de vir acompanhada de crueldade porque a maldade não é sinónimo de verdade só porque é direta. E não devemos ser manipuladas a ponto de acreditar que amor-próprio ou aceitação corporal são o mesmo que caos ou autodestruição. Porque, sinceramente, quando já somos usadas como sacos de pancada em tantas áreas da vida, quem de nós precisa de mais golpes? Quem beneficia de mais crueldade, disfarçada de honestidade?

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