Hausdown e MM Intermedia unem-se para reforçar a comunicação de artistas africanos e da diáspora

January 26, 2026
hausdown mm intermedia marlene maia
DR

Partilhar

Num mundo cada vez mais digital e globalizado, que desafios e que perspectivas de futuro se colocam às agências de comunicação? E de que forma podem as mesmas garantir o equilíbrio desejado entre tecnologia, estratégia e retorno de investimento?


Um estudo desenvolvido pela plataforma D&B, e publicado em dezembro de 2025 pelo jornal Eco, dá conta de um crescimento de 2,6% em volume de negócios face ao ano anterior. O total estimado aponta para uma faturação a rondar os 130 milhões de euros, num quadro onde forma analisadas 136 empresas ativas. Ainda que estes indicadores não permitam traçar uma leitura completa, as perspetivas apontam para um crescimento do setor, que daqui para a frente será cada vez mais definido pela integração de IA, pela adoção de estratégias capazes de unir canais digitais e físicos para melhores experiências, bem como pela capacidade de criação de valor/reputação e parcerias estratégicas.


A recente fusão entre a Hausdown e a MM Intermedia integra este último ponto e assinala um momento de viragem na comunicação cultural ligada ao universo lusófono. Juntam-se, agora, dois percursos distintos, mas unidos pela mesma vontade de ampliar espaço, visibilidade e legitimidade a artistas que continuam, em muitos contextos, afastados do centro do circuito mediático dominante. Atualmente liderada por Ana Rita D’Almeida, a Hausdown passa a integrar a experiência e o posicionamento da MM Intermedia, fundada e dirigida por Marlene Maia, num movimento pensado para ganhar escala, reforçar equipa e consolidar presença internacional.


Nesta entrevista, Marlene Maia regressa ao ponto de partida para falar do percurso que a levou a criar a MM Intermedia, da forma como tem trabalhado a representação de artistas africanos no espaço mediático português e dos desafios — criativos, estruturais e políticos — que continuam a atravessar o setor.

PUBLICIDADE

Agenda cultural

“Eu saberia como comunicar, tinha os contactos ao meu alcance e conhecia bem os corredores mediáticos do país”

Marlene Maia

Em 2020, quando cria a MM Intermedia, fá-lo a partir da perceção de que o espaço mediático português continuava a oferecer pouco tempo, pouca atenção e pouca curiosidade à diversidade da produção artística africana. Existiam nomes reconhecidos, é certo, mas a exceção não resolvia o problema estrutural. “Sempre senti uma enorme escassez de artistas africanos no panorama mediático português”, afirma, acrescentando que “a atenção mediática não acompanhava a qualidade, a diversidade nem a autenticidade do que estava a ser produzido”.


Com um percurso consolidado no jornalismo cultural e na comunicação institucional ligada às artes e ao património, Marlene Maia acreditava reunir as ferramentas necessárias para responder a essa lacuna. O conhecimento dos media, a rede de contactos construída ao longo dos anos e a leitura dos bastidores editoriais tornaram-se a base de um projeto que começou por trabalhar com artistas emergentes e foi ganhando consistência à medida que os resultados se tornavam visíveis. “Eu saberia como os comunicar, tinha os contactos ao meu alcance e conhecia bem os corredores mediáticos do país”. A MM Intermedia nasce dessa combinação entre estratégia, experiência e envolvimento pessoal.


O crescimento da empresa foi gradual, mas sustentado por momentos-chave que acabariam por redefinir a escala do trabalho desenvolvido. Um desses pontos de viragem surge em 2022, com a assessoria mediática à cantora Fattu Djakité, cuja exposição pública se traduziu numa presença mediática alargada e consistente. “Foi um trabalho que nos mostrou, de forma muito clara, o impacto que uma comunicação bem feita podia ter”, recorda. A partir daí, o interesse de artistas cabo-verdianos intensifica-se, abrindo caminho, poucos meses depois, ao mercado angolano. Embora os primeiros projetos tenham sido de curta duração, permitiram à agência começar a ser reconhecida fora de Portugal.

“Não é uma questão de talento ou de qualidade, é a lente com que continuam a ser lidos”

Marlene Maia

A verdadeira consolidação em Angola acontece, no entanto, a partir de meados de 2023, quando Marlene Maia assume a comunicação e a gestão integral da carreira de Klaudio Hoshai, período representa uma aprendizagem decisiva e alarga o trabalho para áreas como booking, produção de concertos, imagem, decisões criativas e gestão financeira. “Foi a possibilidade de aprender a lidar com a carreira de um artista no seu todo”, refere, e acresenta que esse processo lhe permitiu compreender “a complexidade real do percurso artístico para lá da exposição”. O trabalho traduziu-se em cerca de 250 momentos de exposição mediática em vários países europeus e africanos e em dezenas de concertos realizados nesse intervalo de tempo. A parceria terminaria em outubro de 2025, deixando, nas palavras da própria, “a sensação de estar preparada para voos ainda maiores”.


Ao longo desse percurso, a MM Intermedia foi trabalhando com artistas de diferentes geografias e gerações, do universo PALOP ao Brasil e a contextos internacionais, numa lógica que Marlene Maia descreve mais como missão do que como serviço. “Nunca vi este trabalho apenas como assessoria”, afirma, “há uma dimensão de responsabilidade e de compromisso que vai muito para lá da promoção”. Essa abordagem assenta em valores que considera inegociáveis, com destaque para a transparência. “A minha forma de comunicar os artistas pauta-se pela verdade”, posição que defende ao explicar que a assessoria mediática só funciona quando respeita simultaneamente os artistas e os media, garantindo uma comunicação fidedigna e responsável.


É neste contexto de maturidade profissional que a aproximação à Hausdown começa a ganhar forma. Marlene Maia acompanhava o trabalho da agência desde 2024 e reconhecia-lhe a vantagem decisiva de ser uma equipa com experiência e background enraizados nos mercados PALOP. “Eles tinham uma leitura interna desses mercados que eu nunca poderia ter da mesma forma”, reconhece. A afinidade pessoal com alguns dos sócios e o reconhecimento mútuo das respetivas competências acabariam por transformar uma aproximação informal num projeto comum. “Andámos a namorar durante uns meses, até que o pedido de casamento me é feito em novembro de 2025”, conta, acrescentando que “o sim foi imediato”.


A fusão resulta do encontro entre uma estrutura já organizada, com profissionais de áreas complementares e uma base de dados mediática sólida, e um percurso individual marcado por pelo enraizamento junto dos media portugueses e experiência acumulada na gestão de carreiras artísticas. Apesar das dúvidas iniciais — nomeadamente quanto à preservação da identidade da MM Intermedia — a opção passou por integrar tudo sob a marca Hausdown, mantendo a MM Intermedia ativa apenas para projetos específicos, como o cinema documental. “Era importante não perder essa dimensão mais autoral”, explica.

hausdown mm intermedia marlene maia

Marlene Maia durante o festival Canjala 2025, em Angola, cuja comunicação mediática liderou | DR

“Tenho plena noção de que algumas portas se abrem para mim, mas continuam entreabertas para os artistas que represento”

Marlene Maia

Para Marlene Maia, o desafio passa agora por conciliar culturas criativas distintas sem diluir identidades. “Não estamos aqui para nos apagarmos uns aos outros”, afirma, “mas para crescermos juntos”. Acredita que esse equilíbrio se constrói na escuta, no respeito mútuo e na consciência de que a fusão não implica apagamento, antes uma visão e estratégias conjuntas. No plano prático, a mudança traduz-se numa redistribuição de tarefas que lhe permite estar mais próxima dos artistas, procurar novos projetos e aprofundar o contacto com os contextos culturais em que trabalha.


A leitura estende-se ao próprio ecossistema mediático português, que identifica como hierarquizado na forma como distribui atenção, legitimidade e centralidade cultural. A invisibilização, “raramente é explícita” e assume contornos subtis, mas persistentes, que continuam a condicionar o acesso ao espaço editorial e à curiosidade dos decisores. Artistas africanos continuam, muitas vezes, a ser empurrados para categorias estanques ou circuitos paralelos, independentemente da sua relevância artística. “Não é uma questão de talento ou de qualidade”, sublinha, “é a lente com que continuam a ser lidos”.


Essa perceção ajuda a explicar a insistência numa comunicação que além de promover projetos, procura também a disputa de lugares simbólicos. Marlene reconhece, aliás, a ambivalência da sua própria posição enquanto mulher branca a comunicar artistas negros, consciência que descreve como um ponto de responsabilidade acrescida. “Tenho plena noção de que algumas portas se abrem para mim enquanto profissional, mas que essas mesmas portas continuam muitas vezes entreabertas para os artistas que represento”. Para a comunicadora, esta assimetria revela que “o problema raramente é o trabalho artístico, mas a legitimidade que lhe é atribuída”.


É também desse entendimento que nasce a aposta na formação e na partilha de conhecimento. O convite para palestrar no Atlantic Music Expo, em Cabo Verde, em 2023, funcionou como validação externa de um trabalho que vinha a ser desenvolvido de forma consistente. “Foi a confirmação de que o trabalho estava a ser visto e reconhecido”, recorda. Ao longo dos últimos anos, a dimensão pedagógica levou-a a diferentes ilhas do arquipélago e, mais recentemente, a Angola, onde contactos com músicos, entidades culturais e produtores reforçaram a perceção de que existe uma procura real por estruturas capazes de mediar entre criação artística, indústria e espaço mediático.


No plano criativo, posiciona-se próxima do risco, sem abdicar de uma noção clara de responsabilidade. “Acredito profundamente no risco criativo”, afirma, explicando que é aí que nascem ideias com identidade e impacto, desde que ancoradas numa leitura cuidada do contexto. O mesmo equilíbrio surge quando analisa a relação das marcas com discursos incómodos, reconhecendo que “há uma abertura maior na forma, mas ainda muito receio quando o conteúdo exige posicionamento”.


O olhar estende-se também à forma como tem vivido a liderança feminina no setor criativo e ao confronto com um mercado que continua a testar os seus próprios limites sempre que a inovação exige mais do que mudança de linguagem. Marlene Maia reconhece que a exigência de prova permanece, ainda que com outros contornos. “Há um equilíbrio muito fino que continua a ser exigido às mulheres em posições de liderança”, observa, não deixando de apontar sinais de mudança em modelos mais humanos e menos performativos.


Pensada para o médio prazo, a ambição da Hausdown passa por afirmar-se como uma estrutura de referência na comunicação de artistas dos PALOP, capaz de acompanhar carreiras de forma integrada e de contribuir para uma presença mais consistente e menos episódica no espaço mediático mainstream. Mais do que uma operação estratégica, a fusão entre a Hausdown e a MM Intermedia surge, assim, como a continuidade de um percurso guiado pela criação de pontes e pela convicção de que “comunicar é também criar espaço — e garantir que esse espaço não volta a fechar”.

Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.

Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.

bantumen.com desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile