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Quando lançou Kartas de Alforria, em 2016, Hélio Batalha, o rapper de Ponta d'Água, na Cidade da Praia, já carregava quase dez anos de percurso - as mixtapes Golpe de Stado I (2010) e Golpe de Stado II (2012), as participações em projetos internacionais, a vitória num concurso radiofónico promovido pelo Ministério da Saúde que havia sido, em 2007, a sua estreia pública como compositor.
O álbum de estreia confirmou o que as ruas dos bairros populares da Praia já sabiam: havia ali uma voz que não se contentava com o entretenimento, que usava o rap como ferramenta de denúncia, memória e construção identitária. A crítica considerou-o um dos melhores álbuns do ano, e os prémios que se seguiram - Artista Revelação e Melhor Hip Hop nos Cabo Verde Music Awards de 2016, Melhor Hip-Hop e Personalidade do Ano da Música nos Somos Cabo Verde de 2017 - confirmaram o reconhecimento formal do que já era uma realidade no terreno.
Quase uma década depois, o caminho chegou a Testamentu. O terceiro álbum de estúdio, que segue De Cairo a Cabo, lançado em 2023 com o propósito declarado de criar pontes musicais e culturais entre o norte e o sul do continente africano, será apresentado ao vivo pela primeira vez em Portugal no próximo dia 9 de maio, no Lisboa ao Vivo, numa noite que promete também revisitar os sucessos que construíram a trajetória de Batalha ao longo de quase vinte anos.
"Testamentu é, acima de tudo, continuidade", afirma o artista em declarações à BANTUMEN. "É a afirmação de um legado que sempre teve como missão a emancipação, a consciência e a promoção do meu povo. Desde Kartas de Alforria até De Cairo a Cabo, o caminho tem sido o mesmo: usar a música como instrumento de memória, denúncia e construção."

©Jair Produções
Aos 36 anos, idade que o artista aponta como marco de uma maturidade que inevitavelmente se reflete na música, Testamentu distingue-se dos trabalhos anteriores por um movimento de interiorização. Temas como "Karta pá nha Mãe" ou "Karta pá nha Filha" partem de uma dimensão pessoal para alcançar o coletivo. "Canções que partem de uma dimensão individual, mas rapidamente se tornam coletivas. Porque falar de paternidade responsável, de família, de herança emocional é falar do futuro de uma comunidade inteira." É uma inflexão que não representa uma rutura com o percurso anterior, mas um aprofundamento. "Se há reinvenção, ela não é ruptura, é ir mais fundo nas mesmas raízes", resume o próprio.
A mudança mais evidente entre o Hélio de 2007 e o de hoje não está nos temas - injustiça, identidade, responsabilidade, memória percorrem toda a discografia - mas na forma de tratá-los. "Comecei com uma linguagem mais frontal, mais direta, mais combativa. Havia uma urgência de gritar certas verdades. Hoje, continuo a abordar temas político-sociais, mas a forma transformou-se. A palavra tornou-se mais estratégica, mais sensível, talvez mais pedagógica." A evolução tem paralelo na relação que o artista estabelece com a música que faz e com o papel que atribui à arte num tempo marcado pelo consumo rápido e pela descartabilidade. "A minha arte não nasce para ser consumo imediato. Ela nasce como chamado. É reflexão sobre o espaço que ocupamos e o momento histórico que vivemos. Nas zonas, nos bairros, nas casas, a música pode ser equilíbrio, consciência, direção."
Quando questionado sobre o que gostaria que um ouvinte sentisse ao escutar Testamentu daqui a dez anos, Batalha recorre ao próprio passado: "Quando hoje ouço Kartas de Alforria, lançado há mais de uma década, sinto que foi - e continua a ser - necessário, pertinente, atual. Gostava que, daqui a dez anos, Testamentu tivesse esse mesmo peso."
A relação com Cabo Verde é um dos fios condutores de toda a obra, e Testamentu não foge à regra. Para Batalha, essa presença “é memória quando revisito tradições, personagens, histórias e símbolos que nos moldaram. É crítica quando questiono estruturas, posicionamentos políticos e escolhas coletivas mas, no fim, é sempre celebração." A dualidade entre crítica e afeto é, segundo o próprio, intencional porque, nas suas palavras, "só critica verdadeiramente quem ama."
Batalha licenciou-se em Serviço Social e cresceu num bairro marcado pelas dificuldades que, mais tarde, foram matéria-prima para canções como "O Ki Fomi Txiga" - o tema que ganhou o CVMA de Melhor Hip Hop em 2016 e se tornou num dos momentos mais reconhecíveis da discografia - ou "Dexam Bua", que acumula mais de 4,6 milhões de visualizações no YouTube. A música como intervenção social é, para o artista, uma postura construída desde a infância, e que recentemente o levou a ser reconhecido como uma das 100 Personalidades Mais Influentes da Lusofonia na Powerlist BANTUMEN 100. "Quero que os concertos sejam quase rituais. Momentos de encontro, de elevação, de consciência coletiva. Mais do que entretenimento, quero que sejam espaços de culto à união, ao respeito pela ancestralidade e à responsabilidade com a posteridade”, conta-nos.
O concerto do dia 9 de maio no Lisboa ao Vivo acolhe essa intenção num momento de transição na carreira: depois de romper com a label Harmonia Música, Batalha fundou a sua própria produtora, a Immortal Records, com o objetivo declarado de que os trabalhos sejam "100 por cento" seus. Testamentu é, por isso, também o primeiro álbum produzido em total autonomia.
Para quem acompanha a trajetória desde as primeiras mixtapes ou descobriu o artista nas colaborações com Dino d’Santiago, Mayra Andrade ou o falecido MC moçambicano Azagaia, o concerto funciona como revisão de um percurso. Para quem chega agora, funciona como ponto de entrada.
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