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Ainda sem disco de estreia, mas com o regresso ao Atlantic Music Expo 2026 e duas datas internacionais marcadas para 2026, na Índia e na Costa do Marfim, Ineida Moniz chega a esta fase da carreira com a sensação de que algo está a ganhar corpo.
A cantora cabo-verdiana voltou ao palco do AME quatro anos depois da estreia e prepara também uma deslocação à Índia, integrada numa delegação de Cabo Verde, para participar na 39.ª edição da Feira Internacional de Artesanato. A 11 de abril, segue para Abidjan, onde representa o arquipélago no MASA, o Marché des Arts du Spectacle Africain, depois de ter sido selecionada entre 16 concorrentes de vários países africanos.
É um momento importante para uma artista que tem construído o seu percurso devagar, sem a pressa com que hoje se exige presença contínua, lançamentos em série e fórmulas reconhecíveis. Ineida prefere outro ritmo. Disse recentemente que gravar um disco continua a ser, para si, “algo grandioso”, um processo que exige tempo, maturação e um resultado final de que se possa orgulhar. Ao mesmo tempo, admite que o trabalho já começou, com recolhas e composições em andamento, num ano em que quer focar-se mais na carreira e em novos projectos.

©BANTUMEN
Essa recusa em fechar demasiado cedo uma identidade artística aparece também quando fala da própria música. “A minha música não tem uma definição porque ainda estou numa descoberta. Então, não tenho uma definição fechada”, diz, assumindo um processo ainda em construção, mas sem qualquer hesitação quanto ao lugar que a música ocupa na sua vida. “Há dez anos que considero que recebi o chamado de ser artista”, afirma, situando aí o momento em que passou a olhar para a música como destino e não apenas como gosto ou inclinação.
No início de tudo, na escola, entre brincadeiras inspiradas por concursos televisivos, Ineida já dava sinais de que o palco seria o seu caminho. “A música sempre me acolheu como como pessoa”, conta. E acrescenta, numa das passagens mais reveladoras da conversa com a BANTUMEN, que “aquele vazio que sentia por ter crescido longe do pai foi a música que sempre preencheu, até então. Até ainda a música é a minha terapia e a minha melhor companhia.” A referência à ausência da figura paterna não surge ali como dramatização, mas como explicação serena para o modo como a arte se tornou abrigo e ferramenta de recomposição.
Esse lado pessoal da artista não a afastou das raízes. Pelo contrário, parece tê-la empurrado ainda mais para elas. Ineida cresceu na zona de São Tomé, na Praia, que descreve como mais interior do que hoje, num tempo em que a rádio de um vizinho ou de um familiar podia ser a porta de entrada para a morna, o batuque, a coladeira ou o funaná. A ligação à tradição aparece-lhe longe da obrigação. É sobretudo como matéria viva, quase física. Quando Ineida fala do funaná, fala do poder que o estilo tem em si própria. Quando sobe ao palco para o cantar, a artista diz sentir-se “a rainha”, a dona de si, atravessada por uma energia que não sabe explicar.
E a BANTUMEN pôde comprovar essa força ao vivo, numa presença que vai além da voz. Na abertura do Krio Jazz Festival, que arrancou na quinta-feira, 9, Ineida reinterpretou alguns dos maiores sucessos do astro Zeca di Nha Reinalda e, a julgar pela interação e reação do público, a sua atuação foi das mais marcantes da noite. Não só pela sua presença marcante, mas também pela incorporação desse poder e afirmação de si que é palpável.
“É ter que provar e ter que ainda explicar que cantar é um trabalho”
Ineida Moniz
A ambição está precisamente aí, em manter o chão sem aceitar fronteiras estéticas rígidas. “Eu quero ser livre com a minha arte”, afirma. E explica que essa liberdade passa por poder “viajar pelo mundo fora”, levando a música de Cabo Verde, mas também indo “beber fora” para regressar com novas misturas. O que se conhece até agora, diz, já aponta nesse sentido. Tem três singles, nenhum deles fechado sobre uma ideia purista de tradição. Em todos procura fusão, mas sem abandonar a base cabo-verdiana. Num tempo em que tantas carreiras se constroem por catálogo, a dela parece estar a formar-se mais por convicção do que por estratégia.
Essa relação com a música cabo-verdiana aparece também ligada à experiência da diáspora e ao modo como a canção funciona como reconhecimento imediato. Para Ineida, a identidade não depende apenas da forma tradicional, depende também da língua, da memória e da capacidade de fazer alguém sentir a terra mesmo estando longe dela. Recorda um concerto em Paris, pouco depois de lançar a morna “Kuka”, e a surpresa de ver jovens cabo-verdianos levantarem-se para dançar uma música que, dentro do país, nem sempre mobiliza o mesmo entusiasmo entre os mais novos. Mais distante ainda foi a experiência na Índia, onde diz ter sentido um aperto por estar tão longe de casa. A conclusão a que chega é simples e forte: “O público pode não entender a língua, mas [a música] é sentimento. Sente-se.”
Se a tradição é uma base, o corpo social em que essa música circula também entra na equação. Quando fala da indústria cabo-verdiana, Ineida não romantiza. Ser mulher artista, diz, continua a significar um “desafio constante”. E não fala apenas da dificuldade em encontrar espaço ou estrutura. Fala também da necessidade de legitimar a profissão, de continuar a explicar que cantar é trabalho, de insistir que a arte não é passatempo nem capricho. “É ter que provar e ter que ainda explicar que cantar é um trabalho”, resume. A aprovação do estatuto do artista em Cabo Verde surge, nesse contexto, como um passo simbólico importante, mas não suficiente para apagar desigualdades antigas nem a solidão com que muitas artistas continuam a fazer caminho.
Talvez por isso a palavra liberdade regresse tantas vezes ao discurso de Ineida. Liberdade para escolher o tempo, o repertório, a forma, o corpo e o rumo. Liberdade que, como ela própria sublinha, continua longe do alcance de muitas mulheres. O modo como fala desse direito não é abstracto, nem decorativo. Está ligado à própria ideia de missão. “A minha missão com a música é fazer transformação”, diz, acrescentando que levar alegria às pessoas já lhe basta como sentido primeiro do que faz. É uma formulação simples, mas ajuda a perceber o que está em jogo nesta fase da sua carreira, mais do que consolidar uma imagem, trata-se de preservar uma intenção.
A curto prazo, o ano abre-lhe portas evidentes. O regresso ao AME proporcionou novamente um palco central diante de um público cabo-verdiano e da rede internacional da música transatlântica. A passagem pela Índia e pelo MASA acrescenta escala, circulação e responsabilidade mas, ao mesmo tempo, permanece uma ambição mais íntima e menos cosmopolita do que se poderia supor. A maior alegria, disse Ineida recentemente noutras entrevistas, seria poder cantar em todas as ilhas do arquipélago. Antes do mundo, ou talvez ao mesmo tempo que ele, há esse desejo de atravessar Cabo Verde por inteiro com a própria voz.
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