“Isso é Kuduro”, de Indi Mateta, conta a história de um dos movimentos culturais mais marcantes de Angola

March 19, 2026
isso e kuduro documentario
Indi Mateta, DJ Tem Bicha e Matondo durante gravação de "Isso é Kuduro"

Partilhar

No dia 20 de março, às 18h, o espaço Avenidas, em Lisboa, recebe a estreia de Isso é Kuduro, documentário realizado por Indi Mateta e centrado no percurso de DJ Tem Bicha. A sessão inclui ainda curtas-metragens de Aoani, David Amado, Elisio Bajone e Josiana Cardoso, bem como uma exposição fotográfica inspirada nos documentários.


O projeto foi desenvolvido no âmbito do Democracy in Action, iniciativa de um consórcio europeu integrada em Portugal pelo CEsA, Centro de Estudos sobre África e Desenvolvimento do ISEG, que inclui uma formação intensiva em cinema documental. Isso é Kuduro tem realização de Indi Mateta, cinematografia e colorismo de Matondo Alexandre, vídeos adicionais de Huba Artes e Eltina Gaspar, e edição, mistura de som, tradução e legendagem asseguradas por Kyambote.


Apesar de a apresentação pública partir de um episódio focado numa figura específica, Isso é Kuduro foi um projeto pensado como entrada para uma narrativa muito mais ampla sobre o kuduro, a sua memória, os seus protagonistas, os seus bastidores e o seu peso social e cultural em Angola e fora dela. O documentário quer abrir caminho para um arquivo vivo sobre um movimento que moldou linguagens, corpos, estéticas e formas de estar no espaço público.


É precisamente essa dimensão mais ampla do projeto que interessa a Indi Mateta. A realizadora explica que o documentário passou por vários formatos antes de chegar à ideia de série. “Isso é Kuduro já passou por outras possíveis narrativas e formatos de apresentação, ser uma curta documental de 30 minutos ou uma longa documental de uma hora e meia, até que cheguei à ideia de apresentar em formato de série com foco no kuduro dos anos 2000, que considero a ‘Era Dourada do Kuduro’. De 2000 a 2010, 2012 no máximo”, explica.


A ambição é grande e pode ganhar formas diferentes consoante os meios disponíveis. Com um orçamento mais reduzido, a ideia passa por reunir, em cada episódio, diferentes intervenientes do universo do kuduro, do canto à produção, da dança à organização de eventos. Com mais recursos, cada uma dessas áreas poderia justificar uma temporada própria. “Com orçamento gigante e contínuo, vou viver o resto da vida a trabalhar nesta série. É muita história para contar”, diz.


O primeiro episódio, dedicado a DJ Tem Bicha, representa como a própria realizadora sublinha, uma escolha não estritamente racional ou fechada. “Eu não escolhi o DJ Tem Bicha, o documentário escolheu-o.” A ideia inicial passava por falar da influência do kuduro em estilos e géneros de fusão de Angola e do mundo, como a batida, o kuduro progressivo ou o soulduro.


Foi através de Sacerdote, conhecido também como Dizkuduru, produtor, DJ e músico angolano residente em Luanda, que Indi chegou a alguns nomes ligados ao kuduro que hoje vivem em Lisboa. Entre esses contatos, DJ Tem Bicha foi a pessoa cuja disponibilidade coincidiu com os prazos do projeto. Como o filme estava a ser desenvolvido em contexto de formação e com uma programação para 2026 já definida, houve necessidade de ajustar o foco.


No período mais ativo do seu trabalho como produtor, DJ Tem Bicha esteve ligado a nomes de referência, como Os Lambas, Turma Tommy, Defaya, Agre G, Yola Noivada, Papa Raro, Dama Diva, entre outros. Participou em vários projetos através de beats e produções musicais que ajudaram a definir uma época. A própria logline do documentário apresenta-o como um “arquiteto invisível do kuduro”, alguém que, a partir de estúdios improvisados no Sambizanga, transformou a escassez em sucessos que marcaram os anos 2000.

PUBLICIDADE

PUB - Seaan Tiller

“O kuduro reflete o estado da sociedade”

Indi Mateta

isso e kuduro documentario

A sinopse revela que o filme acompanha o trabalho de Tem Bicha, como produtor e cuja paixão ajudou a impulsionar a onda do kuduro dessa década. Empurrado para as margens, mas sempre movido pelo amor à música, o artista foi construindo um percurso entre a performance, o rap e, sobretudo, a produção musical. É aí que o documentário o fixa como uma das engrenagens que ajudaram a fazer do kuduro um movimento de alcance popular.


Se o filme parte dele, a intenção da realizadora é mais larga. Indi Mateta recusa uma definição simplista do género e também não quer aprisionar a série na própria interpretação. “A minha definição de kuduro não é simples, é complexa e robusta”, afirma. “Não procurei mostrar a minha definição de kuduro no documentário e nem pretendo fazê-lo com a série. Pelo contrário, quero aprender com o processo de produção e com as conversas com os personagens qual a sua percepção de kuduro e quais as suas contribuições.”


Ainda assim, deixa uma síntese que ajuda a perceber a profundidade da sua relação com o tema. “Para mim o kuduro é uma cultura urbana própria, de género musical à dança e forma de ser e estar, é o que mais nos consola e nos ajuda a manter a sanidade mental em meio a tanto, como povo.” E realizadora vai mais longe ao sublinhar a dimensão social e contraditória: “O kuduro reflete o estado da sociedade e, se em alguns momentos faz apologia ao crime e à promiscuidade, em outros faz apelo ao amor e retira jovens e famílias de situação precária e decadente.” Para a realizadora, essa capacidade de acolhimento é uma das maiores forças do género: “Kuduro é o que de mais inclusivo temos. Todas as pessoas são acolhidas não importando proveniência, estrato social, crença religiosa, cor partidária, tom de pele, orientação sexual, histórico policial, nível de instrução, estado civil, idade, género.”


A linguagem do filme foi pensada a partir de referências vindas de documentários, reportagens, filmes de ficção e videoclipes que abordam músicas urbanas periféricas de África e das Américas. Na construção dessa imagem, a cumplicidade com Matondo Alexandre, responsável pela cinematografia e pelo colorismo, foi decisiva. “Eu e o Matondo somos amigos de longa data e já trabalhámos juntos antes dentro do audiovisual, então temos noção do trabalho e do input de um e do outro”, explica. “Somos ambos amantes de cultura urbana e os dois fãs de kuduro, então fluiu bem a colaboração.” Essa confiança permitiu, em muitos momentos, que a realizadora não precisasse sequer de intervir demasiado durante as filmagens. “Ele já sabia o que captar e como fazê-lo para passar a minha visão.”


Como em muitos projetos independentes, os desafios práticos foram reais, com a questão financeira a surgir logo como um dos maiores constrangimentos. “A questão monetária é sempre uma condicionante. Com recursos limitados fica tudo mais complicado.” Ainda assim, houve uma micro bolsa de apoio, que permitiu avançar com o possível dentro das limitações existentes. A realizadora resume esse processo com uma frase que reconhece como bem angolana: “É só gerir.”


Apesar de o filme ser apresentado em Lisboa, Indi Mateta não esconde que o cenário emocional ideal seria chegar à sua terra natal. “Honestamente gostaria de estrear em Luanda, no Sambizanga.” Ao mesmo tempo, Lisboa faz sentido dentro da circulação do género e da sua própria trajetória pessoal. Desde que passou a viver entre Angola e Portugal, em 2022, Indi Mateta tem vindo a cruzar o trabalho nas artes visuais com o DJing e, agora, com o cinema documental num espaço em que o diálogo com a diáspora acontece de forma natural. “Há neste momento uma grande presença de pessoas de Angola cá, e este é o meu público-alvo inicial com esta obra cinematográfica”, afirma. Mas reconhece também que o filme poderá chegar a outros públicos, precisamente porque o tema já desperta interesse para lá da comunidade angolana. “O kuduro é internacional; costumo dizer que é a coisa mais internacional que temos depois da kizomba e, em terceiro, está o semba.”


Entre Luanda e a diáspora, o kuduro tornou-se linguagem


O kuduro é uma das expressões culturais urbanas mais marcantes de Angola. Nascido em Luanda, entre o final dos anos 80 e o início dos anos 90, afirmou-se não só pela música, mas também pela dança, pela performance, pelo humor e pela ocupação do espaço urbano.


De Tony Amado e Sebém a Bruno M, Os Lambas e Nagrelha, Noite e Dia e Fofandó, o género foi-se construindo entre bairros, quintais e estúdios improvisados, até se tornar fenómeno de massas e símbolo de identidade para várias gerações.


A sua história, no entanto, não ficou fechada em Luanda. O kuduro viajou cedo para Portugal, acompanhando os percursos da diáspora angolana, e encontrou em Lisboa novas formas de circulação. Por isso, a estreia de Isso é Kuduro na capital portuguesa é também um gesto coerente com a própria trajetória do género, que cresceu entre Angola e a diáspora, entre o local e o internacional.


Por detrás de Isso é Kuduro está também o percurso multidisciplinar de Indi Mateta, artista que começou na fotografia e nas artes visuais, venceu o concurso BESA PHOTO 2008 e apresentou trabalho em países como Angola, África do Sul, Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Portugal e Reino Unido. Nos últimos anos, tem cruzado esse percurso com o audiovisual, área em que já realizou a curta documental Caixão Vazio - O Documentário ou uma tentativa e colaborou em videoclipes, direção de fotografia, direção de arte e assistência de realização. Paralelamente, mantém também um percurso como DJ, que já passou por cidades como Luanda, Salvador da Bahia, São Paulo, Copenhaga, Nairobi e Maputo.

Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.

Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.

bantumen.com desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile