Janira Hopffer Almada é a primeira mulher a presidir a Assembleia Nacional de Cabo Verde

June 18, 2026
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Janira Hopffer Almada | DR

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Janira Hopffer Almada foi eleita esta quinta-feira, a 18 de junho, Presidente da Assembleia Nacional de Cabo Verde, tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo na história do país. A eleição surgiu na sequência da vitória do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) nas legislativas de 17 de maio de 2026, em que o partido conquistou 37 dos 72 lugares do parlamento e regressou ao poder depois de dez anos de governação do Movimento para a Democracia, liderado por Ulisses Correia e Silva. A presidência do parlamento é o segundo cargo mais alto na hierarquia do Estado cabo-verdiano, e Janira chega no termo de um percurso de mais de duas décadas, marcado por duas tentativas de tornar-se primeira-ministra.


Nascida a 27 de setembro de 1978, na cidade da Praia, é filha do jurista David Hopffer Almada e de Ana Maria Fonseca. Cresceu em Monte Agarro e, mais tarde, no Meio da Achada, onde os pais construíram casa própria. Licenciou-se em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, onde fez também a pós-graduação em Direito das Empresas, seguindo um caminho de formação que o pai e os irmãos mais velhos haviam percorrido na mesma cidade. É casada e mãe de uma filha.


A advocacia foi a sua primeira vocação e continua a ser parte central da sua vida profissional. Trabalha na sociedade D. Hopffer Almada & Associados, da qual é sócia, e teve uma experiência de docência na Universidade Jean Piaget. Integrou ainda o Conselho Consultivo da Ordem dos Advogados de Cabo Verde, a direção da Associação de Mulheres Juristas de Cabo Verde e o Conselho Fiscal da Câmara do Comércio, Indústria e Serviços de Sotavento.


A entrada na política deu-se aos 29 anos quando foi convidada para o governo de José Maria Neves, onde ocupou ao longo dos anos as pastas da Presidência do Conselho de Ministros e Assuntos Parlamentares e, depois, da Juventude, Emprego e Desenvolvimento dos Recursos Humanos. Foi eleita deputada municipal nas autárquicas de 2008 e deputada nacional nas legislativas de 2011.


Em dezembro de 2014 chegou à presidência do PAICV, tornando-se a quinta pessoa e a primeira mulher a liderar o partido depois de Aristides Pereira, Pedro Pires, Aristides Lima e José Maria Neves. Venceu então com 51,24% dos votos, num sufrágio disputado com Felisberto Vieira e Cristina Fontes Lima. Após a derrota do partido nas legislativas de 2016, foi reeleita líder em 2017, candidata única, com mais de 90% dos votos dos militantes. Em 2017 foi também eleita vice-presidente da Internacional Socialista, organização que reúne partidos da família social-democrata e da qual o PAICV é membro.


Conhecida pela frontalidade, assume a relação com a crítica de forma deliberada. Em entrevista a meios locais, afirmou recear uma liderança que ninguém critique, por entender que tal silêncio significaria inação. Em declarações mais recentes, reconheceu que a frontalidade tem um preço alto e que dela se constrói, por vezes, uma imagem que não corresponde à pessoa que é. A nível interno, a crítica foi visível sobretudo em momentos como a renovação de mandato em que se apresentou sem adversários depois de uma desistência marcada por acusações de "assalto" à liderança, ou o diferendo com Rui Semedo durante o debate orçamental de novembro de 2024.


O momento de maior exposição nacional chegou nas legislativas de abril de 2021, quando se candidatou pela segunda vez a chefiar o governo. A campanha, conduzida em grande medida no terreno e ao som do lema "Janira, mulher guerreira", teve no mundo rural um dos seus eixos. Recordou que cerca de 30% da população cabo-verdiana vive do campo e acusou o governo de então de reduzir o orçamento da agricultura para menos de um terço, num contexto de seca prolongada. A questão da juventude e do emprego, herdada das pastas que tutelara no executivo, manteve-se igualmente presente no discurso. Quanto ao significado da sua candidatura, sustentou que a disputa não se travava entre homens e mulheres, mas em torno do futuro de Cabo Verde. Mais tarde, a derrota nas eleições levá-la-ia a demitir-se da liderança do PAICV.


A saída da presidência do partido não a afastou da vida parlamentar, e foi a partir da bancada que manteve protagonismo até à viragem de 2026. A eleição para a presidência da Assembleia Nacional fecha, assim, um ciclo. A dirigente que por duas vezes ambicionou liderar o governo e por duas vezes foi vencida alcança o topo da hierarquia parlamentar no momento em que o seu partido regressa ao poder, agora sob a liderança de Francisco Carvalho que será empossado como Primeiro Ministro esta sexta-feira, dia 19 de junho.


Janira Hopffer Almada é a primeira mulher a presidir a Assembleia Nacional de Cabo Verde, mas não a primeira a chefiar um parlamento no espaço dos países africanos de língua oficial portuguesa. A recordar que São Tomé e Príncipe teve Alda do Espírito Santo na presidência da sua Assembleia Nacional entre 1980 e 1991, e Celmira Sacramento desde 2022. Moçambique, por seu turno, conheceu uma sucessão de três mulheres à frente da Assembleia da República a partir de 2010, iniciada por Verónica Macamo. Angola elegeu Carolina Cerqueira para a presidência do seu parlamento em 2022. Cabo Verde junta-se, deste modo, ao conjunto de Estados da região que confiaram a uma mulher a presidência do parlamento.

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