Com a Kriolish, todos podem aprender a falar crioulo

July 17, 2026
Kriolish aprender a falar crioulo cabo verde
Edmar Gonçalves e Suely Neves, fundadores da Kriolish | DR

Partilhar

Uma língua pode ser falada diariamente por milhares de pessoas e, ainda assim, ficar fora das ferramentas que começam a definir o futuro. Em Cabo Verde, o crioulo estrutura grande parte da vida familiar, comunitária e cultural, mas continua com uma presença limitada nas instituições, nas plataformas de ensino digital e nos sistemas de inteligência artificial.


É dentro desta contradição que Edmar Gonçalves e Suely Neves estão a desenvolver o Kriolish, uma plataforma dedicada ao ensino, à preservação e à construção de recursos tecnológicos para o crioulo cabo-verdiano.


A ideia começou a ganhar forma em 2019, depois de Edmar encontrar um dicionário físico, publicado em 2015, que traduzia inglês para a variante do crioulo falada na ilha do Fogo. Mais do que as traduções, interessou-lhe a possibilidade de comparar as diferenças entre ilhas.“Ah, é assim que vocês falam em Fogo? É assim que falamos em Sal”, recorda, nesta entrevista à BANTUMEN, sobre o tipo de descoberta proporcionado pelo livro.


Edmar imaginou então uma espécie de Urban Dictionary dedicado ao crioulo cabo-verdiano: uma plataforma digital e colaborativa onde palavras, expressões e particularidades de diferentes ilhas pudessem ser registadas e partilhadas, mais tarde, apresentou a ideia a Suely Neves, que se juntou ao projecto como cofundadora.

“O que está em risco é a destruição da nossa memória coletiva e o corte definitivo do cordão umbilical que une um indivíduo à sua história”

Edmar Gonçalves

O que começou como um dicionário colaborativo transformou-se numa plataforma com mais de duas mil traduções validadas e acompanhadas por pronúncias em áudio, cursos online e um arquivo de expressões alimentado pela comunidade. O Kriolish tem mais de 1.400 contas registadas, ultrapassa os 1.800 utilizadores activos por mês e recebe, em média, 150 pesquisas diárias. A plataforma já foi utilizada em 50 países. Fora de Cabo Verde, os Estados Unidos concentram o maior número de utilizadores, seguidos por Portugal, Países Baixos, Reino Unido e França.


A história do Kriolish está diretamente ligada ao percurso dos seus fundadores e à forma como ambos viveram a relação entre língua, migração e acesso a oportunidades.


Edmar nasceu e cresceu em Cabo Verde, onde falou crioulo diariamente até à adolescência. Ao mesmo tempo, ouviu desde cedo que dominar o inglês poderia abrir portas profissionais e académicas. Formou-se em engenharia e construiu uma carreira de mais de uma década no desenvolvimento de produtos tecnológicos, com passagem por empresas como a Zoom.


Quando se mudou para os Estados Unidos, encontrou duas realidades dentro da comunidade cabo-verdiana. Por um lado, descendentes que já não conseguiam falar ou ler crioulo e sentiam uma distância em relação à própria identidade. Por outro, pessoas que dominavam a língua, mas carregavam vergonha ou estigma em torno dela.


A experiência levou-o a questionar por que razão o futuro de uma criança deveria depender da capacidade financeira da família para lhe proporcionar o acesso ao inglês. O Kriolish passou também a representar uma tentativa de garantir que os “próximos pequenos Edmars” não tenham de escolher entre ambição e identidade.


O percurso de Suely foi diferente. Emigrou para os Estados Unidos aos 12 anos e aprendeu inglês através do crioulo, e não do português, num programa bilingue das escolas públicas de Boston, no início da década de 1990. Em casa, falava crioulo e inglês com a mãe e as irmãs e cresceu numa comunidade predominantemente cabo-verdiana, uma experiência que, segundo a cofundadora, teve um impacto direto no seu percurso académico, por lhe permitir aprender uma nova língua a partir daquela que já dominava.


Mais tarde, uma carreira ligada à diáspora e à diplomacia cultural colocou-a em contacto com os efeitos da perda linguística nas comunidades emigrantes. Quando regressou a Cabo Verde, 15 anos depois de ter saído, a reintegração foi facilitada pelo facto de continuar a dominar o crioulo.

Nos percursos dos dois fundadores, a língua falada em casa contrastava com aquela que era exigida nos espaços formais. O crioulo estava associado à família, à rua, à música e às relações quotidianas. O português e, mais tarde, o inglês ocupavam os lugares da escola, do trabalho e do reconhecimento institucional.“Crescer significava navegar nesta contradição: usar o crioulo para expressar quem somos no seio familiar e comunitário, mas ser forçado a adoptar outra língua para ser levado a sério na escola, no trabalho ou em contextos oficiais”, afirmam.


Quando foi lançado, o projeto chamava-se Criolish. Em 2022, passou a Kriolish. Para os fundadores, a substituição do “C” pelo “K” não foi apenas uma decisão de marca.“No alfabeto cabo-verdiano oficial, ALUPEC, não há a letra C para este efeito fonético”, explicam.


A mudança procurou aproximar a plataforma da grafia e da matriz linguística do crioulo cabo-verdiano, em vez de continuar a adaptar a língua às regras herdadas do português.“Significa que a plataforma se posiciona respeitando a identidade, a matriz linguística e a evolução oficial da escrita da nossa própria língua, em vez de continuar a forçar o crioulo a moldar-se às regras e à grafia herdadas do português colonial.”


A escrita é, atualmente, um dos principais desafios do projeto. Muitos falantes nunca aprenderam ALUPEC na escola e escrevem crioulo de formas diferentes. Numa conversa informal, essas variações podem ser facilmente compreendidas. Na construção de bases de dados, ferramentas de pesquisa ou sistemas de tradução automática, tornam-se um problema técnico.


A própria diversidade linguística entre as ilhas exige atenção. A ferramenta de tradução do Kriolish contempla os dois grandes grupos, Barlavento e Sotavento, mas a estratégia de longo prazo passa por trabalhar as nove variantes insulares.


Em fevereiro de 2026, por ocasião do Dia Internacional da Língua Materna, a plataforma lançou o primeiro curso online, dedicado à variante de Santiago e dirigido a principiantes. Em maio, chegou o curso de São Vicente. A equipa está agora a preparar níveis intermédio e avançado, além de conteúdos para outras ilhas.“Aglutinar tudo em categorias gerais como Barlavento e Sotavento acabaria por apagar as nuances micro-identitárias, os sotaques específicos e os regionalismos culturais que tornam a nossa língua única”, defendem.


Para os fundadores, a origem familiar também pode influenciar a aprendizagem. Um descendente da diáspora pode querer aprender especificamente a variante falada pelos pais ou avós, em vez de uma versão genérica da língua. Ao mesmo tempo, reconhecem que o crioulo está em constante transformação. A migração interna, o turismo e a circulação de profissionais aumentaram o contacto entre variantes. Preservar as diferenças, sublinham, não significa congelar a língua, mas acompanhar uma língua viva.


O público inicialmente imaginado era composto sobretudo por cabo-verdianos de segunda e terceira geração residentes nos Estados Unidos, com o inglês como língua dominante. A utilização da plataforma tornou-se, no entanto, mais transversal.


Edmar e Suely identificam três grandes grupos de utilizadores. O primeiro continua a ser formado por descendentes da diáspora que não aprenderam crioulo formalmente e procuram reconstruir uma ligação à família e à herança cultural. O segundo inclui educadores, instituições e profissionais que trabalham com comunidades cabo-verdianas. Entre eles estão profissionais de saúde nos Estados Unidos, uma área em que a falta de recursos em crioulo pode criar problemas concretos de comunicação.

“Muitas famílias cresceram a ouvir que o crioulo era uma ‘língua de segunda’ e que falar crioulo com os filhos nos países de acolhimento iria prejudicar a sua integração escolar e o seu sucesso profissional”

Suely Rodrigues

Nem todos os cabo-verdianos na diáspora se sentem confortáveis a comunicar em português. Ainda assim, na ausência de serviços de interpretação em crioulo, algumas instituições recorrem automaticamente ao português, por vezes ao português do Brasil, sem garantir que o paciente compreenda plenamente a informação.“Receber assistência médica em crioulo aumenta drasticamente a qualidade dos cuidados”, defendem os fundadores.

Na saúde, acrescentam, compreender sintomas, orientações e decisões clínicas na língua em que uma pessoa se sente mais segura pode fazer a diferença na qualidade do atendimento. O terceiro grupo é composto por turistas e viajantes que procuram aprender vocabulário básico para circular pelas ilhas e comunicar com maior autonomia.

Nos Estados Unidos, o Kriolish chega a utilizadores de 49 cidades, com maior concentração em Boston e Brockton, dois territórios historicamente ligados à diáspora cabo-verdiana. Um dos casos que mais surpreendeu a equipa aconteceu no Liceu Amílcar Cabral, em Assomada, na ilha de Santiago. O Clube de Inglês começou a utilizar o Kriolish no sentido inverso: em vez de partir do inglês para ensinar crioulo, alunos e professores recorrem à língua materna como base para aprender inglês.

“Quando desenhámos a plataforma, tínhamos a mente focada em resolver o problema do cabo-verdiano-americano que queria aprender crioulo”, recordam.

A utilização da plataforma em Assomada permitiu aos estudantes fazer a transição directa do crioulo para o inglês, sem depender obrigatoriamente do português como língua intermediária. “Mostrou-nos que o Kriolish não estava apenas a preservar o passado na diáspora, mas estava activamente a moldar o sucesso educacional e o futuro dos jovens nas ilhas.”

A experiência reforçou uma das ideias defendidas pelos fundadores: sendo a primeira língua de grande parte da população, o crioulo pode servir como base para a aprendizagem de outros idiomas. O próprio percurso de Suely nos Estados Unidos funciona como exemplo dessa possibilidade. Aprendeu inglês através do crioulo num programa bilingue e, décadas depois, estudantes em Cabo Verde estão a usar a mesma lógica para aprender uma língua global a partir daquela que já dominam.

Para Edmar e Suely, a urgência em torno do crioulo manifesta-se de forma diferente dentro e fora de Cabo Verde. Na diáspora, está ligada à continuidade cultural. Sem transmissão familiar, cursos ou ferramentas de aprendizagem, a língua pode perder-se ao fim de uma ou duas gerações.

Entre os utilizadores da plataforma há jovens que querem conversar com os avós, comunicar com familiares ou regressar a Cabo Verde com maior confiança. A equipa recebe mensagens de pessoas que começaram a usar expressões em crioulo nos jantares de família ou que perderam a vergonha de tentar falar depois de recorrerem aos áudios e aos cursos.

A interrupção da transmissão não tem uma única causa. Depende da idade em que uma pessoa emigra, do país de acolhimento, da existência de uma comunidade cabo-verdiana forte e da possibilidade económica de regressar regularmente às ilhas. O estigma, contudo, tem um peso significativo.“Muitas famílias da primeira geração cresceram a ouvir que o crioulo era uma ‘língua de segunda’ e que falar crioulo com os filhos nos países de acolhimento iria prejudicar a sua integração escolar e o seu sucesso profissional”, afirmam.

Em alguns casos, os pais passaram a falar apenas inglês, português, neerlandês ou a língua dominante do país de acolhimento. Sem escolas ou recursos dedicados ao crioulo, as gerações seguintes ficaram com poucas ferramentas para recuperar o que não lhes foi transmitido em casa. Para os fundadores, o risco ultrapassa a perda de vocabulário.“O que está em risco é um ‘apagão’ cultural massivo, a destruição da nossa memória coletiva e o corte definitivo do cordão umbilical que une um indivíduo à sua história.”

Em Cabo Verde, onde o crioulo permanece presente no quotidiano, a preocupação não está tanto no desaparecimento imediato da oralidade. A prioridade passa pela oficialização, pelo ensino e pela criação de infraestruturas que permitam à língua entrar nas novas tecnologias.

“A nossa visão defende uma abordagem equilibrada ao multilinguismo, onde a nossa língua materna é prioritária e devidamente valorizada”

Edmar Gonçalves

O português continua a ser a única língua oficial do país. A Constituição estabelece, no entanto, que o Estado deve promover as condições para a oficialização da língua materna cabo-verdiana em paridade com o português.

Segundo dados do Afrobarometer relativos a 2024, 56% dos cabo-verdianos consideravam ter chegado o momento de adoptar o crioulo como língua oficial com o mesmo estatuto do português. O apoio tinha descido em relação aos 64% registados em 2022. Cerca de 41% defendiam que a língua deveria continuar a ser amplamente falada, mas sem adquirir estatuto oficial. A mesma pesquisa indicava que 69% dos inquiridos concordavam com a utilização conjunta do português e do crioulo nas escolas primárias.

Edmar e Suely defendem abertamente a oficialização. “Olhamos para este debate não como uma mera discussão académica ou política, mas como uma questão fundamental de direitos humanos e justiça social”, afirmam.

Na sua leitura, manter o português como única língua oficial cria barreiras no acesso à justiça, à educação e a outros espaços institucionais. A posição não passa por eliminar o português, mas por criar uma relação mais equilibrada entre a língua materna e as línguas globais. “Não se trata de eliminar o português ou rejeitar o bilinguismo. A nossa visão defende uma abordagem equilibrada ao multilinguismo, onde as línguas globais são valorizadas, mas onde a nossa língua materna é prioritária e devidamente valorizada nas fundações institucionais do país.”

A ferramenta de tradução, lançada em 2023, é uma das áreas mais utilizadas do Kriolish. Reúne mais de duas mil traduções validadas do inglês para o crioulo, com pronúncias em áudio. Quando um termo não está disponível, o utilizador pode pedir a sua inclusão. A plataforma recebe também pedidos de palavras e de frases completas relacionadas com saúde, educação e situações sociais.

A secção de expressões funciona através de crowdsourcing. Qualquer pessoa que domine a língua pode criar uma conta e submeter expressões idiomáticas utilizadas numa determinada ilha. Até agora, foram registadas mais de 300 contribuições da comunidade.

Por trás da interface de aprendizagem existe um trabalho menos visível: transformar a língua em dados organizados e validados. Para que um sistema consiga reconhecer fala, traduzir textos ou desenvolver ferramentas de inteligência artificial, precisa de grandes quantidades de informação. No caso do crioulo cabo-verdiano, não existem, segundo os fundadores, bases de dados empresariais ou infraestruturas comparáveis às disponíveis para línguas dominantes.

O Kriolish procura, por isso, ensinar a língua e construir infraestrutura tecnológica ao mesmo tempo. “Estamos a transformar as tradições orais e a literatura dispersa em conjuntos de dados estruturados e prontos para a IA, cursos online autoguiados e dicionários colaborativos.”

Cada palavra, frase, expressão e pronúncia validada pode servir, no futuro, para desenvolver sistemas de tradução, reconhecimento de voz e outras ferramentas digitais. O processo é dificultado pela diversidade das variantes e pelas diferentes formas de escrever crioulo. A ausência de ensino generalizado do ALUPEC significa que muitos falantes nunca aprenderam uma grafia padronizada, o que exige mais trabalho de organização e validação.

Para Edmar e Suely, a falta de oficialização tem consequências que chegam à inteligência artificial. Uma língua que não é ensinada formalmente produz menos conteúdos escritos de forma consistente. Sem esses conteúdos, torna-se mais difícil criar os dados necessários para integrar a língua nas novas tecnologias. “Se línguas sub-representadas como o crioulo não criarem infraestruturas de dados e não forem integradas em sistemas de inteligência artificial e tradução automática, o incentivo para as gerações mais jovens as falarem vai desabar drasticamente”, defendem.

A inteligência artificial tornou-se uma das áreas centrais da estratégia do Kriolish. “As máquinas precisam de perceber e falar a nossa língua para podermos navegar na internet do futuro na nossa própria voz”, afirma Edmar.

A tecnologia, defendem, pode democratizar o acesso à informação, mas também aprofundar desigualdades. Para as línguas pouco representadas online, o risco não se limita à falta de conteúdos. Passa também pela ausência nos sistemas que começam a mediar a educação, a pesquisa, o atendimento e o trabalho.

Quanto mais útil é uma língua num telemóvel, motor de pesquisa, assistente digital ou ferramenta profissional, maior é o incentivo para a utilizar. Quando fica fora desses espaços, pode perder relevância prática junto das gerações mais novas.“A tecnologia pode ser o derradeiro elemento de democratização ou o maior agente de exclusão.”

Edmar e Suely recusam, por isso, a ideia de que digitalizar o crioulo seja apenas um projeto cultural. Identificam aplicações na educação, na saúde, na investigação e no desenvolvimento de software. “O Kriolish não é apenas uma interface de ensino. É uma fábrica de infraestrutura linguística.”

O Kriolish foi inicialmente financiado pelos próprios fundadores e desenvolvido por uma equipa descentralizada e remota. Durante os primeiros anos, o projecto assentou sobretudo em trabalho voluntário.

Em 2023, tornou-se oficialmente uma startup registada nos Estados Unidos. A entrada num modelo de geração de receitas começou em 2026, com o lançamento dos cursos pagos. O projecto participou também no programa de aceleração BOOST CV, em Cabo Verde, onde recebeu mentoria e visibilidade, mas não financiamento. Atualmente, está incubado pela AEthos, uma comunidade de empreendedores sediada em Cambridge, Massachusetts, dedicada ao desenvolvimento responsável da inteligência artificial.

A falta de capital continua a limitar a velocidade de crescimento, a recolha de dados e a capacidade de manter uma equipa a tempo inteiro. “Uma boa execução de marketing exige investimento, o que nos remete para a nossa maior dificuldade: a linha de financiamento.”

O modelo de negócio combina duas frentes. No mercado direto ao consumidor, a receita vem dos cursos online. No mercado institucional, a equipa pretende licenciar conjuntos de dados linguísticos a universidades, empresas de software e sistemas de saúde, sobretudo nos Estados Unidos.

“A tecnologia pode ser o derradeiro elemento de democratização ou o maior agente de exclusão”

Suely Rodrigues

As ferramentas comunitárias básicas deverão permanecer gratuitas. “Temos um compromisso inegociável: as nossas ferramentas básicas e comunitárias, como os dicionários colaborativos, as consultas de termos e os canais abertos de expressões, continuam e continuarão a ser totalmente gratuitas.”

Os próximos passos incluem novos cursos, funcionalidades e parcerias institucionais. Em Cabo Verde, a equipa está a trabalhar numa parceria com o Instituto do Património Cultural e o Instituto do Arquivo Nacional. Mantém também uma colaboração com a SOS Inclusão, com o objectivo de melhorar os canais de comunicação entre comunidades surdas e ouvintes.

Nos Estados Unidos, estabeleceu uma parceria com a Oceanview Educational Services para digitalizar e distribuir uma série infantil através de histórias bilingues narradas em inglês e nas variantes do Fogo e da Boa Vista. A equipa está igualmente a desenhar uma parceria com uma startup de Boston para desenvolver ferramentas linguísticas destinadas a reduzir barreiras de comunicação em complexos hospitalares norte-americanos.

Outro objectivo passa por transformar o Kriolish numa instituição capaz de certificar proficiência linguística. A ideia é permitir que membros da diáspora demonstrem formalmente os seus conhecimentos de crioulo e possam utilizá-los em oportunidades profissionais bilingues. Está também em desenvolvimento uma aplicação móvel.“Já estamos a trabalhar na nossa app, a ser lançada brevemente, e que vai mudar por completo a experiência com o Kriolish”, adiantam.

A visão para os próximos cinco anos ultrapassa o arquipélago. Edmar e Suely querem usar o modelo desenvolvido para o Kriolish como base para apoiar outras línguas crioulas, nomeadamente as da Guiné-Bissau, de São Tomé e Príncipe e o papiamento de Curaçau. “Cabo Verde é o nosso berço, a nossa raiz e o nosso laboratório de validação”, afirmam.

O objetivo é transformar o Kriolish numa referência tecnológica e educativa para a preservação e integração digital das línguas crioulas. O projeto começou depois de Edmar encontrar um dicionário físico e perceber a riqueza das diferenças linguísticas entre as ilhas. Sete anos depois, reúne traduções, pronúncias, expressões comunitárias, cursos, histórias bilíngues e dados que poderão alimentar ferramentas de inteligência artificial.

Quando questionados sobre se o verdadeiro objetivo é ensinar uma língua ou reconstruir uma relação cultural, familiar e identitária, os fundadores recusam-se a separar as duas dimensões. “Não temos como separar a língua da cultura e, subsequentemente, da própria identidade.”

Para um turista, o Kriolish pode representar maior autonomia durante uma viagem. Para um profissional de saúde, pode ajudar a reduzir uma barreira de comunicação. Para um estudante em Cabo Verde, pode facilitar a aprendizagem do inglês. Para um descendente da diáspora, pode ser uma forma de recuperar a ligação à família e às origens.

Uma língua pode continuar viva nas casas, nas ruas e na música e, ainda assim, ser deixada para trás pelas ferramentas que organizam o futuro. É essa possibilidade que o Kriolish tenta contrariar, colocando o crioulo cabo-verdiano no mesmo espaço onde hoje se aprende, trabalha, comunica e desenvolve tecnologia.

Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.

Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.

bantumen.com desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile