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A 16 de março estreia "A Nobreza do Amor", a novela de grande escala da Globo que junta África e Brasil numa narrativa ambientada nos anos 1920. No centro da produção está o reino fictício de Batanga, território simbólico que reúne referências culturais, históricas e estéticas de diferentes regiões do continente africano. E no centro de Batanga está Dumi, general da guarda real, interpretado por um ator angolano que chegou ao Brasil aos 17 anos com uma mala, um curso de engenharia civil pela frente e nenhum plano de ficar.
A BANTUMEN conversou com Licínio Januário, ator angolano radicado no Brasil, sobre o percurso que o trouxe da província de Angola até ao centro da nova trama da Globo e sobre o que significa, para ele (e para muitos), ocupar esse espaço.
"É de facto o meu maior desafio profissional", começa por dizer-nos sobre o papel mais recente. Embora não possa revelar detalhes sobre a trama, não esconde o peso simbólico da experiência e assume que o impacto está na dimensão da personagem, no volume de cenas, e também no que esta produção representa: uma tentativa de colocar África, de forma mais estruturada, dentro do mainstream televisivo brasileiro. Para Licínio, trata-se de uma abertura coletiva, conquistada por muitas lutas anteriores e carregada de responsabilidade histórica. "Todo elenco tá comprometido a trazer esse primeiro passo de África para o mainstream."
A narrativa é protagonizada por Duda Santos, que interpreta Alika, uma princesa africana guerreira, estratega e diplomata, filha do rei Cayman II, personagem interpretada pelo ator guineense Welket Bungué. Ao seu lado, Erika Januza assume o papel de Niara, rainha de Batanga e mãe da protagonista, enquanto Lázaro Ramos interpreta Jendal, o primeiro-ministro que trai o rei e usurpa o poder. No núcleo brasileiro da trama destaca-se Ronald Sotto, que dá vida a Tonho, um trabalhador de engenho nordestino cujo destino se cruza com o da princesa africana. O elenco inclui ainda Bukassa Kabengele, Nicolas Prattes, Zezé Motta e Rodrigo Simas. Segundo o ator, o projeto procura representar a diversidade africana através de símbolos, trajes, esculturas, geografias e diferentes matrizes culturais, afastando-se da ideia de um continente homogéneo.
“Hoje eu posso dizer que eu sou um menino do Bié a morar aqui nessa diáspora brasileira e a tentar dar continuidade a tudo que eu aprendi com os meus pais”
Licínio Januário

Licínio Januário | ©Diodo Andrade

Licínio Januário | ©Diodo Andrade
No set, descreve um sentimento de emoção generalizada, que diz vir acompanhado pela consciência de que ocupar este espaço - físico e simbólico - é fruto de décadas de pressão, experimentação, acertos, erros e insistência de muitos artistas, coletivos e movimentos negros. É também, na sua perspetiva, uma oportunidade para pensar um futuro mais sólido de cooperação entre Angola e Brasil, entre os PALOP e o mercado audiovisual brasileiro, entre artistas que partilham língua, história e matrizes culturais. Licínio acredita que esta abertura pode ser um gatilho para outras possibilidades, coproduções, circulação de intérpretes, workshops, formação, intercâmbios, construção de um mercado lusófono negro mais articulado e com força económica e simbólica. Fala disso, inclusive, como horizonte concreto.
Mas, para perceber como chegou aqui, é preciso recuar até ao Bié.
Nascido a 29 de outubro de 1991 na província angolana, Licínio construiu a sua vida no Brasil sem abdicar dessa origem, e transformou a experiência migrante numa força que atravessa tanto a sua identidade pessoal como o seu trabalho artístico. "Hoje eu posso dizer que eu sou um menino do Bié a morar aqui nessa diáspora brasileira e a tentar dar continuidade a tudo que eu aprendi com os meus pais." Chegou ainda adolescente, com um plano que tantas famílias migrantes conhecem bem: estudar, formar-se, regressar e dar continuidade ao que vinha de trás. Veio para estudar engenharia civil, com a ideia de um dia voltar "pra banda" e continuar o legado do pai e do avô. Mas a vida abriu um caminho paralelo. E Licinio fez questão de segui-lo com o mesmo rigor comque tinha aprendido a olhar para o mundo.
Esse desvio - ou talvez reencontro - teve nome, a capoeira. Praticante da arte há 17 anos, fala da prática como uma espécie de chão ético, físico e espiritual. Uma disciplina, mas também uma filosofia de vida, muitas vezes vista como ferramenta de regresso a si quando tudo à volta ameaça dispersá-lo. Já houve fases, admite, em que treinava cinco vezes por semana e outras em que só conseguia treinar uma vez por mês, mas nunca largou. "Eu entendia a capoeira como minha filosofia de vida."
É também a partir da capoeira, em especial da Capoeira Angola, que começa a construir a ponte entre ancestralidade, corpo e arte. Há, para si, uma dimensão simbólica evidente em ter sido precisamente uma prática que traz "Angola" no nome a abrir-lhe as portas para o teatro e para as artes cénicas no Brasil. A capoeira, com a sua mistura de luta, dança, cena, escuta e ritual, deu-lhe a primeira linguagem para compreender o corpo enquanto instrumento artístico e político.
Foi desse cruzamento que nasceu a primeira entrada em palco, com o espetáculo Romeu na Roda, uma criação ligada ao universo da capoeira. A experiência abriu uma porta inesperada e, a partir desse momento, o percurso que até então parecia traçado começou a deslocar-se. A engenharia foi gradualmente perdendo espaço. Licínio chegou ao último ano do curso, mas em 2013 decidiu interromper a formação para seguir um caminho que se tinha tornado impossível de ignorar.
A decisão não surgiu de um impulso e o ator descreve esse momento como parte de um processo pensado com cuidado, quase como se estivesse a desenhar um projeto. A lógica aprendida na engenharia, explica, nunca desapareceu da sua vida. Apenas mudou de lugar. Continua presente na forma como organiza o trabalho, define etapas e pensa a própria carreira com uma visão estruturada e de longo prazo. "Você tem um objetivo, você tem as fases e você vai trazer as coisas que você vai precisar para cada fase. Eu levo isso para tudo, até para atuação."
Decidido a “empreender a minha arte” e a “não esperar”, foi construindo um caminho onde o teatro se tornou o espaço em que podia criar sem depender de convites ou de estruturas que nem sempre estavam abertas a novas vozes. Se fosse preciso fazer teatro na rua, fazia-se.
“Eu não gosto de fomentar conto de fadas”
Licínio Januário
Em 2015, escreveu e apresentou o seu primeiro trabalho autoral, Todo Menino é um Rei. O reconhecimento chegou cedo: ganhou o prémio de melhor ator no Festival de Teatro do Rio de Janeiro, distinção que leu como confirmação de caminho, não como ponto de chegada. "Pra mim, isso foi um sinal, esse vai ser o meu caminho."
No ano seguinte, em 2016, tornou-se um dos cofundadores do Coletivo Preto, ao lado de Sol Menezzes, Orlando Caldeira e Drayson Menezzes. O grupo nasceu com um objetivo de fortalecer a dramaturgia negra no Brasil e criar obras em que pessoas negras ocupem um lugar central, tanto em cena como na escrita, na produção e na elaboração simbólica das narrativas. No coletivo, Licínio participa em montagens como Boquinha… e assim surgiu o mundo e Será que vai chover?, além de assinar a peça Lívia, desenvolvida em colaboração com Sol Menezzes.
A chegada ao mainstream foi consequência de um percurso longo, "braçal", feito de investimento, observação, paciência e insistência. Cresceu em Angola a consumir novelas da Globo e, ao chegar ao Brasil, confrontou-se com um desfasamento evidente: um país de maioria negra cuja ficção não refletia essa realidade de forma proporcional nem complexa. "Mais da metade da população brasileira é negra e, a partir das novelas, nós não enxergamos isso."
A crítica estende-se ao tipo de presença que historicamente foi permitido a corpos negros, quase sempre comprimidos entre o estereótipo, a caricatura ou a subalternidade. Esta questão tornou-se ainda mais concreta quando, em 2018, integrou o elenco de "Segundo Sol", novela das 21h da Globo, onde interpretou um angolano marcado por traços mais caricaturais. Licínio reconhece-a com franqueza. Ainda assim, procurou encontrar espaço para imprimir presença e complexidade dentro do que era possível.
Foi em "Vale Tudo" que sentiu ter conseguido fazer outra operação. Ao interpretar Luciano, decidiu construir uma personagem que servisse como afirmação de outra imagem possível do angolano no Brasil, alguém integrado, contemporâneo, inserido no mundo corporativo e artístico, sem deixar de marcar a sua origem. "Eu vou mostrar os angolanos que moram aqui”, conta ao revelar que a presença africana no Brasil contemporâneo tem toda a complexidade da vida real - são pessoas que vivem, trabalham, estudam e constroem, em vários setores, com várias experiências. "Façam mais personagens africanos inseridos aqui nas produções, porque nós existimos, nós estamos aqui”, afirma.
Ao longo da conversa, uma das coisas que mais sobressaem é a forma como recusa o deslumbramento como narrativa central da carreira. Recusa-se a romantizar o percurso e a alimentar a ideia de que basta talento para vencer num meio desigual. É uma recusa que nasce da responsabilidade. Licínio fala de instabilidade financeira, de contratos por obra, de visibilidade intermitente, de trabalhos paralelos que teve de fazer para sustentar a escolha de seguir arte.
"Não é fácil ser artista. Ser artista e negro. Não é fácil ser um artista africano aqui." Trabalhou em bares, vendeu na praia, fez animação de festas. Viveu altos e baixos. E insiste em partilhar esse lado porque entende que ser figura pública também implica não produzir ilusões perigosas para os mais novos que o observam. "Eu não gosto de fomentar conto de fadas."

Licínio Januário | ©Diodo Andrade
Num mercado em que os contratos são curtos e a continuidade raramente é garantida, aprendeu cedo a pensar cada projeto para além do presente. "Quando fazemos um trabalho, temos que projetar três ou quatro anos." Para o ator, reservar a própria essência também passa por não encenar uma vida que não corresponde à realidade.
E preservar a essência, para Licínio, tem também uma geografia, expressa várias vezes na conversa. O desejo de voltar a Angola. Ficar algum tempo, ir às províncias, escutar, dormir, conversar, reaprender presencialmente aquilo que a distância nunca conseguiu apagar. "Esse é o meu lugar artístico”, pontua.
Talvez porque, para Licínio, a arte nunca se separou totalmente da oralidade, da transmissão direta, do encontro físico, do saber passado de corpo para corpo. É um princípio que reencontra na capoeira, mas que identifica também como traço das tradições africanas: aprender ao olhar nos olhos, escutar de perto, conviver. "As nossas coisas sempre se deram oralmente.” É por isso que, ao falar do que quer partilhar com os mais novos, volta sempre à ideia de estratégia, paciência e verdade. É preciso analisar, preparar, perceber os caminhos, entender os obstáculos, sustentar o desejo sem se perder nele.
No fundo, é essa talvez a imagem mais precisa do seu percurso: um ator angolano que atravessou 17 anos de Brasil sem deixar o Bié para trás. A do homem que transformou disciplina em linguagem, capoeira em filosofia, engenharia em método, teatro em autonomia e presença em gesto político. Um artista que recusa tanto o estereótipo quanto o brilho fácil, e que continua a construir uma carreira sem abdicar da raiz.
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