Lisboa Africana #5: Pai Paulino

April 13, 2026
Lisboa Africana 5 Pai Paulino
Busto de Pai Paulino, em Lisba, escultor Frank Ntaluma | ©BANTUMEN

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Uma cidade escreve-se também pelo que decide lembrar. Lisboa lembra-se dos “descobridores”, dos reis, dos marqueses e dos frades, e faz bem, porque eles existiram e escreveram a sua História. Mas existiu igualmente uma cidade dentro da cidade, com os seus mediadores, as suas confrarias, as suas redes de proteção e os seus homens de referência.


Paulino José da Conceição é uma das figuras mais reveladoras dessa outra Lisboa. Caiador [profissional que aplica cal nas paredes] de profissão, nascido na Bahia, Brasil, em 1798, chegou a Portugal em 1832 pelo caminho menos provável: desembarcou no Mindelo com as tropas dos liberais, pertencendo à Brigada da Marinha, e a sua bravura nessa campanha foi condecorada. Não era um foragido nem um marginal. Era um combatente reconhecido pelo mesmo Estado que dificilmente o reconheceria de outra forma, ele que também fora escravizado, entretanto, liberto, e cego de um olho.


O que Paulino José da Conceição construiu em Lisboa ao longo das décadas seguintes é difícil de nomear com os vocabulários disponíveis. Não era político, não tinha cargo, não tinha título. Era o homem a quem os africanos de Lisboa recorriam quando o senhorio queria expulsá-los, quando a polícia batia à porta sem razão, quando a lei não os via ou os via de mais. Mediava litígios, ajudava a comprar cartas de alforria, intercedia junto dos poderes públicos para garantir direitos iguais às mulheres regateiras africanas. Era, na linguagem de hoje, um ativista comunitário. Na linguagem da época, era simplesmente o “Guardião dos Negros”, um epíteto que a comunidade lhe deu e que contém, em três palavras, uma descrição de função, uma expressão de gratidão e um retrato da necessidade que o criou.

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Lisboa Africana 5 Pai Paulino

©BANTUMEN

Essa necessidade merece ser examinada com cuidado, porque é o coração do que este ensaio quer dizer. A narrativa convencional sobre a presença africana em Lisboa tende a organizar-se em torno de uma passividade estrutural: africanos como força de trabalho, africanos como vítimas do tráfico e da servidão, africanos como receptores da doutrina religiosa e da lei europeia. Pai Paulino é uma refutação viva dessa leitura. A existência de um guardião pressupõe uma comunidade que o escolheu, que o reconhece, que confia nele a representação dos seus interesses - o que pressupõe, por sua vez, uma comunidade com consciência de si, com formas de organização, com capacidade de agência política mesmo dentro de constrangimentos brutais. A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e Adoração dos Santos Reis Magos, à qual Pai Paulino pertencia, financiava alforrias, apoiava viúvas e órfãos, organizava a participação negra nas procissões, e garantia que a identidade cultural africana não fosse apagada pela doutrinação religiosa. Era uma instituição, no sentido pleno da palavra.


O que torna Pai Paulino fascinante não é a excepcionalidade mas a representatividade. Era um homem entre muitos, numa Lisboa que em 1801 contava perto de 15 mil pessoas negras numa população de 220 mil - uma proporção que torna difícil sustentarmos a ideia de presença marginal. Essa comunidade trabalhava: varria as ruas, caiava as fachadas, distribuía a água porta a porta, carregava carvão e peixe às costas, dominava o comércio ambulante, tocava nas procissões. E organizava-se: tinha as suas confrarias, os seus mediadores, os seus espaços de convívio. O Largo de São Domingos era o centro visível disso tudo, a Igreja de São Domingos acolhia a primeira Confraria do Rosário dos Homens Pretos, o Rossio era o largo da feira e das festas e das tabernas onde as comerciantes negras se reuniam. Pai Paulino movia-se com naturalidade por esse mundo e pelo outro: era gaiteiro nas procissões, toureiro no Campo de Sant'Ana, mediador de conflitos e interlocutor reconhecido pela Corte.


É esse trânsito que merece atenção. Não se pode ser simultaneamente gaiteiro nas procissões reais, toureiro numa arena pública, mediador de conflitos reconhecido pelos poderes públicos e comprador de alforrias para a comunidade sem ter construído, ao longo de anos, uma rede de relações que atravessa classes, raças e instituições. Pai Paulino não operava à margem do poder, operava dentro das suas fissuras, com uma inteligência política que a historiadora Isabel Castro Henriques documentou com rigor e que Rafael Bordalo Pinheiro, de forma mais instintiva, reconheceu ao dedicar-lhe algumas das suas peças. Que o ceramista e caricaturista mais célebre da Lisboa oitocentista tivesse achado Pai Paulino digno de retrato diz algo sobre a posição que este homem ocupava no imaginário da cidade.


É precisamente aqui que a escolha de Frank Ntaluma como escultor da estátua inaugurada em Janeiro de 2024 abre uma segunda camada de sentido. Ntaluma é moçambicano, de Cabo Delgado, formado na tradição escultórica Makonde, uma das mais antigas e reconhecidas do continente, conhecida pela sua capacidade de condensar pensamento em forma. Chegou a Portugal em 2002, depois de ter fundado em Maputo o grupo Favana de Escultores Makonde e de integrar a ASEMA no Museu Nacional de Arte de Moçambique. A sua obra está representada em Lisboa, Almada, Oeiras, Andorra, Pequim e Los Angeles. Quando lhe encomendaram a estátua, começou, como qualquer escultor rigoroso, pelos registos existentes e encontrou Bordalo Pinheiro. Olhou para o que o ceramista tinha feito e decidiu ir mais longe, ou antes, ir para outro lado.

“O Bordalo Pinheiro criou uma imagem dele, eu segui-a um pouco, mas como artista e africano, fui pensando que o Pai Paulino não era só isso. Era um indivíduo pensante”

 Frank Ntaluma

Lisboa Africana 5 Pai Paulino

Busto "Pai Paulino", de Rafael Bordalo Pinheiro (1894) | DR

A distinção que Ntaluma faz entre o retrato e o pensador é uma distinção filosófica antes de ser estética. Bordalo Pinheiro inscrevia Pai Paulino na iconografia lisboeta: reconhecia-o como figura da cidade, devolvia-lhe uma presença no imaginário local. Ntaluma faz outra coisa: retira-o do anedótico e coloca-o na tradição das estatuetas africanas do pensador, figuras que se inclinam levemente sobre si mesmas em posição de meditação, que condensam a ideia de que pensar é também um ato de agência, que a inteligência é uma forma de resistência. 


A estátua que resultou deste processo não representa o caiador nem o gaiteiro nem o toureiro. Representa o homem que calculava, que via mais longe, que construía poder onde a lei não lhe reservava nenhum.


O diálogo entre Bordalo Pinheiro e Ntaluma - dois artistas separados por 150 anos, por oceanos, por tradições absolutamente distintas - é um dos gestos mais eloquentes deste projeto e um dos mais reveladores sobre o que significa representar uma figura histórica. Toda a escultura pública é uma interpretação, uma escolha sobre o que de uma vida merece ser petrificado. Bordalo Pinheiro escolheu a presença; Ntaluma escolheu o pensamento. Juntos, os dois retratos compõem uma figura mais completa do que qualquer um deles sozinho: o homem que estava lá e sabia exatamente porque estava.


A estátua, esculpida em 2020, ficou quatro anos guardada numa sala em Caxias, assim como as 20 placas toponímicas que completavam o projeto idealizado pela Associação Juvenil Batoto Yetu Portugal. Fundada em 1996, a associação trabalha com jovens e adultos interessados na cultura africana e deu os primeiros passos para criar visibilidade a Lisboa Africana pelo fio do Fado Dançado. A falta de verba atrasou a inauguração do busto de Pai Paulino, que só viria a acontecer a 13 de janeiro de 2024, no Largo de São Domingos, com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa e a presença da historiadora Isabel Castro Henriques, investigadora desta história há décadas e consultora intelectual de todo o processo.


O Largo de São Domingos é o lugar certo, e não apenas por razões históricas. Porque é o lugar contínuo: o mesmo largo onde Pai Paulino trabalhou, mediou e protegeu é hoje ponto de encontro de guineenses, senegaleses, angolanos, cabo-verdianos. A estátua de Ntaluma instalou-se nesse espaço como interlocutora do presente: um homem que pensa, rodeado de homens e mulheres que continuam a organizar-se, a mediar, a construir redes no interior de uma cidade que os precisa mais do que admite.


Pai Paulino morreu a 12 de março de 1869 na sua residência na freguesia de Santos. Foi enterrado numa vala do cemitério do Alto de São João - a tradição que excluía os africanos do enterro ordinário manteve-se até ao fim. Ficou o epíteto: Guardião dos Negros. E a estátua de um escultor moçambicano que olhou para um baiano do século XIX e disse: era um indivíduo pensante.


Esta web-série conta com o apoio da Direção Geral das Artes, República Portuguesa, Associação Juvenil Batoto Yetu Portugal, Many Takes e Hausdown.

REFERÊNCIAS

Isabel Castro Henriques, A presença africana em Portugal, uma História Secular: Preconceito, Integração, Reconhecimento (Séculos XV–XX).

Isabel Castro Henriques & Pedro Pereira Leite, Lisboa, Cidade Africana - Percursos e Lugares de Memória da Presença Africana Séculos XV–XXI.

Isabel Castro Henriques, Roteiro Histórico de uma Lisboa Africana (2021).

Paula Cardoso, "Em nome do Pai - O Guardião dos Negros da Lisboa do século XIX", Afrolink (2020/2024).

Ana da Cunha, "Lisboa inaugura (finalmente) placas de rua que contam a sua história africana", A Mensagem (Janeiro 2024).

"Placas e estátua recordam presença africana em Lisboa", Observador / Público (Janeiro 2024).

"Largo de São Domingos, há 516 anos o lugar da história e das misturas africanas de Lisboa", A Mensagem (Abril 2022).

Série Lisboa Africana - artigos 1 e 2 (BANTUMEN, 2025/2026).

Frank Ntaluma - ficha biográfica, UCCLA / Moçambi-Cá (exposição).

Câmara Municipal de Lisboa / Batoto Yetu Portugal - documentação do projecto BIP/ZIP, proposta de busto Pai Paulino (2018).

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