Lisboa Africana #2: Bairro Mocambo

March 23, 2026
Lisboa Africana Bairro Mocambo
Revestimento em azuleijo da cozinha do palácio Pimenta, Museu de Lisboa | © DR

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No final do século XV, um em cada cinco habitantes de Lisboa era negro ou de origem africana. Em 1801, viviam na cidade cerca de 15.000 pessoas negras - o dobro, em proporção, do que hoje.


"Lisboa Africana” é uma série da BANTUMEN que nasce da urgência de resgatar uma memória muitas vezes apagada da cidade. Ao longo de 15 artigos e cinco vídeos, o projeto percorre pessoas, lugares e trajetórias que moldaram - e continuam a moldar - a infraestrutura, a economia e a cultura de Lisboa, revelando uma cartografia invisível feita não apenas de ruas e monumentos, mas de vidas, corpos e presenças que atravessam séculos.


Existe em Lisboa uma rua cujo nome é o único vestígio visível de um mundo que existiu durante séculos e que a cidade tratou de apagar. Chama-se Rua das Trinas do Mocambo. A maior parte dos lisboetas passa por ela sem saber que o segundo topónimo - esse "do Mocambo" que parece um mero complemento geográfico - é, na verdade, a origem de tudo. O lugar onde hoje se estende o bairro da Madragoa, com as suas calçadas irregulares, os seus eléctricos e as suas esplanadas para turistas, foi durante mais de dois séculos o primeiro e único bairro africano da Europa. Não há um museu que o diga. Não há um memorial que o recorde. Há uma rua, e nessa rua, um nome que sobreviveu à vontade coletiva de esquecer.


A história começa muito antes de 1593, o ano em que um alvará régio [documento oficial emitido pelo rei, através do qual eram dadas ordens, concedidos direitos, criadas regras ou tomadas decisões com valor legal] deu existência oficial ao Bairro do Mocambo. Começa no início do século XV, quando os portugueses iniciaram aquilo que viria a ser o moderno tráfico de escravos da costa ocidental africana. Lisboa tornou-se rapidamente o centro de chegada e distribuição desse comércio. As embarcações atracavam no Tejo carregadas de homens, mulheres e crianças vindos de Arguim [ilha na costa da atual Mauritânia e uma das primeiras feitorias portuguesas na costa ocidental africana], do Benim, Congo e Angola. Na Praça do Pelourinho Velho, eram avaliados, comprados e vendidos. Em 1512, o rei ordenou por decreto que todas aquelas pessoas capturadas que entrassem em Portugal deveriam obrigatoriamente desembarcar em Lisboa, sob pena de multas pesadas. A capital tornava-se, assim, o nó central de uma rede que atravessava o Atlântico.

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Lisboa Africana Bairro Mocambo

Bairro do Mocambo, detalhe do painel de Azulejos “Grande Vista de Lisboa”, At. a Gabriel del Barco (1700-1725), Museu Nacional do Azulejo, Lisboa 2021. Foto © Marta Lança


Homens, mulheres e crianças africanas que chegavam ao Tejo eram obrigados a receber um nome cristão e a aprender português. Era uma forma de apagamento sistemático da identidade: o nome, a língua, a religião. O que os senhores não conseguiam apagar - porque não podiam ver - eram os saberes, os rituais e a memória. As "bolsas de mandinga", talismãs de proteção com ingredientes que protegiam contra armas e doenças e que se popularizaram em Portugal a partir do final do século XVII, eram disso exemplo. Eram fabricadas pelos africanos do Mocambo e, segundo o historiador norte-americano James Sweet, a sua eficácia era demonstrada publicamente nas praças de Lisboa: os seus criadores deixavam-se golpear com facas afiadas para provar que o corpo estava "fechado". O curioso - e revelador - é que os próprios portugueses brancos se tornaram compradores fervorosos destas bolsas. À noite, descendentes de africanos reuniam-se nos cruzamentos da zona de São Bento para invocar forças espirituais. O Mocambo era "largamente conhecido como um espaço poderoso espiritualmente, talvez como uma memória comum e incorporada de todos os africanos mortos ali enterrados", escreveu Sweet.


O bairro nasceu, fisicamente, na periferia ocidental de Lisboa. As fronteiras da cidade terminavam, nessa época, onde hoje é a Rua do Poço dos Negros - nome que ficou como cicatriz de outra história. A explicação mais antiga e mais frequentemente citada para o topónimo remete para uma carta régia de D. Manuel I, datada de 13 de novembro de 1515, que determinava a abertura de um poço para onde seriam levados os corpos de africanos escravizados mortos em Lisboa. Outras leituras posteriores associam o nome aos beneditinos de hábito negro ou a um poço de água da zona.


Do outro lado desta fronteira invisível, começava o Mocambo. Era território fora da cidade - propositadamente. O alvará de 1593, a que se seguiu outro de 1605, não criou o bairro por benevolência: era uma forma de descongestionar o centro urbano, empurrando para ocidente uma população que a cidade precisava mas não queria incorporar. O Mocambo surge, portanto, como o resultado de uma contradição que atravessaria séculos: a indispensabilidade dos africanos para o funcionamento quotidiano de Lisboa, e a recusa em reconhecê-los como parte dela.


Para quem ali chegava a fugir, ou a construir uma vida com os fragmentos que a alforria permitia, o Mocambo tinha outro sentido. A palavra vem do umbundo, língua angolana, e  significa "lugar de refúgio", "pequena aldeia", "local de proteção". É sinónima de "quilombo", em kimbundo, também língua de Angola, e os quilombos brasileiros que a história registou - incluindo o famoso Quilombo dos Palmares - são todos posteriores ao de Lisboa. A historiadora Isabel Castro Henriques, que em 2009 publicou as suas descobertas sobre o passado africano da Madragoa no livro A Herança Africana em Portugal, seria direta sobre esta singularidade: "Lisboa teve um bairro africano antes de todas as outras. Não há outro Bairro como o Mocambo em lado nenhum. Não havia outro bairro africano e foi também o mais antigo instalado fora de África."

Na Lisboa dos séculos XVI e XVII, eram os homens e mulheres do Mocambo que varriam as ruas, caiavam as fachadas, distribuíam água porta a porta, carregavam carvão e peixe às costas.

A comunidade que ali se estabeleceu não era marginal no sentido em que hoje usamos a palavra. Era organizada, com uma lógica própria, construída em simultâneo pelos africanos livres - os "forros", como eram designados os que tinham obtido a alforria - e pelas autoridades locais. Os forros podiam ter casa própria; há registo de mulheres que acumularam bens através do comércio e que residiam nos bairros antigos de Lisboa. No Mocambo encontravam algo diferente: autonomia. A investigação de Isabel Castro Henriques e Pedro Pereira Leite no Roteiro Histórico de uma Lisboa Africana, publicado em 2019, descreveu este espaço com precisão: as populações africanas "procuraram aí encontrar uma habitação autónoma, que podia acolher escravos, à revelia das normas legais, permitindo-lhes uma vivência marcada por algumas práticas culturais africanas, em particular os rituais, religiosos ou sociais - nascimento, casamento, morte, parentesco - que podiam preservar e respeitar, longe do olhar crítico e redutor dos portugueses."


O trabalho era o tecido que costurava tudo. Na Lisboa dos séculos XVI e XVII, eram os homens e mulheres do Mocambo que varriam as ruas, caiavam as fachadas, distribuíam água porta a porta, carregavam carvão e peixe às costas. As regateiras - brancas, negras, mestiças - percorriam a cidade inteira de ponta a ponta, apregoando o que traziam. Os homens trabalhavam nos fornos de ferreiro e nas olarias que ficavam nas margens do bairro, aproveitando a proximidade ao rio. Era trabalho essencial e invisível - o tipo de trabalho que só se nota quando falta. A presença africana estava em todo o lado no espaço público lisboeta, e em lado nenhum na memória oficial.


A festa também era território do Mocambo. Em 1730, há registo de um "Baile de Negros" que não era exclusivo dos africanos - os portugueses também iam. Em 1882, o jornal António Maria descrevia com detalhe "uma grande festa da corte do Congo", aberta a todos, numa casa na Travessa do Outeiro, junto à Rua da Bela Vista à Lapa, para celebrar a coroação de Maria Amália I como Rainha do Congo [um dos mais importantes estados africanos da África Central, fundado por volta do século XIV, numa região que hoje corresponde a partes de Angola, República Democrática do Congo, República do Congo e Gabão]. Os monarcas portugueses, em certos momentos do século XIX, chegaram a participar nestas celebrações. Era uma Lisboa que o Estado Novo apagaria depois com a mesma eficiência com que construiu a sua narrativa de nação.


A ruptura decisiva chegou de fora, com a força bruta da natureza. O terramoto de 1 de novembro de 1755 destruiu a Baixa lisboeta e deslocou parte significativa da população para ocidente. A zona do Mocambo, que ficara relativamente poupada, tornou-se destino de quem precisava de reconstruir uma vida. Em torno do velho bairro africano começaram a crescer palacetes de traça pombalina, a nobreza fixou novas residências, a alta burguesia instalou-se. O Mocambo ficou espremido entre a ambição arquitectónica dos que chegavam com dinheiro e o silêncio imposto a quem não tinha documentos para reclamar o que era seu. As leis pombalinas de restrição ao tráfico negreiro, iniciadas com o alvará de 1751 e culminando no alvará de 1761 - proibiu a entrada de novos escravizados na metrópole e declarou livres os que aí entrassem depois dessa data, mas não aboliu imediatamente a escravatura para quem já lá estava - e a proibição formal em 1773 - que acabou com a transmissão hereditária da condição de escravizado no reino, o que foi importante, mas não significou um fim total e instantâneo da escravatura -, foram retirando, gradualmente, a razão de ser do bairro. Os africanos foram partindo: para as periferias, para as fábricas que o impulso industrial pombalino multiplicou, para um anonimato que a história tratou de tornar permanente.


Lisboa Africana Bairro Mocambo

Varinas na venda ambulante, Lisboa, 1909. Negativo de gelatina e prata em vidro. Fotógrafo, Joshua Benoliel - Arquivo Municipal de Lisboa

No seu lugar chegaram outros. Com a expansão do caminho-de-ferro e a chegada do comboio ao Porto em 1877, os migrantes das margens da ria de Aveiro - de Ovar, da Murtosa, de Ílhavo - desceram até Lisboa em busca de trabalho ligado ao mar e à pesca. Eram, na sua maioria, casais: o homem na pesca ou na construção naval, a mulher no comércio de peixe e legumes. A designação "varina" deriva de "ovarina" - a mulher de Ovar. O bairro que acolhera africanos durante dois séculos passou a ser identificado com estas mulheres do norte que percorriam Lisboa de canastra à cabeça, e ganhou um novo nome: Madragoa. O Mocambo desaparecia da toponímia e da memória oficial. Ficava apenas na Rua das Trinas do Mocambo, e mesmo ali o nome original seria sufocado pelo das religiosas que habitavam o convento próximo.


A varina foi, durante décadas, o símbolo da Madragoa. Andava descalça, com a saia colorida levantada acima do tornozelo, o lenço a emoldurar o rosto, brincos e colar de ouro a reluzir, o chapelinho de feltro preto a sustentar o peso da canastra. Era uma presença física e sonora - o pregão da varina era um dos sons de Lisboa, tão imediatamente reconhecível quanto o elétrico ou o fadista numa janela aberta. Mais tarde, a partir de 1933, o Estado Novo fotografou-as abundantemente, transformou-as em ícone de um Portugal pitoresco e imutável. A varina tornou-se cartaz de propaganda, imagem de uma nação que o regime queria apresentar como antiga, rural, pacífica e sem contradições. O que as fotografias não mostravam era o trabalho. O que o regime não contava era a origem africana do bairro que as varinas habitavam.


O fado chegou a este bairro antes de ser transformado em monumento. A Madragoa foi, a par de Alfama e da Mouraria, um dos lugares de Lisboa onde o género musical nasceu nas primeiras décadas do século XIX - nas tavernas, nos becos, nas casas onde a vida se vivia sem plateia. Diz-se que Maria Severa, a primeira grande fadista de que há memória documentada, chegou a viver na Rua da Madragoa. O fado que saiu daqui não era para exportação nem para ser catalogado pela UNESCO - era para dentro, para os que ali viviam, para os que precisavam de uma linguagem que nenhuma outra forma de expressão conseguia dar à mistura de saudade, resistência e quotidiano que definia aquele bairro. Lisboa é feita de camadas e no Mocambo/Madragoa essas camadas são mais densas do que em qualquer outro lugar da cidade: africanos, pescadores, nobres, fadistas, religiosas, varinas - cada vaga por cima da anterior, cada uma apagando um pouco da que veio antes.


Em 1893, o historiador Júlio Castilho descreveu o bairro como "um dos mais frequentados e populosos da Capital". A essa data, o Mocambo tinha praticamente desaparecido da consciência coletiva. Trezentos anos de presença africana tinham sido, em poucas décadas, varridos da memória pública com uma eficiência que não pode ser inteiramente atribuída ao acaso. Genuinamente deslembrada ou esquecida intencionalmente", o que se sabe é o resultado: até ao início do século XXI, a maioria dos lisboetas desconhecia que caminhava sobre memória africana.


Foi Isabel Castro Henriques quem devolveu visibilidade a essa história, primeiro com A Herança Africana em Portugal, em 2009, e depois com o Roteiro Histórico de uma Lisboa Africana, em 2019. A investigadora foi explícita sobre o significado desta omissão: "Lisboa tem uma história africana que será certamente a mais importante da Europa." E também sobre o processo de apagamento: a única menção ao Mocambo que sobreviveu no próprio bairro encontra-se, de forma algo irónica, no Museu da Marioneta, instalado no antigo Convento das Bernardas. Em todo o resto, o bairro africano foi absorvido, renomeado, redecorado.


A Madragoa de hoje é um bairro em transformação acelerada, e a tensão entre o que foi e o que está a tornar-se é visível a olho nu. As pesquisas académicas sobre gentrificação em Lisboa apontam para um processo que aqui se desenvolve a um ritmo mais lento do que em Alfama ou na Mouraria, e onde a sociedade local - através de associações como o Esperança Atlético Clube, que organiza a participação do bairro nas Marchas Populares de Junho - ainda consegue "moldar ou integrar os novos moradores", como descreve um estudo comparativo entre a Madragoa e o bairro barcelonês do Raval. Mas o processo está em curso. As rendas sobem. Os contratos de arrendamento antigos não são renovados. Moradores que pagam 260 euros num apartamento que habitam há décadas sabem que os seus dias no bairro estão contados, e aponta a perda de identidade sem mágoa aparente, como quem descreve uma lei da natureza. A Madragoa tem "recebido cada vez mais inquilinos" e todos os meses aparece um "negócio novo", segundo a imprensa de tendência local. Gelatarias, bares, mercearias alternativas, galerias de arte. Um Design District que se expande a partir de Santos e sobe a colina.


Entretanto, há quem trabalhe para que o passado africano do bairro não desapareça completamente. A Casa Mocambo, um restaurante aberto em 2015 na Rua do Vale de Santo António, foi fundado uma lisboeta depois de sete anos de viagens por África. O espaço serve comida da lusofonia e apresenta eventos culturais de quinta a domingo. O nome é um acto de memória deliberado. O projeto ReMapping Memories Lisboa classificou o bairro como "lugar de memória" africana e tem trabalhado para fixar essa história no espaço físico e na consciência coletiva. O African Lisbon Tour, criado pelo guia togolês Naky Gaglo, inclui o Mocambo no percurso de uma visita que começa na Praça do Comércio e percorre os lugares da presença africana em Lisboa. São iniciativas privadas, fragmentadas, que dependem da persistência individual. Não há, até hoje, um museu ou memorial público que se confronte seriamente com o legado da escravatura em Lisboa, ao contrário do que acontece na cidade francesa de Nantes, ou no Museu Afro-Brasileiro de São Paulo.


O nome Mocambo sobreviveu onde a cidade não pôde alcançá-lo: gravado na pedra de uma rua. A palavra que em umbundo significa "lugar de refúgio" chegou ao século XXI amputada, escondida atrás das Trinas, mas intacta na sua substância. Ali, onde os africanos construíram a sua aldeia fora das portas da cidade, onde os escravizados fugidos encontravam abrigo, onde se praticavam rituais que nenhuma lei conseguia proibir inteiramente, onde a Lisboa que o poder queria invisível viveu durante mais de duzentos anos a sua vida própria - ali, a rua ainda guarda o nome. E o nome ainda guarda a história.


Esta web-série conta com o apoio da Direção Geral das Artes, República Portuguesa, Many takes e Hausdown.

Fontes: Isabel Castro Henriques, A Herança Africana em Portugal (2009); Isabel Castro Henriques e Pedro Pereira Leite, Roteiro Histórico de uma Lisboa Africana, séculos XV-XXI (ACM, Lisboa, 2019); James H. Sweet, investigador citado em ReMapping Memories Lisboa; Júlio Castilho, Lisboa Antiga (1893); John L. Voigt, estimativas demográficas sobre a população negra de Lisboa no século XVI; Delminda Rijo, Os Escravos na Lisboa Joanina; Helena Roseta, A Presença Africana na Memória de Lisboa (Assembleia Municipal de Lisboa); Yesenia Barragan, "Desenterrando a Esquecida História da Escravatura em Lisboa", BUALA / Black Perspectives (2017); Público (2017); A Mensagem (2021); ReMapping Memories Lisboa; Wikipedia, Madragoa; Explore Latitudes, Roteiro Bairro da Madragoa.

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