Ljayy entrou no top 50 em Portugal e quer levar o trap para lá dos preconceitos

May 1, 2026

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Ljayy é um artista independente português, natural do Casal da Boba, nos subúrbios de Lisboa, com raízes cabo-verdianas que atravessam a sua identidade, a sua forma de estar e a música que tem vindo a construir. Aos 26 anos, apresenta-se como filho de cabo-verdianos, criado num bairro que surge como ponto de origem e como parte central da sua leitura do mundo. É dali que retira histórias, referências, erros, aprendizagens e uma vontade clara de transformar o quotidiano em mensagem, caminho que já o levou a entrar no top 50 dos artistas mais ouvidos em Portugal.


Desde muito jovem que encontrou na música uma forma de expressão e superação, com referências como Plutónio, Gunna, Puto G e Mota Jr, artistas que, de formas diferentes, influenciaram o seu percurso e a sua visão artística. Nesta entrevista à BANTUMEN, o artista deixa perceber que a sua relação com a música nasce também da necessidade de falar sobre aquilo que conhece, sem maquilhar a realidade, nem reduzi-la à violência. “O meu quotidiano influencia, mas eu tenho de sentir, porque a música é sentir. Tu tens de sentir para poderes fazer música”, afirma.


O trap é o território onde escolheu começar a afirmar-se, mesmo sabendo que continua a ser um género muitas vezes associado a narrativas negativas. O artista tem consciência dessa conotação e entra nesse espaço para tentar fazer um caminho diferente, usando uma linguagem familiar aos jovens, com outro tipo de intenção. “Eu uso o trap como uma forma de passar uma mensagem do meu quotidiano para os jovens, para não influenciar tanto a violência, como é costume”, explica.

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Universal Landrick

A minha cena na música não é ir atrás de números. Para mim, basta as pessoas perceberem a mensagem que eu quero passar

Ljayy

Para Ljayy, o trap é para lá da estética, da batida ou da tendência, uma forma de contar aquilo que vive, aquilo que observa e aquilo que aprendeu no lugar onde cresceu. Por isso, a sua música procura aproximar-se da rua sem romantizá-la, reconhecendo as dificuldades, os conflitos e os códigos do bairro, enquanto tenta abrir espaço para outra leitura. A intenção passa por mostrar que é possível usar uma sonoridade muitas vezes ligada à agressividade para transmitir mensagens de motivação, superação e identificação.


O Casal da Boba funciona como uma escola de vida para o músico e influencia diretamente a sua escrita e a forma como pensa a música, não como uma marca decorativa, mas como a base daquilo que tem para dizer. “Tudo o que se passa ali, todas as mensagens que eu tenho para transmitir ao público vêm dali, de onde eu nasci, de onde eu cresci. Foi ali que aprendi o que devo e o que não devo fazer. Foi ali que errei, foi ali que aprendi várias coisas.”


A estreia chegou com “Pistolas”, tema que abriu caminho para a identidade artística e para uma relação mais direta com o público. Mais tarde, no álbum “TRT”, alcançou até então o seu maior êxito com “Shoot 4 the Stars”, música que ultrapassou um milhão de streams no total das plataformas digitais. “Eu relatei o quotidiano de pessoas que se identificam com a letra. É isso que quero transmitir. E sentir que a mensagem foi bem transmitida, que as pessoas sentiram aquilo que eu queria que sentissem, foi excelente”, afirma.


Para o cantor, o impacto da música vai além da estatística. O que lhe interessa é perceber que alguém se reconheceu numa frase, numa vivência ou numa intenção, e que aquilo que começou no seu contexto conseguiu chegar a outras pessoas.


Mesmo quando é confrontado com o fato de ter sido apontado como um dos 50 artistas mais ouvidos em Portugal, num panorama musical cada vez mais competitivo, o músico mantém uma relação distante com a pressão dos números. Não desvaloriza a visibilidade, mas recusa fazer dela o centro do seu percurso. “A minha cena na música não é ir atrás de números. Para mim, basta as pessoas sentirem-me da maneira que eu quero transmitir e perceberem a mensagem que eu quero passar. Isso, para mim, já é importante. As visualizações vêm com o tempo, vêm naturalmente.”

Ljayy entrevista

©BANTUMEN / Nuno Silva

Essa forma de estar ajuda a compreender o seu processo criativo. Ljayy parte do quotidiano como matéria-prima e cria a partir daquilo que sente no momento. Para o artista, a ligação emocional com a música é essencial. “A música é sentir. Tu tens de sentir para poderes fazer música. Eu sou esse tipo de pessoa. Tenho de sentir para me inspirar e para poder fazer.”


O mesmo princípio orienta a forma como se posiciona enquanto artista: embora seja reconhecido no trap, não quer ficar limitado a um único registo musical. Fala de versatilidade como uma possibilidade natural e admite entrar por sonoridades como kizomba, funaná, amapiano ou UK, desde que exista uma ligação verdadeira com o beat. “Posso estar a ouvir um beat de kizomba, de UK, ou o que for. Se eu sentir que devo cantar naquele beat, eu vou cantar. Acho que consigo entrar em qualquer tipo de som. Basta eu sentir.”


A vontade de arriscar também surge nos próximos passos e, depois de temas como “9MM” e “Trapstars”, Ljayy acaba de lançar “FFF”, numa fase em que continua a trabalhar nova música e a definir o formato do próximo projeto. O artista está a desenvolver um EP, mas admite que o processo pode crescer até se transformar num álbum. Ainda não fecha completamente o caminho, porque prefere deixar a música ganhar forma com naturalidade. Para Ljayy, criar um projeto mais estruturado, com início, meio e fim, faz parte do processo de evolução enquanto artista. A sua forma de trabalhar passa por manter o foco, deixar as ideias amadurecerem e confiar no percurso, sem pressa. “É deixar as coisas irem naturalmente, sem pressa, sem queixas. Basta ter cabeça. As coisas fazem-se.”


Ao longo da conversa, o artista deixa claro que ainda está a apresentar-se ao público, mas que também já tem uma visão sobre o lugar que quer ocupar. Quer ser ouvido para lá dos preconceitos que muitas vezes acompanham o trap e para lá da ideia de que a música da rua só pode reproduzir violência. O objetivo é retratar o quotidiano com autenticidade, contar histórias nas quais muitos se possam reconhecer e transmitir mensagens que falem diretamente a quem vive realidades parecidas com a sua.


No fim, quando olha para a câmara e se apresenta a quem ainda não o conhece, resume o percurso a partir do lugar de onde vem e daquilo que pretende entregar. “O meu nome é LJ, tenho 26 anos, sou do Casal da Boba, sou cabo-verdiano e português, filho de cabo-verdianos. Estou aqui para transmitir o melhor de mim para vocês. Fiquem atentos, vão sair coisas boas e vai valer muito a pena.”

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