LLAY apagou as suas músicas das plataformas digitais para recomeçar com o R&B que sempre quis fazer

November 3, 2026
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De Massamá e do Cacém até Leeds, em Inglaterra, LLAY construiu um percurso que passou pela kizomba com os ExL e pelo trabalho de estúdio com NGA e a Força Suprema. Depois de anos a experimentar diferentes sonoridades, o cantor e engenheiro de som português retirou as suas músicas das plataformas digitais para recomeçar, desta vez com o rhythm and blues (R&B) que sempre sentiu como seu.


Josymar Freire, conhecido artisticamente como LLAY, nasceu em Lisboa e cresceu entre Massamá e o Cacém. Em casa, o pai, cabo-verdiano criado em Angola, ouvia regularmente Bonga, Paulo Flores, Tito Paris, Cesária Évora, Mobass e Splash, enquanto o filho descobria Michael Jackson através da televisão e se aproximava do R&B de grupos como Jodeci e Dru Hill. Aos dez anos, já escrevia letras para si e para os amigos e, pouco depois, começou a gravá-los num pequeno estúdio improvisado. Sem conhecimentos técnicos formais, identificava problemas de ritmo e orientava as gravações. Tinha 11 anos quando subiu ao palco de um Centro Lúdico, na Linha de Sintra, para abrir um espetáculo de NGA e do seu grupo, e no final da atuação os músicos deixaram-lhe palavras de incentivo.


Aos 14 anos, mudou-se para Inglaterra. Passou primeiro por Tottenham, em Londres, e no ano seguinte estabeleceu-se em Leeds, a cidade onde hoje trabalha como cantor, compositor, produtor e engenheiro de som. Ao que trazia de casa juntaram-se o grime e o UK garage.

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“Portugal deu-me as bases, e o Reino Unido acrescentou outras experiências e influências. Ambos fazem parte da minha identidade e contribuíram para o artista que sou hoje”, explica à BANTUMEN.


Por volta de 2013, quando cantava e fazia rap sobretudo em inglês, recebeu uma proposta de uma editora canadiana. Um amigo aconselhou-o a explorar primeiro a cena musical de expressão portuguesa, argumentando que deveria conhecer as possibilidades do mercado ao qual também pertencia culturalmente. A conversa levou-o a formar os ExL e a experimentar a kizomba. Em 2016, a colaboração do grupo com DJ Waldo em “Vou Te Pegar” levou-o a um público mais vasto e abriu-lhe contactos com outros artistas e profissionais da indústria musical.


À medida que o grupo ganhava visibilidade, LLAY sentia crescer a distância entre a música que fazia e aquela que queria construir. Trabalhar com DJ Waldo implicava adaptar-se à visão criativa de outra pessoa, algo que, admite, nem sempre lhe foi fácil. Na kizomba e nos afrobeats, as palavras nem sempre surgiam com naturalidade; quando regressava ao R&B alternativo, com influências de trap, a escrita fluía e, por vezes, uma canção completa ficava pronta em quinze minutos.

“Podia fazer uma ou duas músicas naquele estilo, mas não conseguia imaginar toda a minha carreira à volta dele. Não me realizava criativa nem espiritualmente”, recorda. Dos anos com os ExL ficou-lhe o conhecimento de como funciona a indústria e a certeza de que o reconhecimento comercial não lhe bastaria se não se identificasse com o que estava a criar.


Em 2019, numa passagem por Portugal para gravar um videoclipe com DJ Pausas, voltou a cruzar-se com NGA, que estava noutra rodagem. Apresentou-se e recordou-lhe o espetáculo do Centro Lúdico em que, ainda criança, lhe tinha aberto o palco. NGA não se lembrava do episódio, e os dois ficaram-se pelos cumprimentos.


O contacto profissional chegou no ano seguinte, durante a pandemia. Chilala, amigo de NGA, acompanhava as demonstrações de mistura e masterização que LLAY publicava no Instagram, e foi por sua recomendação que o rapper angolano o contactou. “Relationship Goals” esteve entre os primeiros temas em que trabalharam juntos e ajudou a consolidar a confiança entre ambos. Seguiram-se outros projetos com NGA e a Força Suprema, incluindo o primeiro álbum de Monsta e, mais recentemente, A Prenda 4, cuja mistura e masterização ficaram a seu cargo.

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O trabalho exigiu-lhe uma atenção ainda maior aos detalhes técnicos, sobretudo ao tratamento das vozes e à forma como a emoção chega a quem ouve. Com os outros artistas, identificava com facilidade aquilo de que cada canção precisava, mas tinha dificuldade em encontrar a mesma clareza quando trabalhava nas suas próprias músicas.


Entre 2021 e 2022, retirou o seu catálogo do Spotify, da Apple Music e de outros serviços de streaming. Sentia-se esgotado artisticamente, deixara de se identificar com aquilo que criava e procurava uma sonoridade que correspondesse à pessoa em que se tinha transformado. Continuou a gravar, misturar e masterizar projetos de outros artistas e a escrever ideias, sem se pressionar para terminar e lançar canções. Perdeu os ouvintes mensais que tinha conquistado no Spotify e aceitou ter de reconstruir o público.


“Essas músicas representavam coisas que tinha explorado, mas já não soavam da maneira como eu queria soar. Queria que alguém que me descobrisse no meu regresso ouvisse música com a qual me identificasse completamente”, explica.


O afastamento mudou também a forma como encara a indústria. Continua a ambicionar reconhecimento, mas garante que as visualizações e os gostos deixaram de pesar nas suas decisões criativas como antes. Passou a produzir os próprios instrumentais e a construir as canções a partir das emoções e histórias que pretende transmitir, escolhendo os acordes e desenvolvendo a escrita e a produção em simultâneo. Também a componente visual ganhou outro peso, com videoclipes pensados como pequenas narrativas cinematográficas, em que as imagens aprofundam o significado da música.


O R&B alternativo é hoje o território onde encontra maior liberdade de expressão. Quer chegar a um público mais vasto, na comunidade lusófona e internacionalmente, através de músicas capazes de permanecer na memória de quem as ouve.


“Num sentido muito pessoal, já me sinto bem-sucedido porque finalmente encontrei a minha voz”, afirma.

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