“Mamã Guiné”, um documentário que encontra na cultura o fio que une um país

March 17, 2026
Mamã Guiné documentário
Still do documentário "Mamâ Guiné"

Partilhar

Mamã Guiné, documentário realizado por Filipe Traslatti e Maurício Franco, começou quase por acaso, a partir de uma cobertura eleitoral na Guiné-Bissau, mas transformou-se numa longa-metragem sobre identidade, cultura e o orgulho de um povo.


Com estreia marcada como filme de abertura do festival Doc.Coimbra, nesta terça-feira, 17, a obra acompanha os bastidores do Carnaval Nturudu e utiliza essa celebração como ponto de partida para refletir sobre a guineendade, a diversidade étnica e o papel da cultura na construção da identidade nacional.


A origem do documentário remonta a 2019, quando Filipe Traslatti viajou até à Guiné-Bissau para fazer a cobertura audiovisual das eleições para um partido político. O que inicialmente seria apenas um trabalho pontual rapidamente ganhou outra dimensão. “Durante as entrevistas percebi rapidamente que existia, por parte das pessoas, uma enorme vontade de falar não apenas de política, mas sobretudo da sociedade e da cultura do país. Essa percepção despertou em mim a sensação de que o material poderia ir muito além de uma simples cobertura eleitoral”, explica Filipe sobre como surgiu a ideia de produzir este documentário.


Essa perceção levou-o a prolongar as conversas e a explorar outras camadas da realidade guineense. Poucos meses depois, surgiu um novo convite: filmar um documentário sobre o Carnaval. Foi nesse momento que Maurício Franco se juntou ao projeto. A ideia inicial era produzir um filme curto, com cerca de meia hora mas o processo de filmagem acabou por revelar algo maior. “Durante o processo percebemos que o Carnaval é muito mais do que uma festa, é um acontecimento que levanta, com grande intensidade, diversas discussões sobre identidade cultural”, explica Traslatti.


A partir daí, os realizadores decidiram reunir o material recolhido ao longo das entrevistas políticas com as imagens do Carnaval e construir uma longa-metragem. Assim nasceu Mamã Guiné.

PUBLICIDADE

PUB - Seaan Tiller
Mamã Guiné documentário

DR

No centro do documentário está o Carnaval Nturudu, considerado o maior evento cultural da Guiné-Bissau e um momento de afirmação coletiva da identidade do país.


O filme acompanha os preparativos para o desfile, desde a criação das máscaras aos ensaios e discursos, cruzando essas imagens com depoimentos de artistas, músicos, historiadores e cidadãos comuns. Ao longo desse percurso, surgem reflexões sobre política, cultura e pertença.


Segundo os realizadores, a diversidade étnica e linguística do país é apresentada como uma força de união, e não como um fator de divisão.


“O filme busca dar voz a personagens de origens muito diferentes. São visões distintas que, em alguns pontos, convergem completamente. É nesses pontos de convergência que o filme se apoia”, explica Maurício Franco.

O significado de “Mamã Guiné”


O título do documentário surgiu de um momento inesperado durante as filmagens. Num dos ensaios do Carnaval, uma jovem rainha dirige-se diretamente à câmara e declara: “Eu sou Mamã Guiné”. A frase ficou na memória da equipa. “A partir daí, qualquer outro título que tentássemos imaginar parecia perder força”, conta Traslatti.


Para os realizadores, a expressão traduz uma ideia muito presente na sociedade guineense: a força da presença feminina e da lógica matriarcal, combinada com um forte sentimento de pertença ao território. “Pensar a Guiné como uma ‘Mamã’ pareceu-nos uma imagem poderosa para representar um território que acolhe e reúne todas essas identidades”, acrescenta.


A produção do filme também foi atravessada pela realidade política do país. Em 2020, quando a equipa estava a poucos dias de concluir as filmagens, ocorreu um golpe de Estado. “No início tentámos continuar a trabalhar normalmente, mas recebemos avisos para termos cuidado”, recorda Traslatti.


As filmagens passaram a acontecer sobretudo em interiores, até que a situação se tornou demasiado delicada e a equipa decidiu regressar a Portugal por razões de segurança.


Durante os anos seguintes, os realizadores tentaram voltar à Guiné-Bissau para terminar o filme, mas a instabilidade política continuou a impedir o regresso. No final, tiveram de aceitar terminar o documentário com o material que já tinham captado. “Essa impossibilidade acabou por moldar o próprio filme”, admite o realizador.

Mamã Guiné documentário

DR

Apesar de tocar em temas políticos e sociais, os realizadores sublinham que nunca partiram com a intenção de fazer um filme-tese sobre o país. “Acreditamos que o filme é muito mais um encontro do que uma explicação”, afirma Traslatti.


A abordagem partiu sobretudo da escuta e da curiosidade. “As nossas perguntas nunca tinham a intenção de procurar uma resposta específica. Eram feitas com vontade genuína de aprender.”


Essa postura, segundo os realizadores, ajudou a evitar narrativas simplificadas ou estereotipadas sobre a Guiné-Bissau. Uma das dimensões que mais surpreendeu a equipa durante as filmagens foi o orgulho que os habitantes demonstram em relação ao país. “Ainda hoje, quando vejo o filme, surpreende-me o orgulho que as pessoas têm em serem guineenses”, diz Maurício Franco.


Para o realizador, essa consciência coletiva da importância da cultura é uma lição que ultrapassa as fronteiras do país. “A forma como percebem que devem valorizar a si mesmos e valorizar a cultura é uma verdadeira lição para o mundo.”


Uma estreia simbólica no Doc.Coimbra


Depois de seis anos de trabalho, a estreia de Mamã Guiné como sessão de abertura do Doc.Coimbra assume um significado especial para a equipa. Em 2024, os realizadores já tinham passado pelo festival com o documentário Cretcheu, filmado em Cabo Verde. Foi nesse contexto que surgiram conversas com outros cineastas que os incentivaram a concluir o projeto. “Percebemos que talvez a nossa vontade de voltar à Guiné para filmar mais fosse mais uma necessidade nossa do que uma necessidade do próprio filme”, lembra Traslatti.


Regressar agora ao festival com a nova obra representa, para os realizadores, um momento de grande satisfação. Mais do que retratar apenas um país, os realizadores esperam que o documentário provoque uma reflexão mais ampla sobre identidade cultural. “Enquanto o filme fala sobre a guineendade, isso leva pessoas do mundo a refletir sobre o que faz de mim um português, um brasileiro ou um indiano”, explica Maurício Franco.


Para Filipe Traslatti, a mensagem central passa também pela ideia de união. “Enquanto muitos países vivem discursos de divisão étnica, a Guiné-Bissau mostra que essa diversidade pode ser a sua maior riqueza.” E essa ideia aparece sintetizada numa frase dita por uma das personagens do filme: “Os outros países devem aprender com a Guiné que lá se come numa mesma tigela, todos juntos. E isso representa a união da força.”

Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.

Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.

bantumen.com desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile