Entre o palco e o governo Margareth Menezes garante: “O cargo não apaga a profissão”

April 14, 2026
Margareth Menezes kriol jazz fest
Magareth Menezes durante o segundo dia da 15ª edição do Kriol Jazz Festival | ©BANTUMEN

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Margareth Menezes, cantora baiana que acumula o cargo de Ministra da Cultura do Brasil, marcou presença na 15.ª edição do festival, realizada entre 9 e 11 de abril na Praça Luís de Camões, na cidade da Praia.


Entre os nomes internacionais do cartaz deste ano, Margareth Menezes em entrevista à margem do festival, a artista falou à BANTUMEN sobre os dois papéis que desempenha, sobre o valor dos festivais de música lusófona e sobre os desafios da cultura numa sociedade polarizada.


Questionada sobre a eventual tensão entre a carreira artística e as responsabilidades governamentais, Menezes foi direta: "São duas coisas que se combinam e que se completam." Recordou que não é a primeira artista a exercer funções ministeriais no Brasil - Gilberto Gil percorreu o mesmo caminho antes dela - e sublinhou que o cargo não apaga a profissão. "Isso não nos tira a nossa profissão", afirmou. "O importante é que, nos momentos que me permite a lei, eu possa exercer também a minha profissão."


Ainda assim, reconhece que a gestão não é simples. "O ministério absorve muito", admitiu. "Tenho que tirar alguns dias de férias para fazer um show ou outro." Mas o balanço que faz, ao fim de mais de três anos à frente da pasta, é positivo e lembra a escala do desafio: "O ministério no Brasil é muito importante. O país é enorme e o setor cultural muito forte também."


Este ano em que celebra quatro décadas de carreira, Menezes garante que tudo "está caminhando bem, relativamente bem" - uma expressão que, dita com o sorriso que lhe é característico, parece conter tanto modéstia como convicção.

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Universal / Carlão

“O festival como espaço de circulação e renovação”


Sobre a sua presença no Kriol Jazz Festival, Menezes não hesitou em elogiar a proposta do evento. "O festival tem uma proposta muito bacana, que é justamente fazer circular", disse, enquadrando-o numa tradição internacional de festivais de world music em que participa há décadas. "Ao longo desses 40 anos, já participei de alguns importantes."

Para a cantora, o valor destes encontros vai além da música em si. "É bom também porque você vê pessoas novas na cena da música, essa música lusófona também. E isso fortalece muito essa comunicação, essa renovação da cena musical internacional." Na sua visão, os festivais têm uma dimensão simbólica e coletiva que os distingue de outros formatos: "O festival traz uma simbologia de ter uma coisa mais democrática, de ter uma coisa mais coletiva."


É essa coletividade, defende, que torna os festivais numa ferramenta cultural insubstituível: "Você abre canais de troca, de comunicação, de renovação." E sintetiza o que considera ser o ponto mais importante de toda a experiência cultural: "Ter a nossa ancestralidade, mas saber que somos contemporâneos. Isso, para mim, é o mais importante," afirmou.


Quando pressionada sobre o que mais poderia ser feito na relação entre o Brasil e os PALOP, além dos festivais, Menezes desviou com elegância: "Aí é uma conversa para a ministra. Agora estou aqui no modo artista."


A ligação afetiva de Menezes a Cabo Verde ficou clara ao longo da conversa. A artista descreveu o país como "uma terra nobre, com tantos artistas importantes que impactam a world music." Referiu conhecer o trabalho de Lura e de Sara Tavares, a quem deixou uma palavra de sentimento pela recente partida: "Meus sentimentos pela partida dela." E não deixou dúvidas sobre o lugar do arquipélago no mapa musical mundial: "Cabo Verde é um dos países que são referências na música afro-contemporânea."

Margareth Menezes kriol jazz fest

Margareth Menezes e Nara Couto no Kriol Jazz Festival, abril de 2026 | ©BANTUMEN

“A política certa é a política que ouve e que atende às necessidades do povo”

Margareth Menezes

Num ano eleitoral, a pergunta sobre os desafios da produção cultural numa sociedade polarizada era inevitável. Menezes respondeu a falar enquanto artista, não enquanto ministra. "O mais importante é as pessoas se apaixonarem pelas conquistas que são construídas para o povo", disse. Para ela, a cultura não existe fora das pessoas: "Quem faz a cultura, quem faz a arte são as pessoas."


E ao Estado cabe uma função clara: "Proporcionar políticas que deem condição, qualidade de aprendizado, também de fortalecimento do setor. É dessa maneira que a gente tem trabalhado no Brasil." Uma política que funciona, defende, é aquela que escuta: "A política certa é a política que ouve e que atende às necessidades do povo."


A edição deste ano do Kriol Jazz Festival prestou homenagem a Zeca Di Nha Reinalda, uma das personalidades mais relevantes da música cabo-verdiana, numa escolha que reforça o compromisso do festival com a valorização da identidade musical do arquipélago - o mesmo compromisso que trouxe Margareth Menezes à Praia, e que a fez sair de lá com a convicção de que estes encontros são, acima de tudo, necessários.


Margareth Menezes atuou na segunda noite do festival, que contou ainda com as atuações do pianista cubano Alfredo Rodriguez e os congoleses Les Quatre Étoiles du Zaïre. Depois da Praia, a artista seguiu para São Vicente para um segundo espetáculo, que descreveu como "talvez um pouco diferente", com "um repertório maior" e "a mesma energia, a mesma alegria de cantar e de me comunicar."

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