“Cada combate fora de Angola é uma bandeira que carrego comigo”, Maria Kitoko

February 8, 2026
maria kitoko entrevista
Mária Kikoto | ©Federação Angolana de Artes Mistas

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As Artes Marciais Mistas começaram a ganhar expressão internacional a partir da década de 1990, acompanhando a consolidação de competições híbridas e a crescente mediatização do desporto de combate. Em Angola, a modalidade chegou de forma fragmentada e tardia, impulsionada sobretudo pela circulação informal de conteúdos internacionais e pela adaptação local de práticas como o boxe, o judo, o karaté ou a luta livre. Durante muitos anos, o MMA foi praticado em espaços improvisados, sem acompanhamento técnico estruturado e frequentemente confundido com violência, permanecendo fora dos circuitos institucionais do desporto nacional.


Só na década de 2010 surgiram tentativas de organização formal, com a criação da federação nacional e a ligação a circuitos internacionais associados à International Mixed Martial Arts Federation (IMMAF). Ainda assim, a modalidade continua a desenvolver-se num contexto marcado pela ausência de financiamento sólido, pela inexistência de centros de alto rendimento e pela falta de políticas públicas consistentes para o desenvolvimento de carreiras desportivas. Para a maioria dos atletas, competir implica conciliar treinos intensivos com estudos e trabalho, quase sempre sem remuneração regular ou perspetiva de profissionalização.


Dentro deste sistema já fragilizado, as mulheres enfrentam obstáculos adicionais. A presença feminina nas artes marciais em Angola é residual e diminui ainda mais quando se trata de competição internacional. A desigualdade não resulta da falta de talento, mas da escassez de oportunidades, do acesso limitado a apoio técnico continuado e da persistência de estigmas sociais associados à prática de desportos de combate por mulheres. “Ser mulher neste meio significa ter de provar constantemente que mereces estar ali. Mesmo quando ganhas, tens de continuar a justificar a tua presença”, afirma Maria Kitoko, primeira mulher angolana a conquistar dois títulos mundiais consecutivos de MMA.

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“Sempre andei muito com rapazes, jogava futebol, basquete, andava na rua. Nunca vi isso como um problema.”


Maria Kitoko

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©Federação Angolana de Artes  Mistas

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Nascida a 3 de novembro de 2005, no Lubango, província da Huíla, Maria Luzala Georges Kitoko, também conhecida como Joyce Kitoko, passou a infância entre a Huíla, Luanda e Uíge, num percurso familiar marcado pela mobilidade e por uma vida simples, vivida sobretudo na rua. “Cresci rodeada de simplicidade, desafios e muita vida. A minha infância foi feita de correr, cair e levantar, de aprender cedo que nada vem fácil”, recorda.

Ainda criança, mudou-se com a família para Luanda. Em casa, valores como o respeito, a disciplina e a responsabilidade moldaram a formação pessoal e fizeram entender que “o caráter vale mais do que qualquer título”, frase que usa para apontar a família como base da sua formação, muito antes de afirmar-se como atleta. Desde cedo esteve ligada ao desporto, inicialmente em modalidades coletivas como futebol, andebol e basquetebol. Frequentemente a única rapariga nos grupos onde treinava, nunca sentiu que esses espaços não lhe pertenciam. “Sempre andei muito com rapazes, jogava futebol, basquete, andava na rua. Nunca vi isso como um problema.”

O primeiro contato com o MMA aconteceu quase por acaso. Procurava ganhar força física para melhorar o desempenho no basquetebol e inscreveu-se num ginásio. A adaptação foi imediata. “Uma semana foi suficiente para me apaixonar”, recorda. Pouco tempo depois, decidiu abandonar o basquetebol e dedicar-se exclusivamente às artes marciais. Menos de um mês após entrar na academia, realizou o primeiro combate contra uma atleta mais experiente e colega de treino. “Ainda não tinha um mês de treino quando surgiu a luta. Perguntaram se eu queria e eu disse logo que sim.”

A vitória marcou-a tanto pela superação quanto pela carga emocional. “Foi uma luta muito emocionante. Chorei bastante, porque estava a lutar contra uma colega, alguém que já considerava amiga”, lembra. O frio na barriga desse primeiro combate permanece distinto de tudo o que viria depois. “Hoje continuo a sentir nervos antes de lutar, mas aquele dia foi diferente. Foi medo puro.”

“Sempre vi o conhecimento como algo essencial para o meu crescimento enquanto atleta e enquanto mulher”

Maria Kitoko

Conciliar treinos, estudos e vida pessoal revelou-se um desafio constante. Houve momentos em que teve de escolher entre estudar, trabalhar ou treinar, num contexto em que o desporto não oferece estabilidade financeira. Ainda assim, nunca colocou a educação em segundo plano. “Sempre vi o conhecimento como algo essencial para o meu crescimento enquanto atleta e enquanto mulher.”


Em 2024, conquistou o seu primeiro título mundial da IMMAF e tornou-se a primeira mulher angolana campeã mundial de MMA. Um ano depois, em 2025, voltou a vencer, já na categoria sénior, durante o campeonato realizado em Tbilisi, na Geórgia, entre 27 de setembro e 2 de outubro. A vitória integrou um desempenho histórico da seleção angolana, que arrecadou 11 medalhas no total. Atualmente, Maria compete na categoria Super Lightweight (74,8 kg) e ocupa o 43.º lugar no ranking feminino Pound for Pound do Médio Oriente e África.


A projeção internacional alterou a forma como Maria Kitoko passou a encarar cada competição. Competir fora de Angola deixou de ser um desafio desportivo para assumir uma dimensão simbólica e representativa, associada à visibilidade do país e às expectativas colocadas sobre quem consegue chegar a palcos internacionais num contexto de escassez de oportunidades. “Cada combate fora de Angola é uma bandeira que carrego comigo. Represento jovens que sonham, mas que ainda não têm oportunidades”, afirma. Foi a partir dessa consciência que, após o bicampeonato mundial, decidiu tornar pública uma mensagem dirigida ao Presidente da República, João Lourenço, apelando a um maior compromisso com o desporto nacional. “Todos levantamos a mesma bandeira. Não queremos apenas flores, também temos fome.”

“Saber que, através do meu percurso, consigo inspirar jovens negras a acreditarem nas suas capacidades é uma das maiores honras da minha vida”

Maria Kitoko

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©Federação Angolana de Artes  Mistas

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A frase teve ampla repercussão nas redes sociais e sintetizou uma crítica recorrente entre atletas angolanos: o reconhecimento simbólico raramente é acompanhado por investimento estrutural. Para Maria, o problema não se resume ao Estado e estende-se às empresas privadas “que podiam apoiar atletas no dia a dia, não só quando ganhamos medalhas. Se dependermos apenas do governo, não teremos nada.”


Em 2025, Maria Kitoko integrou a lista das 100 Personalidades Mais Influentes da Lusofonia, uma distinção anual criada pela BANTUMEN, que reconhece figuras com impacto relevante nas áreas da cultura, política, desporto, activismo, ciência e pensamento crítico no espaço lusófono. Para a atleta, a distinção inscreve-se num quadro mais amplo de visibilidade e reconhecimento, espaço onde as referências femininas negras no desporto de alto rendimento continuam a ser escassas. Integrar uma lista que reúne figuras com impacto no universo lusófono reforça a dimensão simbólica do seu percurso para além dos resultados competitivos. “Essa nomeação não representa apenas uma conquista pessoal, mas um reconhecimento coletivo”, afirma. “Saber que, através do meu percurso, consigo inspirar jovens negras a acreditarem nas suas capacidades é uma das maiores honras da minha vida.” Mais do que um título, vê na distinção a confirmação da importância da representatividade enquanto ferramenta de mudança. “Quero que outras meninas percebam que são capazes. O caminho é difícil, mas possível.”


O futuro passa por continuar a competir ao mais alto nível, contribuir para o desenvolvimento do MMA em Angola e ajudar a criar melhores condições para as próximas gerações. “O talento existe. O que falta é estrutura, continuidade e respeito”, conclui.

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