Como “Ilha Ilhéu”, de Matos Trio, faz da criação um som impossível de reproduzir duas vezes

April 9, 2026
matos trio entrevista ame 2026
©Lentilhas

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A ideia nasceu de um convite que não estava nos planos de ninguém. Em 2023, o músico Charles Monteiro assistiu a um concerto de piano solo de Carlos Matos em São Vicente e ficou com uma proposta na cabeça: transformar aquilo num trio para tocar na Mindelo Samba Jazz. Carlos Matos aceitou, chamou o seu manager e começou a pensar em quem podia entrar. Ndu já conhecia Carlos da Orquestra Nacional - foi a primeira vez que tocaram juntos - e o saber estar do pianista com as pessoas ficou registado. Quando chegou o convite, o facto de Elias, "irmão e companheiro de já há algum tempo", também fazer parte foi decisivo. "Senti que é um projeto de estar em casa", disse. Para Elias, o mais novo dos três, a proposta era difícil de recusar. "É um repertório totalmente diferente. E eu já vinha seguindo o Carlos há muito tempo."


Três anos depois, a 7 de abril de 2026, o grupo subia ao palco do Palácio da Cultura Ildo Lobo, na Praia, no âmbito do Atlantic Music Expo. Era a segunda vez que tocavam naquele espaço, a primeira tinha sido para gravar o disco. Mas antes de falar do concerto ou do álbum, é preciso perceber o que une estas três pessoas e o que as levou até ali.


Carlos Matos nasceu na Holanda. Cresceu rodeado de música cabo-verdiana, mas foi pela via do jazz e da composição contemporânea que construiu a sua identidade artística. Vive entre a Holanda e Cabo Verde, trabalha como professor e carrega essa postura para dentro do grupo. Ndu, que o observou pela primeira vez a dirigir a Orquestra Nacional, descreve-o com precisão: "É mais de um mestre. Dá espaço para as pessoas se encontrarem dentro dos assuntos que ele propõe” e admite que a dimensão humana não pode ser desvinculada do resultado final porque “a música é mais das pessoas do que dos sons. Os sons depois acontecem."


Elias, o mais novo dos três, assume abertamente o lugar que ocupa no grupo. "Estou no meio de dois mestres e estou aqui a absorver." Recebeu a proposta de Carlos sem hesitar e, para ele, cada concerto do Matos Trio é uma sessão de aprendizagem em tempo real. "Sempre que toco as músicas é algo novo, sempre uma sensação nova e sempre um conhecimento novo."

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O grupo trabalha dentro de uma estética de improvisação que tem a música de Cabo Verde como base. Carlos Matos começou a desenvolver este conceito em 2006, a partir de uma vontade de fazer algo com a música do arquipélago que não fosse uma reprodução. A filosofia que cita como referência é a de Miles Davis: ter em conta as regras para poder quebrá-las. O resultado são composições suas - algumas originais, outras adaptações de temas que já existem na tradição cabo-verdiana - que chegam aos outros dois como sugestões, não como partituras fechadas.


"Apesar de ser o solista do grupo, é uma conversa constante", explicou Carlos Matos. O que se toca em palco nunca é idêntico ao que foi gravado, nem ao que foi tocado no concerto anterior. Ndu põe isso de forma direta: "Se fores ver o concerto que gravámos no disco, este concerto também está diferente. Não é para já, é o momento." A música existe no tempo em que acontece. O que o grupo grava é um registo de um estado, não uma versão definitiva.


A noção de que a música pertence ao momento e não ao músico é partilhada pelos três. Quando confrontados com a ideia - expressa por Mário Lúcio numa entrevista anterior à BANTUMEN - de que a música nasce por si só e o artista é apenas quem a traz ao mundo, Ndu respondeu sem hesitar: "Nós somos mais recetores do que criadores. Nós somos pessoas que nos preparamos tecnicamente, espiritualmente, no processo. Mas às vezes o processo de composição parece mágico. Parece uma coisa que vem."


O álbum do Matos Trio chama-se Ilha Ilhéu e foi editado em vinil, numa tiragem numerada, com fotografia de capa assinada por Paz Monteiro. Foi gravado no Palácio da Cultura Ildo Lobo - o mesmo espaço onde o grupo voltaria a tocar no âmbito do AME. O formato é uma escolha alinhada com o conteúdo e Carlos Matos descreve o vinil como "outra dimensão" sonora e, a ideia de uma capa com fotografias que permitem ao ouvinte imaginar como seria estar num concerto do trio, faz parte da construção total do objeto.


O próprio título resume o projeto num todo numa lógica em que a ilha é o espaço, a composição, o contexto cultural, a música de Cabo Verde que serve de base. O ilhéu é quem habita esse espaço: cada um dos três músicos, com os seus trajetos diferentes, a sua formação distinta, a sua maneira de reagir aos assuntos propostos. "Por ser um ilha ilhéu, sentimo-nos em casa", disse Ndu. "Há um espaço para mais, neste caso, dois indivíduos que podem ser ilhéus naquela ilha."


O repertório reúne composições originais - entre as quais "Avenida 75", inspirada numa avenida localizada na cidade da Praia onde se celebra a independência do país, conquistada em 1975 juntamente com outros países africanos de língua portuguesa - e adaptações de temas da música cabo-verdiana, como "Dança dos Grilos", gravada anteriormente, mas aqui com uma sonoridade diferente. Carlos Matos refere ainda a presença do funaná como elemento de homenagem aos músicos que moldaram a música de Cabo Verde.

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Elias tem uma reflexão sobre a sua própria formação que diz muito sobre o que o Matos Trio representa para um músico da sua geração. Começou a tocar sozinho, guiado pelo instrumento e depois pela internet, sem professor formal. Foi um músico mais velho que lhe disse, a certa altura, que tocar não chegava. "Os acordes são tipo o alfabeto, o ABC. Mas tu tens que formular frases, tens que formular vocabulário." Aprender escalas no YouTube é uma coisa. Perceber a cultura que está por baixo da música é outra. "A cultura é a base. Ela já existe por si só."


Ndu faz esta mesma distinção de forma diferente. Para ele, trabalhar a música de Cabo Verde como compositor não é preservar um arquivo, é antes saber usá-la como língua viva. "Eu não sou de Cabo Verde, mas já estou aqui há tanto tempo e reconheço a linguagem musical". E acrescenta que o que convida é precisamente isso: músicos que conhecem essa linguagem, que têm trajetos diferentes e que reagem aos mesmos assuntos de maneiras diferentes porque “a estética da música tem mais a ver com o processo das pessoas.” No final, e de uma forma ou de outra, "a música aparece. E fica", e essa para o grupo, é uma das maiores mais valias de um processo criativo em que acabam por tornar-se mais “recetores que criadores.”


A presença no Atlantic Music Expo é, para o Matos Trio, uma oportunidade de consolidação internacional. O grupo tem propostas para datas na Europa e a intenção é conquistar produtores que possam levar o projeto para além de Cabo Verde. O concerto de 7 de abril foi recebido por um público que, segundo os músicos, superou as expectativas. "Tivemos uma boa conversa, inclusive com o público. Não tivemos que estar necessariamente de acordo, mas foi bom para todos", disse Ndu, que aproveita o contexto para fazer uma observação que ultrapassa o grupo.


Muitos jovens artistas cabo-verdianos chegam ao AME sem a estrutura necessária para aproveitar o que a plataforma oferece, não por falta de talento musical, mas por falta de apoio nas áreas de organização, comunicação e gestão. "Os artistas que vêm de fora vêm melhor preparados." A solução que propõe passa por um gabinete de capacitação, dependente do Ministério da Cultura, que acompanhe os projetos emergentes antes e depois dos showcases, com ferramentas básicas como biografias, fotografias promocionais e orientação sobre como funciona a indústria. "A plataforma ajuda, mas não resolve por si só."


Para o Matos Trio, essa é uma questão urgente, mas nem por isso determinante para o que o grupo tem em mente, uma vez que os três elementos reconhecem no coletivo experiência suficiente para saber o que precisam e como construir uma equipa à volta do projeto.


A “conversa” que levam para o palco, afirmam, pode ser tida em qualquer sítio do mundo. "Quando sais, o que resulta é falares da tua realidade de uma forma aberta, apaixonada, que convide os outros a ouvirem e a participarem também." É com essa convicção que o trio olha para o que vem a seguir.

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