Mella Table 2 regressou a Lisboa para fortalecer redes entre criativos e empreendedores

May 21, 2026
mella table 2
©Denise Sonnemberg

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Num ecossistema em que se fala tantas vezes de comunidade, a repetição pode ser uma forma de compromisso. Voltar à mesa, criar cadência, organizar conhecimento e distribuí-lo entre pessoas que partem de experiências semelhantes talvez seja, afinal, uma das formas mais concretas de construir estrutura. Foi isso que a MELLA TABLE 2 tentou fazer em Lisboa.


Promovida pela Mella Supply, a segunda edição do encontro reuniu profissionais, empreendedores e criativos afrodescendentes e lusófonos num formato que quis ir além do networking informal. Se a primeira mesa, realizada em fevereiro, serviu para testar uma pergunta central: existe ou não comunidade negra em Portugal?, esta segunda edição parece ter partido de um entendimento mais pragmático: a comunidade existe, mas precisa de ritmo, continuidade e ferramentas para se tornar útil no quotidiano de quem empreende, trabalha e cria.


A fundadora da plataforma, Ana Fernandes Martins, tem insistido precisamente nesse ponto. A questão já não é apenas reconhecer talento, ambição ou vontade de fazer, mas criar mecanismos para que esse capital circule entre pares e se traduza em crescimento real. Nesse sentido, a MELLA TABLE 2 escapou à lógica de evento para posicionar-se  como dispositivo de trabalho.


O encontro decorreu na Casa do Impacto, em Lisboa, sob o mote “Mentoring as a Village” e foi pensado como um acelerador de mentoria entre pares. Segundo a informação do evento, a proposta assentava num modelo de reverse mentoring, em que ninguém entra só para ensinar ou só para aprender. Todos trazem uma experiência que pode ser útil a outra pessoa na sala. A ideia, aliás, é simples: muitos dos programas de mentoria tradicionais não foram desenhados a partir das experiências de profissionais negros e lusófonos, mas sim adaptados para incluí-los. A MELLA quis inverter esse ponto de partida e ativar conhecimento já existente dentro da própria rede.


Em vez de especialistas externos ou fórmulas abstratas sobre empreendedorismo, o foco esteve na partilha de soluções práticas entre pessoas que conhecem, por dentro, os bloqueios de acesso, visibilidade e estrutura que continuam a marcar muitos percursos. O valor do encontro esteve menos na retórica aspiracional e mais na possibilidade de encurtar caminho: trocar contactos úteis, afinar decisões, discutir desafios reais e sair com ações concretas.


A divulgação do encontro já apontava isso ao descrever a dinâmica entre mentores fixos e participantes em rotação, bem como os momentos coletivos da tarde. Mas o que esta segunda edição revela é algo maior do que o desenho do programa. Revela uma tentativa de transformar conhecimento informal em recurso partilhado e de fazer da comunidade um espaço operativo, não apenas identitário. O nome “Supply”, escolhido pela Mella, ajuda a perceber essa intenção: oferecer aquilo que tantas vezes falta, acesso, estrutura e visibilidade.


Nas palavras de Ana Fernandes Martins, trata-se de deixar de procurar fora um conhecimento que já existe dentro da comunidade, ainda que nem sempre esteja organizado ou acessível. Num contexto em que tantos profissionais e empreendedores negros continuam a navegar por estruturas pouco desenhadas para os seus percursos, sentar-se à mesma mesa para trocar estratégia pode ser tão importante como qualquer discurso sobre representatividade.


No fim, talvez seja isso que a MELLA TABLE 2 tenha tentado provar: comunidade não é apenas reconhecer-se no outro, mas criar condições para que essa identificação produza circulação, confiança e ação. O desafio, agora, é que ela continue a existir com regularidade suficiente para que a comunidade deixe de ser apenas uma possibilidade e passe a funcionar como infraestrutura

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